21 de maio de 2026

Como salvar o governo Lula III e o bolso do Cidadão, por Marco Castello Branco

O aumento da renda foi confiscado pelo "triângulo das bermudas": juros bancários escorchantes, BETs e o sistema de crédito.
Foto de Ricardo Stuckert / PR

Em 2026, o Brasil enfrenta alta renda e PIB, mas juros bancários e apostas online drenam a prosperidade das famílias.
O Programa Nacional de Securitização Social (PNSS) propõe reduzir juros e transferir R$ 580 bi anuais para famílias endividadas.
O PNSS inclui bloqueio de apostas online para aderentes e visa reduzir inadimplência, enfrentando lobby de bancos e casas de apostas.

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O Resgate da Prosperidade:

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Como salvar o governo Lula III e o bolso do Cidadão.

por Marco Antônio S. C. Castello Branco

O Brasil de 2026 chegou a uma encruzilhada histórica. De um lado, os monitores do Ministério da Fazenda piscam em verde: o PIB resiste, o salário aumenta e o desemprego é apenas uma lembrança. Do outro, o brasileiro médio, aquele que ganha entre três e dez salários-mínimos, sente-se como um figurante em um filme de prosperidade que ele assiste, mas não é a estrela principal. A razão é matemática e cruel: o aumento da renda foi antecipadamente confiscado pelo “triângulo das bermudas” formado por juros bancários escorchantes, o dreno das apostas online (BETs) e um sistema de crédito que viciou o consumo na antecipação do futuro.

É possível romper essa contradição perversa através de um “Resgate da Prosperidade”, se o governo federal agir rápido e der a sua mais ousada cartada desde o Plano Real: criar por medida provisória o que chamo nesse artigo de Programa Nacional de Securitização Social (PNSS). Não se trata de um pacote de bondades. É um “Programa de Alforria Financeira” que pretende transferir, por força de norma e engenharia financeira, R$ 580 bilhões anuais de juros bancários para o bolso das famílias.

A Anatomia da Asfixia

Os dados de fevereiro de 2026 são estarrecedores. Segundo o BC o estoque de crédito livre para pessoas físicas atingiu a marca de R$ 1,96 trilhões (não inclui cartão de crédito pago à vista) com prazo médio próximo a 6 meses. Sobre esse montante, incide um Indicador de Custo de Crédito (ICC) médio de 45,2% ao ano. O resultado é uma sangria de R$ 887 bilhões em juros — uma cifra que supera o orçamento de saúde, educação e segurança somados.

O Mecanismo da Ruptura: O CDB-Social

O PNSS aqui imaginado utiliza os normativos e a infraestrutura da portabilidade de crédito (Resolução CMN 5.057/2022) para realizar um “reset” nacional.

O coração do programa é o CDB-Social, emitido pela Caixa Econômica Federal. Com rentabilidade de 105% da Selic e isenção de IR o título atrairá o capital do investidor que busca rentabilidade e segurança de um banco 100% controlado pelo Tesouro Nacional, para financiar a dívida de seus próprios concidadãos.

À medida que a Caixa capta os recursos e os endividados aderem voluntariamente ao Programa, ela quita à vista as dívidas tóxicas junto aos bancos numa sequência de prioridade ditada pelos juros anuais: cartão de crédito rotativo (juros superam 400%), cheque especial (juros médios acima de 120%), crédito pessoal não consignado (juros médios de 50% a 80%), crédito consignado (juros de 22%) e assim sucessivamente. etc.

O cidadão passa então a dever à Caixa com juros de “custo de captação”, algo em torno de 15,7 ao ano (inclui 0,25% de taxa administrativa para a Caixa pagar suas despesas administrativas). A diferença de 29,5 % (45,2 – 15,7) no custo do dinheiro é o que separa a ansiedade da dignidade. O impacto indireto do PNSS é onde reside o verdadeiro resgate da prosperidade. Com a redução dos juros, as famílias brasileiras deixarão de pagar por ano R$ 580 bilhões ao sistema financeiro. Esse recurso não ficará parado. Ele irá para o supermercado, para a farmácia, para a reforma da casa e para a escola dos filhos. Para evitar que o dinheiro volte para os bancos, o cidadão ficará sujeito a uma trava prudencial de endividamento até liquidar a dívida com a Caixa.

Os juros escorchantes contribuíram para elevar a inadimplência das pessoas físicas para 6,9%. A redução da taxa de juros deve reduzir esse nível para próximo de 2,0 a 2,5%, nível do crédito com recursos direcionados. Esse risco residual poderá ser ainda coberto por um seguro de crédito similar ao oferecido pelo Fundo de Garantia de Operações – FGO, anulando ou diminuindo o impacto negativo no balanço da Caixa.

