27 de setembro de 2026

Entre o sol da liberdade e a sombra alheia

Em um país acostumado a se enxergar pela régua dos outros, soberania também é recuperar o direito de escolher seus próprios caminhos
Reprodução

O texto discute a influência dos modelos estrangeiros na percepção da democracia e cidadania no Brasil.
Destaca que o Brasil superou os EUA em indicadores democráticos do Democracy Report 2026, desafiando imagens idealizadas.
Ressalta a importância da soberania para o Brasil controlar seu destino e superar a dependência e dominação histórica externa.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Entre o sol da liberdade e a sombra alheia

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por por André Augusto Araújo Oliveira, Cesar Vieira, Isabela Walter, Ísis Detomi e Vivane Almeida

Em um país acostumado a se enxergar pela régua dos outros, soberania também é recuperar o direito de escolher seus próprios caminhos

“Você tem o direito de permanecer em silêncio. Tudo o que disser poderá e será usado contra você em um tribunal.” Se essas frases lhe parecem familiares, não é por acaso. É bastante provável que você tenha passado algum tempo diante de filmes e séries produzidos nos Estados Unidos, repetidos à exaustão nas telas de todo o mundo. Máquina Mortífera (1987), Bad Boys (1995), MIB: Homens de Preto (1997), The Rookie (2018): muda o elenco, muda a história, muda a década, mas a frase continua lá, quase como uma senha de acesso ao país onde a Justiça funciona, a polícia conhece seus procedimentos e a democracia parece vir de fábrica.

Nem tudo o que aprendemos sobre os Estados Unidos estava escrito na lei. Muita coisa estava escrita no roteiro. Um roteiro que, durante décadas, nos apresentou um país onde quase tudo parecia funcionar melhor do que aqui. As escolas eram melhores, os carros eram maiores, os tribunais eram eficientes, a polícia conhecia seus procedimentos e os cidadãos pareciam saber exatamente quais eram os seus direitos. Não era apenas entretenimento. Aos poucos, fomos aprendendo uma espécie de gramática do país perfeito.

Talvez seja aí que Nelson Rodrigues tenha encontrado a expressão perfeita para uma certa maneira brasileira de olhar para o mundo: o complexo de vira-latas. Quando se passa tempo suficiente diante de um país em que tudo parece funcionar, é fácil começar a imaginar que o problema está sempre do nosso lado da tela. O país que aparece ali parece pronto; o nosso, eternamente em obras.

O problema é que essa fantasia de ordem e cidadania universal acaba funcionando por aqui como uma cortina de fumaça. Ao projetarmos essa imagem quase asséptica sobre a nossa realidade, mascaramos a trama concreta da vida nas nossas periferias, onde a exceção sempre foi a regra e o Estado nunca precisou de aviso prévio para suspender direitos. Esse roteiro importado não apenas vende uma ilusão externa; ele nos ensina a naturalizar a nossa própria precariedade, fazendo com que a violência cotidiana, o controle social e a segregação pareçam desvios individuais, e não engrenagens estruturadas da nossa formação.

Só que existe uma pequena inconveniência chamada realidade. E ela, às vezes, tem um senso de humor que Hollywood não prevê. Em 2026, o Democracy Report, do V-Dem Institute, colocou o Brasil à frente dos Estados Unidos em quatro de seus principais indicadores democráticos. Isso não faz do Brasil uma democracia perfeita — e ainda bem que não precisamos fingir que faz. Mas talvez seja um bom momento para desconfiar um pouco das imagens que aprendemos a admirar. Desconfiar delas não significa virar as costas para o mundo. Significa, antes de tudo, perguntar quem escolhe as nossas prioridades. O que fazemos porque precisamos fazer e o que fazemos apenas porque parece bonito quando visto de fora? Talvez a soberania começa justamente aí: na liberdade de olhar para os próprios problemas antes de procurar no espelho dos outros a imagem de um país que deveríamos ser.

Essa soberania passa, obrigatoriamente, por enxergar que a imposição desses modelos nunca foi desinteressada. Ela faz parte de um projeto histórico de dominação que articula poder econômico, controle ideológico e a subordinação do nosso planejamento político. Nossas cidades e territórios sempre foram tratados pelas potências centrais como espaços de extração e consumo, moldados de acordo com cartilhas externas de “boa governança” que despolitizam o debate, apagam o conflito real e tiram da nossa própria sociedade o direito fundamental de decidir os rumos do seu desenvolvimento.

Nunca houve uma intervenção tão explícita e declarada de um país dominante como no processo eleitoral deste ano. Assim, é importante relembrar que a dependência no Brasil vai além dos efeitos do balanço de pagamento, das diferenças de importação e exportação. Diz também sobre um passado colonial que não superamos e que nos diferencia de outras experiências nacionais.

Nosso territorio foi organizado como um espaço mercantil voltado para fora, cujo sentido sempre foi a submissão externa e a segregação racial. A soberania é também superar questões estruturais e ter força própria capaz de controlar o seu destino histórico.

