O futuro repete o passado: como a transição verde renova o colonialismo climático
Sem reparação histórica e justiça territorial, o modelo de financiamento ambiental transforma a urgência climática em uma nova rodada de endividamento e sacrifício das periferia
Por Antônio Celestino
“Eu sei o que vocês fizeram no verão passado.” A icônica frase ganha um peso incontornável quando dirigida às potências cuja riqueza foi forjada pela expropriação colonial. A acumulação primitiva não é um conto de fadas sobre nações que trabalharam e pouparam mais. A riqueza de certas nações é produto do violento divórcio entre os trabalhadores e suas condições de existência, um processo estruturado pela usurpação, pela escravização e pelo saque (Marx, 2013). O colonialismo clássico pode pertencer ao passado do Norte Global, mas a arquitetura de poder político e financeiro que ele ergueu continua a ditar as regras da nossa sobrevivência para o próximo verão.
Em 3 de setembro de 2026, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) anunciou a previsão de intensificação do El Niño, com possibilidade de atingir intensidade muito forte e produzir efeitos que se estenderão por 2027. O fenômeno é uma oscilação climática natural, mas atua sobre um planeta já aquecido pela ação humana (World Meteorological Organization, 2026). O que não podemos aceitar é o fatalismo: a distribuição assimétrica dos danos não é um destino traçado pelo Oceano Pacífico. Ela encontra um sistema global que concentra riqueza e capacidade de proteção, enquanto transfere às periferias uma parcela desproporcional dos custos da crise. A previsão meteorológica anuncia um perigo, as condições econômicas e territoriais ajudam a determinar quem ficará exposto a ele.
O dilema central reside, portanto, no desequilíbrio entre os recursos destinados à mitigação e à adaptação. Quando a descarbonização se desconecta da adaptação concreta e da desvulnerabilização dos territórios empobrecidos, a transição energética do centro do capitalismo ameaça cobrar novos sacrifícios das periferias do mundo. Reduzir emissões é indispensável, mas essa redução não substitui a infraestrutura, a moradia e a proteção social de quem já enfrenta os efeitos do aquecimento. O próximo verão deixa, então, de ser apenas uma questão meteorológica: torna-se uma disputa sobre quem terá condições de atravessá-lo.
A urgência da crise é, ela mesma, a tessitura da disputa fundamental do nosso tempo: que economia financiará a nossa sobrevivência? Seguramente não aquela organizada para converter a riqueza social em patrimônio de uns poucos. Se a proteção da vida precisa demonstrar rentabilidade antes de receber recursos, já se decidiu quais necessidades poderão esperar. E esperar, para quem vive entre uma encosta instável e a próxima chuva, não é uma operação abstrata sobre o tempo.
O abismo financeiro revela a escala da hipocrisia global. Em 2025, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) estimou, com base em custos modelados, que a adaptação nos países em desenvolvimento exigirá US$ 310 bilhões anuais em 2035. Em brutal contraste, os fluxos públicos internacionais destinados à adaptação nesses países foram de US$ 26 bilhões em 2023 (United Nations Environment Programme, 2025). A comparação entre a necessidade projetada e o financiamento registrado não descreve apenas uma ameaça futura. Ela dá a medida de um presente que já assume a forma de distopia para quem precisa sobreviver enquanto a proteção permanece condicionada a negociações, garantias e expectativas de retorno.
Mas o problema vai além da escassez de financiamento e não se confunde com a disponibilidade de recursos naturais. Ele reside também na forma pela qual reeditamos o fluxo histórico de capitais: territórios ricos em natureza permanecem subordinados às condições financeiras e tecnológicas de seu aproveitamento. Quando a proteção climática depende de endividamento, compromete-se a receita futura de um país soberano para responder a uma crise cujas responsabilidades históricas são profundamente desiguais. Essa diferença, reconhecida pela própria Convenção do Clima, deveria orientar a distribuição dos encargos, não desaparecer quando se negociam as condições do financiamento (United Nations, 1992).
