Damares e a nossa miséria sexual, por Rita Almeida

O que define um governo Fascista não é somente seu caráter autoritário e antidemocrático. Além dessas, o fascismo tem características muito próprias: aposta no caos, na irracionalidade e, principalmente, no desmonte e na destruição do Estado.

Damares e a nossa miséria sexual

por Rita Almeida

“Como deve ser a vida sexual da juventude?

Continência: deve a juventude guardar a continência, isto é, privar-se de toda atividade sexual até o casamento?

Masturbação: deve a juventude exercer suas necessidades sexuais através da masturbação?

Relações homossexuais: deve a juventude ter relações com pessoas do mesmo sexo e, nesse caso, de que forma? Por meio de masturbação recíproca ou relações anais?

Vida amorosa natural e relações sexuais entre rapazes e moças: deve a juventude aceitar e desenvolver uma atividade sexual natural? Em caso afirmativo, perguntamos:

Onde deve se realizar a relação sexual? Como e com o que evitar a concepção? Quando deve ocorrer a relação sexual?

Os adolescentes devem ter permissão para fazer as mesmas coisas que o fuhrer?”

(REICH, Wilhelm,1946/2001, p.182)

O texto acima está no livro do psicanalista Wilhelm Reich – Psicologia das Massas e Fascismo, escrito em 1946. Trata-se da transcrição de uma espécie de manifesto da juventude alemã endereçada ao governo Fascista de Hitler. No texto, de pouco mais de duas laudas, os jovens alemães se queixam da política da época que, segundo eles, vem barrando o direito de viverem “uma vida sexual saudável”, “direito conquistado em duras batalhas” contra a “beatice sexual, a hipocrisia e a submissão sexual dos jovens”. Se queixam ainda que “a aquisição de contraceptivos tornou-se impossível, devido a proibição de sua venda livre.”

Qualquer semelhança com o que vivemos hoje no Brasil, não é mera coincidência.

O que define um governo Fascista não é somente seu caráter autoritário e antidemocrático. Além dessas, o fascismo tem características muito próprias: aposta no caos, na irracionalidade e, principalmente, no desmonte e na destruição do Estado. Por isso, o capitalismo liberal responde muito bem à sua proposta. E não tendo o Estado como organizador das políticas e nem a democracia como sustentação do seu poder, um governo Fascista se unifica por meio da guerra, por isso, sua necessidade constante de inimigos: internos ou externos. Fascismo, pulsão de morte e paranoia andam sempre juntos.

Mas há uma característica fundamental no Fascismo, muito bem descrita por Reich, que tem a ver com a forma de lidar com a economia libidinal ou sexual.

Com Freud, sabemos que toda energia vital é originariamente sexual – de preservação da vida – energia que pode ser destinada para fins não sexuais, igualmente potentes. Mas a libido não é uma energia meramente biológica, individual, é uma energia que se faz presente no laço social, na linguagem e na política. Assim sendo, a energia sexual é a mesma que, redirecionada para a política, pode mover um processo revolucionário.

“Toda ascensão do Fascismo atesta uma revolução fracassada” dirá Zizek em “Primeiro como tragédia, depois como farsa”. É que o Fascismo é um modo de governo que se presta a colonizar o processo revolucionário e, obviamente, que isso não se dará sem colonizar e reprimir a sexualidade.

Por isso, o tema da sexualidade é tão fundamental em governos Fascistas, sempre tratado numa perspectiva moral, limitada e reacionária. Ao mesmo tempo que pretende libertar a economia e a sociedade de toda e qualquer regulação do Estado, aposta nesse mesmo Estado para regular os corpos, o sexo e a erogeneidade das pessoas. A política Fascista é uma política de propagação do que Reich chamava de “miséria sexual e emocional das massas”. Controlar as massas, sob essa ótica, implica em controlar seus impulsos sexuais e afetivos, e, obviamente que, quanto mais empobrecidos e reprimidos, mais fáceis de arrebanhar.

A proposta da Ministra Damares e sua cartilha de abstinência sexual, não é qualquer coisa dentro do nosso Fascismo-jabuticaba, afinal, não há lugar melhor para colonizar a sexualidade do que a adolescência. E, tal como na Alemanha de Hitler, o tema da sexualidade é envolto em enigmas, culpa, tabus e medo, território fértil para os discursos morais e repressivos. As massas sabem do poder da sexualidade e, por vezes, escolhem reprimi-la, a utilizá-las em prol do processo revolucionário.

Damares já percebeu que o tema do sexo, nessa vertente reguladora e repressiva, angaria capital político, e está sabendo usá-lo muito bem. Não por acaso, é a Ministra mais popular do governo Bolsonaro. Damares tem sabido usar muito bem – resta saber se por esperteza ou ignorância – toda a sua neurose sexual para construir a proposta política do seu Ministério, que casa muito bem com a neurose sexual das massas Fascistas, aquelas que, diante da possibilidade de uma convulsão revolucionária, escolheram regredir ao reacionarismo.

Resta torcer para que nossos jovens não aceitem um governo que subjuga, reprime e os condena à miséria sexual. E tomara que falem mais alto e mais claro do que disseram os jovens alemães.

Rita Almeida

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