21 de agosto de 2026

Tem dias em que contracolonizar é sangrar, por Keâ Costa

Construir Psicologia Afropindorâmica não acontece apenas entre livros, conceitos, universidade e escrita acadêmica. Acontece no corpo.
Arte Africana - Benin

Keâ Costa relata a solidão e o desafio de construir uma Psicologia Afropindorâmica no Brasil conservador.
A pesquisa integra saberes ancestrais e comunitários para valorizar ciência e cuidado nas comunidades negras e indígenas.
O autor destaca a importância de reconhecer esses conhecimentos e a força coletiva na luta contra a colonialidade.

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Tem dias em que contracolonizar é sangrar

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por Keâ Costa

Mergulhar numa pesquisa afroindígena no Brasil pode parecer, de longe, uma travessia bonita. E é. Há algo profundamente bonito em reencontrar saberes que tentaram arrancar de nossos corpos, caminhar por territórios, sentar com os mais velhos, escutar as oralidades e compreender que aquilo que durante tanto tempo foi chamado de crença, costume ou superstição também guarda ciência, tecnologia de cuidado, memória e modos complexos de compreender a existência.

Mas existe uma parte dessa travessia que quase não aparece.

Contracolonizar também é um movimento de solidão.

Construir uma Psicologia Afropindorâmica, para mim, não acontece apenas entre livros, conceitos, universidade e escrita acadêmica. Acontece no corpo. E talvez por isso doa tanto. Porque pesquisar aquilo que nos atravessa exige colocar a própria existência no campo. Não estou estudando algo que termina quando fecho o computador. Estou tentando compreender uma ciência que atravessou meus ancestrais, que sobrevive em nossas comunidades e que, de alguma maneira, também procura passagem através de mim.

Fazer isso vivendo numa cidade profundamente conservadora significa, em muitos dias, ter a sensação de estar batendo cabeça sozinho. Sustentar uma cosmopercepção quando quase tudo ao redor parece organizado para nos devolver à norma. Defender que nossos povos produzem ciência. Que nossos modos de cuidar possuem fundamento. Que ancestralidade não é passado. Que território não é cenário. Que corpo é memória. Que comunidade também produz conhecimento.

E cansa.

Talvez por isso eu compreenda cada vez mais que ninguém contracoloniza sozinho.

Nada me conforta tanto quanto chegar numa roda de samba no Rio de Janeiro e cantar uma dor que não preciso explicar. Ali, no meio do tambor, das vozes, dos corpos e das histórias, alguma coisa em mim descansa. Porque existem dores que não precisam ser traduzidas quando estamos entre aqueles que conhecem a história de onde elas vieram.

É uma espécie de retorno.

Como se, depois de tanto tempo tentando elaborar intelectualmente aquilo que somos, o tambor dissesse: eu já sabia.

Talvez seja isso que tenho buscado compreender também academicamente: existem conhecimentos que chegam antes da palavra escrita. Conhecimentos que estão no corpo, no ritmo, na comida, na mata, nos rios, nos quintais, nas rezas, nas conversas, nas encruzilhadas e nas maneiras que nosso povo inventou para continuar existindo.

Minha pesquisa nasce desse lugar.

Não quero apenas escrever sobre nossos povos. Quero ajudar a manifestar uma Psicologia capaz de reconhecer aquilo que nossos povos já sabem sobre cuidado. Uma Psicologia que possa chegar às comunidades negras e indígenas brasileiras sem pedir que elas abandonem sua própria ciência para serem cuidadas.

E isso tem um preço.

Estou sangrando.

Não digo isso para romantizar a dor, porque sangrar nunca deveria ser requisito para produzir conhecimento. Digo porque existem travessias que nos atravessam profundamente, sobretudo quando aquilo que pesquisamos também disputa o direito de existir dentro de instituições e territórios ainda marcados pela colonialidade.

Mas existe uma boa causa sustentando meus passos.

Quero poder chegar às nossas comunidades e dizer: aquilo que vocês sabem importa. Aquilo que nossos ancestrais construíram é conhecimento. Nossos modos de produzir saúde, vínculo, pertencimento e existência não precisam permanecer na margem.

Talvez seja essa a minha função nesta travessia: ajudar a criar caminhos para que nossa ciência volte a ser reconhecida por nós mesmos.

E quando a solidão apertar, preciso me lembrar de uma coisa que o próprio caminho vem me ensinando: embora muitas vezes eu caminhe sozinho, essa pesquisa nunca foi individual.

Há muita gente caminhando dentro de mim.

Por isso sigo.

Às vezes escrevendo.
Às vezes pesquisando.
Às vezes batendo cabeça.
Às vezes cansado.

E, quando for possível, voltando para perto dos meus, sentando numa roda de samba e cantando.

Porque também é assim que um corpo negroindígena pesquisador se refaz para continuar a travessia.

Keâ Costa — pessoa negroindígena, psicólogo e doutorando em Psicologia pela UFF, mestre em Serviço Social pela PUC-Rio e especialista em Saúde Mental pelo IPUB/UFRJ. Possui dez anos de atuação na APS e na RAPS no Rio de Janeiro. Desenvolve pesquisas e práticas em saúde mental afroindígena, articulando saberes científicos, ancestrais e comunitários, e integra o Kitembo (UFF). Criador da proposta de Interação Terapêutica Afropindorâmica, foi premiado pelo CFP (2024). Colaborador da Rede BrCidades.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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