A cooperação internacional sob a forma de empréstimos pode operar como um refinado mecanismo neocolonial quando os encargos da dívida e as condições de acesso aos recursos subordinam as prioridades nacionais às exigências dos financiadores. Obriga-se o Sul Global a responder a estas perguntas: quem define as prioridades dos fundos? Quais despesas sociais básicas serão comprimidas para que essa “dívida verde” seja honrada? Não basta saber quanto dinheiro chega: é preciso perguntar o que ele exige em troca. Quando a reparação é substituída por crédito oneroso, a responsabilidade pela crise corre o risco de ser convertida numa obrigação financeira de suas vítimas. Financiar a adaptação de modo a enfraquecer a capacidade de investimento público é renovar a subordinação, afundando-nos duplamente: em água e em dívidas.
Enquanto o Sul Global disputa recursos para mitigar emissões e adaptar seus territórios, o Norte articula sua blindagem econômica. Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia anunciou medidas para assegurar o fornecimento de matérias-primas críticas e proteger as cadeias industriais do bloco, inclusive mediante parcerias com países ricos em recursos. A iniciativa integra uma estratégia de segurança econômica que alcança setores da transição energética, mas também a defesa e a indústria digital (Comissão Europeia, 2025).
Fica a pergunta: se a Europa explicita o interesse geopolítico que orienta sua política industrial e sua transição ecológica, por que o Brasil e a América Latina deveriam atuar como meros provedores de recursos baratos? A disputa pelo lítio e pelo cobre, assim como os projetos de hidrogênio verde voltados à exportação, coloca uma escolha: desenvolver capacidade produtiva e tecnológica própria ou limitar-se a abastecer a transformação industrial alheia.
A mais-valia sempre envolveu a apropriação do tempo de trabalho não pago; a redução do trabalhador à disponibilidade para a valorização do capital não começou neste século (Marx, 2013). No capitalismo do século XXI, porém, essa disputa pelo tempo revela uma dimensão que não podemos contornar: além do tempo de vida consumido pelo trabalho, estão em jogo as condições de reprodução da vida na Terra. Quando a acumulação depende de degradar essas condições e adiar sua reparação, o presente rentável passa a consumir as possibilidades de futuro. Se continuarmos a entregar recursos naturais a baixo custo e a assumir dívidas em moeda estrangeira sem transformar essa posição, a propalada “transição verde” renovará um ciclo de superexploração que compromete as bases de sua própria continuidade.
Assim, a conexão entre o colonialismo verde e o pacto segregacionista das nossas metrópoles não está numa equivalência perfeita entre países e bairros, mas na distribuição política dos custos da acumulação. Essa distribuição se realiza por decisões sobre crédito, orçamento, propriedade e infraestrutura. Quando a proteção e os investimentos se concentram nos territórios que oferecem maior retorno econômico, enquanto a urbanização dos territórios negros e pobres permanece adiada, a condição de zona de sacrifício se reproduz dentro das próprias cidades. É nessa mediação entre interesses econômicos e decisões territoriais que a diplomacia do clima encontra a materialidade do racismo estrutural (Silva Neto; Romeiro; Cunha, 2025).
É aqui que a fratura global encontra o CEP e a cor da pele. Nas metrópoles brasileiras, o abismo entre a diplomacia dos fóruns internacionais e a sobrevivência cotidiana tem materialidade: aparece na distância entre o território protegido por infraestrutura e aquele ao qual se oferece apenas a expectativa de socorro. O espaço urbano perpetua a desigualdade por meio de escolhas sobre quais territórios serão protegidos e quais vidas continuarão expostas. É nessa distribuição política da proteção e do abandono que podemos reconhecer a subordinação da vida ao poder da morte (Mbembe, 2018). A tragédia não começa quando a chuva cai; começa quando a exposição de determinadas vidas é admitida como parte do funcionamento normal da cidade.
A vulnerabilidade das favelas aos desastres socioambientais é agudizada pelas mudanças climáticas, mas essa vulnerabilização é, antes de tudo, um produto histórico do racismo estrutural e da colonialidade das relações de propriedade. Há décadas, a política urbana e habitacional reproduz um silêncio sobre a dimensão racial da desigualdade (Fischer, 2020). Esse silêncio permite tratar a exclusão dos territórios negros e pobres da infraestrutura básica como deficiência administrativa, sem enfrentar os interesses que ela preserva. A “consciência” de uma burguesia que ama Miami e se reconhece na bandeira americana estendida na Avenida Paulista ajuda a dar forma a essa contradição: imagina sua prosperidade à imagem do Norte, enquanto aceita que os custos de sua reprodução permaneçam nas periferias daqui.
