Antes fosse sobre amor: o Dia da Visibilidade Lésbica é sobre política
por Lorena Camargo
No dia 29 de agosto, desde 1996, é comemorado o Dia da Visibilidade Lésbica no Brasil. Essa data remonta ao 1º Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE) que ocorreu naquele ano no Rio de Janeiro e discutiu pautas relacionadas ao preconceito, à invisibilidade e à marginalização. O encontro nasceu porque, dentro das reivindicações do movimento LGBTQIAPN+, as mulheres lésbicas têm vivências e violências específicas na sociedade patriarcal que merecem um olhar individualizado. Nesse sentido, falar de visibilidade lésbica não é uma celebração de amor entre pessoas do mesmo sexo; é um grito para chamar a atenção para um problema social.
Em um mundo que tem o homem como medida de todas as coisas, a mulher é definida e moldada em função da sua existência. É a partir do seu corpo que se mede, a partir do seu gosto que se opina, a partir da sua capacidade que se julga. Na língua portuguesa, o masculino é universal: Todos, proclama-se. Todas somente a elas, lhes falta uma parte.
A todo casal lésbico já veio um comentário atravessado de “quem de vocês é o homem do relacionamento?” porque não se concebe uma relação que possa ser medida sem o homem. Que grande insulto à sociedade existir sem esse referencial. Desse modo, para que sirvam de alguma forma ao querer masculino, as relações lésbicas são sexualizadas e fetichizadas sob esse olhar, sendo alvo de violências: físicas, sexuais, institucionais, simbólicas.
As cidades, construídas majoritariamente por homens brancos, cisgêneros e heterossexuais, são espaços em disputa pelas minorias que as reivindicam. As mulheres lésbicas são duplamente marginalizadas, primeiro por sua condição feminina e depois por sua sexualidade. Num país de passado escravocrata, cuja marca racista ainda persiste na cultura, as interseccionalidades de raça e classe aprofundam as violências que essas mulheres sofrem. Junto a isso existe uma performance de gênero esperada das mulheres que, uma vez não concretizada, revela ainda mais intolerância.
Existir enquanto mulher lésbica sempre foi um ato político, mas é na coletividade que se encontra força, na solidariedade que existe resistência. Como exemplo histórico lembro o Ferro’s Bar, estabelecimento fundado na década de 1960 no bairro do Bixiga, em São Paulo, que foi um grande ponto de encontro para feministas e lésbicas, sobretudo durante a ditadura. Eram mulheres de todos os tipos, de intelectuais a prostitutas que, agregadas no bar, se sentiam livres de uma maneira que a rua não permitia.
Conscientes das suas limitações políticas militavam dentro de grupos de resistência. Primeiro o SOMOS, mas quando as linhas de luta femininas se diluíram demais no grupo as relegando a apoio e as categorizando como inferiores nas pautas homossexuais elas romperam e deram início ao Grupo Lésbicas-Feministas, mais tarde chamado Grupo Ação Lésbicas-Feministas (GALF). As manifestações artísticas do Ferro’s Bar ficaram gravadas nas fotografias de Rosa Gauditano que só vieram à luz na 35ª Bienal de São Paulo em 2023. O jornal e o boletim Chanacomchana também registraram as ações do GALF com textos, entrevistas, poemas, informes, histórias em quadrinhos, entre outros.
Diante da circulação dessas publicações, os donos do estabelecimento expulsaram violentamente aquelas mulheres do bar no mês de julho de 1983. A reação veio em 19 de agosto no evento conhecido como Levante do Ferro’s Bar, uma ação coletiva de grupos homossexuais, feministas e inclusive de partidos políticos para protestar contra a opressão e discriminação sofridas pela comunidade. O bar morreu, eventualmente; o movimento, não.
Entretanto não foi sem dificuldades, que flutuam com os humores político-econômicos que tentam regular o corpo e a existência feminina, que os anos passaram para as militantes lésbicas enquanto procuravam fortalecer o debate e se impor dentro da sociedade de maneira cada vez mais aberta e menos estigmatizada. Infelizmente, entre belas histórias de maior representatividade cultural, mulheres públicas se autodeclarando lésbicas e bissexuais e uma maior presença feminina em lideranças e cargos políticos, não posso deixar de trazer o lado sombrio que a visibilidade traz: a insegurança.
Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro, foi vítima fatal de uma elite patriarcal que não suportava mulheres em lugares não designados a elas. Representante de várias minorias, mulher declaradamente preta, periférica e lésbica, tornou-se um símbolo de que nenhum direito é garantido. Sua luta por uma sociedade mais segura, mais justa e igualitária não se perdeu com a sua partida quando a coletividade se apropriou de sua figura e a tornou símbolo de resistência.
Felizmente, não era a única. Entre avanços e retrocessos, nos impomos e persistimos. Por isso, o Dia da Visibilidade Lésbica não é apenas sobre ser vista,;é como ser vista. Uma data que procura avançar no rompimento dos estigmas sociais, lutar contra o olhar masculinizado sobre o corpo e as relações femininas. Ver mulheres sem submissão, sem referencial, seres autônomos que se relacionam com outras mulheres. Que têm direito de amar livremente, de viver sem vergonha, de ocupar cargos e espaços no tempo presente, mas, sobretudo, de resistir para permitir um futuro.
Referências:
FERNANDES, Marisa. Visibilidade lésbica e a história do Ferro’s Bar. Museu Bajubá, 29 ago. 2020. Disponível em: https://museubajuba.org/visibilidade-lesbica-e-a-historia-do-ferros-bar/. Acesso em: 27 ago. 2026.
FUNDAÇÃO BIENAL DE SÃO PAULO. Rosa Gauditano. 35ª Bienal de São Paulo: coreografias do impossível, 2023. Disponível em: https://35.bienal.org.br/participante/rosa-gauditano/. Acesso em: 27 ago. 2026.
COSTA, Flávio VM; CASTRO, Carol. Marielle Franco: quem era a vereadora e quem mandou matá-la. The Intercept Brasil, 20 fev. 2024. Disponível em: https://www.intercept.com.br/2024/02/20/marielle-franco-quem-era-a-vereadora-e-quem-mandou-mata-la/. Acesso em: 27 ago. 2026.
SILVA, Jaíne Chianca da; SOUSA CORDÃO, Michelly Pereira de. Boletim Chanacomchana: a construção do movimento lesbiano brasileiro. Revista Historiar, [S. l.], v. 13, n. 25, p. 140–155, jul./dez. 2021. Disponível em: . Acesso em: 27 ago. 2026.
Lorena Camargo é Arquiteta e urbanista, mestranda na área de política habitacional, membro da Rede BrCidades, núcleo Maringá.
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