Para os bancos o choque é ambivalente. Por um lado, eles recebem trilhões em liquidez imediata, eliminando o risco de inadimplência de suas carteiras. Por outro, eles são forçados a realizar o lucro desses contratos de forma antecipada. Considerando uma margem de lucro tributável de 8% e IRPJ+CSSL igual a 45% ocorrerá a antecipação de R$ 70 bi em impostos federais. Adicionalmente, assumindo a reversão de provisões para perdas também de 8%, haverá um lucro incremental de R$ 157 bilhões e outros R$ 71 bi de impostos. A tributação do lucro incremental compensa a isenção de IRPF do CDB-Social podendo gerar um saldo positivo.

O PNSS entraria em vigor imediatamente e teria validade até 31/12/2026. Elegíveis ao PNSS seriam as pessoas cujo CPF está “sujo” na praça e que possuem renda mensal até R$ 12 mil – algo em torno de 80 milhões de cidadãos.

O Fim da “Farra das BETs”

Mas a alforria tem uma cláusula de responsabilidade. O PNSS ataca o segundo grande vilão da produtividade nacional: as apostas online. Para impedir que a folga financeira gerada por juros menores seja tragada pelo vício das BETs, o CPF que aderir à securitização terá o pagamento para casas de apostas bloqueado no Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB). É o Estado protegendo a renda que ele mesmo ajudou a resgatar. Com o acesso ao crédito social, o cidadão aceita uma tutela temporária sobre seu consumo de risco em nome da saúde financeira da família.

O Veredicto das Urnas

A criação do PNSS é o reconhecimento de que a política econômica de Lula III falhou em traduzir crescimento econômico em bem-estar da população. O PIB do período 2023-2026 estará nos livros de história, mas é o saldo bancário e o cadastro no Serviço de Proteção ao Crédito – SPC que certamente definirão o resultado das urnas nas próximas eleições.

O resgate da prosperidade e da dignidade do povão vai exigir muita firmeza e determinação do governo federal, pois bancos e BETs não vão ficar assistindo sentados e calados ao emagrecimento de sua galinha dos ovos de ouro. Pode-se esperar muito choro, muita ameaça, muita mentira e gritaria nas mais diversas mídias e redes sociais.

Ao enfrentar o lobby dos bancos e a epidemia das apostas, o governo Lula III estará recuperando na prática a narrativa de que o Estado serve para proteger o povo da ganância financeira. Se funcionar, as dívidas e boletos que teimam em nunca acabar serão substituídos por produção e consumo real, e a aprovação do governo poderá, finalmente, acompanhar os gráficos de crescimento da economia que, até agora, os rentistas, banqueiros e donos de casas de apostas estão celebrando.

Marco Antônio S. C. Castello Branco – Eng. Metalurgista, Dr.-Ing. pela Universidade Técnica de Clausthal, Alemanha. Ex-presidente da Vallourec&Mannesmann do Brasil, da Usiminas e da Cia. de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (marco.cbranco@gmail.com)

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. WRamos

    2 de abril de 2026 3:18 pm

    Tenho me manifestado em alguns comentários a respeito de tal plano, inclusive enfatizando que tem caráter emergencial e justifica ação audaciosa do governo. Mas é fundamental exigir estorno do spread bancário, cobrado pelos credores desde o início de cada contrato, para reduzir o saldo devedor do risco de crédito que será cancelado pela renegociação.

  2. Aurelio Medina Dubois

    4 de abril de 2026 7:45 am

    Cabra bom taí!!

    Este cidadão deveria ser homenageado publicamente pelo brilhante PNSS aqui divulgado.

    É o plano mais ousado e factível para terminar com a agiotagem “legalizada” e o vício em apostas que correm soltas neste Brasil.

    Não é um programa de bondades, mas uma ação política de educação financeira dos cidadãos, de avanço civilizatório e de estimular a economia produtiva e o consumo das famílias.

    Impedir que R$ 580 BILHÕES anuais sejam transferidos dos cidadãos para usurários e apps de apostas é fundamental para a saúde financeira e o bem-estar de milhões de cidadãos e famílias.

    Há pouco, Lula afirmou que em seu governo R$ 400 bilhões é o montante total investido nos programas sociais em vigor atualmente. O PNSS é quase 50% maior.

    Este programa tem o potencial de atrair até mesmo uma parcela considerável de votos dos denominados “pobres de direita”, segmento social tradicionalmente refratário ao “lulismo”.

    Certamente, vai atrair muita oposição dos beneficiários ($$) destas atividades perniciosas e legalizadas.

    Vai haver muitas notícias contestando o plano pela imprensa corporativa tupiniquim, o popular PIG, além das veiculadas pelas mídias sociais. Travar esta batalha comunicacional será imprescindível.

    Que Lula 3.0 seja ousado e coloque para funcionar o mais rápido possível esta proposta de plano.

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