É parar de fazer coisas para inglês ver e começar a fazer coisas para quem vive aqui.

André Augusto Araújo Oliveira é mestre em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social pela UCSAL e doutorando em Arquitetura e Urbanismo pelo IAU-USP. Atua nas áreas de desigualdade social, direito à cidade, habitação de interesse social e estudos territoriais, com enfoque em práticas antirracistas. Integra e coordena o Núcleo de Serviço Social da Maitá ATHIS e é membro da Rede BrCidades.

Cesar Vieira é jornalista, documentarista e membro da equipe de comunicação da Rede BrCidades.

Isabela Walter é arquiteta e urbanista, doutoranda em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da UNICAMP e colaboradora da Rede BrCidades.

Ísis Detomi é Arquiteta e urbanista, doutoranda no NPGAU-UFMG, integrante da Trama Coletiva e faz parte da Coordenação de Comunicação Nacional da Rede BrCidades

Viviane Almeida Mulher negra, aracajuana, arquiteta e urbanista, mestranda na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Coordena a Secretaria Executiva da Rede BrCidades.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “

BrCidades

Também cabe a nós compreender como se materializa nas cidades a desigualdades de classe, raça e gênero. Isto para sabermos ouvir as vozes dos personagens que entram em cena e protagonizam um novo ciclo de lutas

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    8 de setembro de 2026 10:06 am

    Após ajuizar um HC para libertar o Leviatã brasileiro das garras do juiz-agente carcerário André Mendonça (https://www.facebook.com/story.php?story_fbid=28715883118008810&id=100000415136357&rdid=ORsLosDoWKc7IJRq# ), pedi ao Senado para proceder o Impeachment dele. Hoje recebi a resposta do Senado Federal.

    “Ao Senhor Fábio de Oliveira Ribeiro

    Assunto: Mensagem nº 26000206571

    Agradecemos o envio da sua mensagem à Ouvidoria do Senado Federal.

    Em atenção à sua manifestação, informamos que a encaminhamos aos gabinetes dos senadores para conhecimento.

    Por oportuno, informamos que tramita, no Senado Federal, Petição (PET) 33/2025, que visa denúnciar por crime de responsabilidade contra os ministros Luis Felipe Salomão, Mauro Luiz Campbell Marques, Cristiano Zanin Martins, Cármem Lúcia Antunes Rocha, Luiz Geraldo Fux, Alexandre de Moraes, Flávio Dino de Castro e Costa, Gilmar Ferreira Mendes, José Antonio Dias Toffoli, Edson Fachin, André Luiz de Almeida Mendonça, Kassio Nunes Marques e contra o procurador-geral da República Paulo Gonet Branco e o advogado geral da União Jorge Rodrigo Araújo Messias, encontra-se no Plenário do Senado Federal, aguardando despacho.

    Para pesquisar sobre matérias legislativas que tramitam ou tramitaram no Senado, clique em Menu, na parte superior esquerda da página inicial do Portal do Senado na internet (www12.senado.leg.br/hpsenado), e, após, em Atividade Legislativa. No menu que se abre, clique em Projetos e Matérias e, em seguida, clique em Pesquisas. Em Pesquisa Rápida, preencha o campo com os dados de seu conhecimento. Clique, então, no botão de busca (à direita). Serão disponibilizadas todas as matérias compatíveis com os dados fornecidos. Ao selecionar uma matéria, o usuário terá acesso a informações como textos e tramitação.

    Além disso, para receber, em seu endereço eletrônico (e-mail), informações sobre a tramitação de um projeto, clique, na página que trata dessa proposta específica, em Acompanhar esta matéria (à direita) e preencha o cadastro com os dados necessários.

    É possível opinar sobre matérias em tramitação no Senado por meio da ferramenta CONSULTA PÚBLICA, localizada na página inicial do Portal e-Cidadania (https://www12.senado.leg.br/ecidadania/principalmateria), podendo o cidadão se manifestar favorável ou contrariamente ao texto original de uma proposta – os senadores, quando estiverem discutindo ou votando a matéria, poderão levar em conta essas manifestações.

    Agradecemos sua participação e reafirmamos nosso compromisso de trabalhar continuamente em busca de qualidade e excelência no atendimento aos usuários, de forma a contribuir efetivamente para a aproximação entre o Senado e os cidadãos.

    A Ouvidoria do Senado permanece à disposição, por meio dos formulários eletrônicos disponíveis na internet, em www12.senado.leg.br/institucional/ouvidoria/ e www12.senado.leg.br/institucional/falecomosenado e pelo telefone 0800 061 2211, nos dias úteis, das 8h às 19h.”

    Ao que parece a república inteira corre o risco de ser derrubada. O presidente do Senado pode escolher quem irá ou não responder processo de Impeachment

Recomendados para você

Recomendados