Essa identificação não se encerra entre os proprietários. A promessa de ascensão individual pode alcançar o próprio povo uberizado, convocando-o a reconhecer nos brados de “make America great again” uma grandeza à qual supostamente também pertencerá. Não se trata de atribuir uma mesma posição política a todos os trabalhadores precarizados, mas de compreender a força de um discurso que oferece pertencimento simbólico onde faltam direitos materiais. O trabalhador é convidado a se imaginar do lado de quem controla a economia, mesmo quando não controla o preço de seu trabalho, o tempo de descanso ou as condições de seu deslocamento pela cidade.
Empresários de nós mesmos, retornamos às nossas “áreas de risco” de cada dia, pressionados a incorporar a retórica de nossa própria exclusão. Diante dos noticiários, somos convocados a reconhecer a culpa por morarmos onde moramos e morrermos pelas enxurradas. O receituário neoliberal já fez seu trabalho: ninguém seria mais culpado que nós mesmos pela nossa pobreza. O risco do trabalho e o risco de morar passam, assim, a ser apresentados como escolhas privadas de quem dispõe de pouca margem para escolher. O que aparece como autonomia individual é atravessado por condições que só podem ser transformadas coletivamente.
Romper esse ciclo demanda uma utopia prática, sem muitos rodeios, e o enfrentamento das tarefas complexas que dela decorrem. É preciso sermos enfáticos: o “fim da história” de Fukuyama não designava o desaparecimento dos acontecimentos, mas a hipótese de que a democracia liberal constituiria o horizonte final da evolução ideológica (Fukuyama, 1989). Seu avesso contemporâneo nos coloca diante de outra possibilidade: a ameaça de um “fim dos tempos” produzida pela incapacidade de admitir que a organização econômica do presente precisa ser transformada. Não pela ameaça socialista, mas pelo estreitamento do horizonte de emancipação que a utopia socialista mantinha em disputa. Se o capitalismo é apresentado como insuperável, a catástrofe corre o risco de se tornar mais aceitável do que sua superação.
Uma utopia prática começa por recusar essa interdição. Exige articular a agenda climática a um projeto nacional de desenvolvimento soberano, em cooperação com os países do Sul Global. Para o Brasil, isso significa disputar as condições de financiamento, desenvolver capacidade industrial e tecnológica e orientar o aproveitamento da natureza pela reprodução da vida, não pela ampliação de sua depreciação. Não basta alterar o destino das exportações se permanecer intacta a posição de fornecedor de recursos baratos. Tampouco basta aumentar a riqueza nacional se os territórios que a produzem continuarem privados de seus benefícios. A soberania precisa alcançar tanto a relação entre as nações quanto a relação entre o Estado e seu povo.
No cenário internacional, a declaração do BRICS de 2025 oferece um ponto de apoio ao defender que o financiamento da adaptação seja prioritariamente concessional, baseado em doações e acessível às comunidades locais, sem aumentar substancialmente o endividamento das economias em desenvolvimento (BRICS, 2025). Esse ponto de apoio precisa ser convertido em capacidade de negociação, cooperação tecnológica e decisões compatíveis com os interesses das populações. A reparação histórica permanece uma exigência política que precisamos sustentar: recursos destinados à proteção da vida não podem reconstituir as relações de subordinação que ampliaram sua exposição ao desastre. A cooperação entre países do Sul não dispensa esse critério; também deve responder a ele.
Internamente, não há como enfrentar a adaptação sem construir um federalismo climático que sustente uma governança multinível. Os desastres do Recife, em 2022, e de Porto Alegre, em 2024, evidenciam a necessidade de planejamento metropolitano articulado aos comitês de bacia e às políticas de habitação, saneamento e proteção civil. Uma bacia hidrográfica não se encerra na divisa administrativa de um município, e a proteção de seus habitantes não pode depender de iniciativas isoladas. Em junho de 2023, levantamento da Agência Pública identificou 17 capitais sem planos municipais de mudanças climáticas concluídos (Bieber, 2023). A elaboração dos planos, entretanto, não encerra a obrigação pública. É preciso assegurar orçamento, execução, responsabilidades definidas e controle social para que a proteção saia do papel. O calendário das decisões públicas precisa responder à urgência anunciada pelo El Niño, não apenas ao calendário posterior das calamidades.
A governança climática precisa ser radicalmente reformada, e essa reforma deve alcançar os territórios onde a vida permanece exposta. Tanto quanto adaptar, o imperativo é “desvulnerabilizar”: fortalecer a capacidade de decisão das comunidades e favelas, incorporar os conhecimentos tradicionais às políticas e garantir que as perspectivas de raça e gênero deixem de ser notas de rodapé para se tornarem critérios centrais dos investimentos e dos indicadores de resultados. Isso significa avaliar a política pelo acesso efetivo à moradia segura, à água, ao saneamento, à renda e à proteção, e não apenas pela quantidade de planos produzidos ou recursos anunciados. Não se trata apenas de preparar pessoas para suportar o próximo desastre, mas de transformar as condições que as fazem suportar sempre a maior parte de seus danos.
Relembrar “o que fizeram no verão passado” é o imperativo político que deve nos impedir de aceitar que a solução para a crise climática renove as expropriações que nos trouxeram até aqui. Um projeto de civilização só começará a merecer esse nome no dia em que a promessa de futuro deixar de exigir, como pedágio, o sacrifício do Sul Global e da população negra e periférica. O futuro está contra nós e nossa única esperança de ruptura reside no presente.
Antônio Celestino é Advogado popular, doutorando em Geografia pela UFAL, associado ao IBDU e membro da Secretaria Nacional da Rede BrCidades.
Referências
BIEBER, João Guilherme. Maioria das capitais brasileiras não tem plano de enfrentamento às mudanças climáticas. Agência Pública, 13 jun. 2023. Disponível em: reportagem original. Acesso em: 15 set. 2026.
BRICS. Leaders’ framework declaration on climate finance. Rio de Janeiro: BRICS, 7 jul. 2025. Disponível em: declaração. Acesso em: 15 set. 2026.
COMISSÃO EUROPEIA. New measures to secure raw materials and strengthen the EU’s economic security. Bruxelas: Comissão Europeia, 3 dez. 2025. Disponível em: publicação institucional. Acesso em: 15 set. 2026.
FISCHER, Brodwyn Michelle. A ética do silêncio racial no contexto urbano: políticas públicas e desigualdade social no Recife, 1900–1940. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v. 28, p. 1–45, 2020. DOI: 10.1590/1982-02672020v28d1e15. Disponível em: artigo. Acesso em: 15 set. 2026.
FUKUYAMA, Francis. The end of history? The National Interest, Washington, DC, n. 16, p. 3–18, verão 1989. Disponível em: reprodução do artigo. Acesso em: 15 set. 2026.
INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Global hydrogen review 2025. Paris: IEA, 2025. Disponível em: capítulo “Trade and infrastructure”. Acesso em: 15 set. 2026.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.
MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.
SILVA NETO, Antônio Celestino da; ROMEIRO, Paulo Somlanyi; CUNHA, Tales Fontana Siqueira. Política urbana do inimigo: clima, racialidade e colonialidade na capital brasileira da desigualdade. Revista Brasileira de Direito Urbanístico, Belo Horizonte, ano 11, n. 20, p. 157–181, jan./jun. 2025. Disponível em: artigo completo. Acesso em: 15 set. 2026.
UNITED NATIONS. United Nations framework convention on climate change. [S. l.]: United Nations, 1992. Disponível em: texto da convenção. Acesso em: 15 set. 2026.
UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Adaptation gap report 2025: running on empty. Nairobi: UNEP, 2025. Disponível em: relatório e materiais associados. Acesso em: 15 set. 2026.
WORLD METEOROLOGICAL ORGANIZATION. El Niño set to become very strong, raising risks of extreme weather into 2027. Geneva: WMO, 3 set. 2026. Disponível em: comunicado institucional. Acesso em: 15 set. 2026.
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