Datashopping; por Wagner Iglecias

Citei nas redes sociais, há alguns meses e meio que a título de brincadeira, o DataAricanduva e o DataInterlagos. Seriam os meus índices de medição das intenções de voto para 2014. Referiam-se a dois shoppings situados na periferia da cidade de São Paulo, onde se pode encontrar, em carne e osso, aquilo que os técnicos do IPEA e do governo em geral se debatem há anos discutindo se existe ou não: a tal nova classe média. Poderíamos usar o Data25 ou o DataSaara, não importa. São centros comerciais populares, cada vez mais frequentados, ainda mais nos finais de semana, quando os estacionamentos ficam lotados e as pessoas se acotovelam nos corredores de lojas.

Quase que os dois índices foram pelo ralo com as “jornadas de junho”, quando tudo parecia apontar para uma outra agenda pública, na qual os neo-consumidores brasileiros romperiam com a pax lulista tentando fazer valer seus direitos de cidadãos. Mas quem olhou mais de perto o fenômeno se deu conta de que havia ali gente que subiu recentemente na vida, sim, mas em muitos lugares tratou-se de movimento de classes médias tradicionais, muitas das quais indignadas com “tudo que está aí”, mas sem ter lá muito a noção do que propor no lugar.

Passada aquela fervura, eis que agora em novembro, mês até aqui aparentemente calmo, o Ibope foi a campo aferir os ânimos para a próxima eleição presidencial. Dilma ao que parece reina sozinha no octógono, com robustos 43% da preferência dos eleitores, contra apenas 14% de Aécio e 7% de Campos. Seria eleita em primeiro turno, para alívio do governo. E para desespero da oposição Serra aparece mais bem situado, a depender da combinação de candidatos, que Aécio, Campos e Marina. Obstinado que é, talvez vislumbre sua derradeira chance em 2014. E isso é tudo o que não estava no script da oposição agora.

Fato é que independente do que se passou em junho, dos embates internos da oposição ou do julgamento do mensalão petista, enquanto os shoppings populares deste país estiverem bombando provavelmente não haverá obstáculo que derrube a popularidade do governo. A indignação com a corrupção, seja a indiganação sincera, seja principalmente a indignação seletiva, é coisa de classe média. É coisa de post de facebook, de cartinha de seção do leitor de revista semanal e de papo no cafezinho do escritório. A massa, que já olhou meio que de rabo de olho para as jornadas de junho, encara esse debate tão enviesado sobre corrupção com o distanciamento, a desconfiança e a sabedoria que só tem quem tá cansado de apanhar, como diria Herbert Vianna. Mas mais do que isso, o povo brasileiro, esse ser pragmático, vota cada vez mais olhando para as suas condições concretas, reais, cotidianas de vida. Ou talvez sempre tenha votado assim, desde o tempo em que muita gente trocava o voto por uma cesta básica ou um saco de cimento.

A travessia daqui até as urnas, se não for afetada por algum grande abalo econômico (o que parece improvável) ou por novas e mais radicais manifestações de rua (há riscos, lembremos da Copa no meio do caminho) deverá ser relativamente tranquila para o governismo. Afinal, a pesquisa Ibope diz que a maioria hoje aprova Dilma e pretende reelege-la. Mas diz também que essa mesma maioria quer mudanças. O voto da massa em 2014 deverá ser com um olho no bolso e outro no futuro, na melhoria dos serviços públicos e do gasto público, claro, mas ainda e também na filha que vai chegar à faculdade, no filho que vai se casar, na reforma da casa, na troca do carro, no neto que vai nascer e, por que não, no fim de semana que de uns tempos pra cá sempre tem um rolé no shopping.

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor do Curso de Graduação em Gestão de Políticas Públicas e do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP. 

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8 comentários

  1. O artigo fala no consumo e na

    O artigo fala no consumo e na economia como fonte  que garante uma certa tranqulidade nas urnas. Para contrapor cito o exemplo recente do Chile onde Bachelet ganhará as elições contra um governo que detém altos índices de crescimento nos últimos anos. Lembro também que a efervecência da década de sessenta nos EUA se deu quando a economia daquele país crescia desde a década de 50 em índices altíssimos. Os movimentos de rua de junho pediram, o que Dilma captou muito bem, mais cidadania e mais serviços públicos de qualidade. Quanto ao embate sobre a corrupção a reeleição de Lula, a vitória de Dilma e de Haddad falam por si.

  2. Duas passagens que destaco

    “o povo brasileiro, esse ser pragmático, vota cada vez mais olhando para as suas condições concretas, reais, cotidianas de vida.”

    “O voto da massa em 2014 deverá ser com um olho no bolso e outro no futuro, na melhoria dos serviços públicos”

    Em relação à esta constatação Dilma já se antecipou com o “mais médicos” na área da saúde, a educação já vem melhorando desde Lula, e a recente liberação de uma fortuna para os transportes das grandes cidades.

     

    • Perfeito

      Eu diria mais: o trecho “Mas mais do que isso, o povo brasileiro, esse ser pragmático, vota cada vez mais olhando para as suas condições concretas, reais, cotidianas de vida. Ou talvez sempre tenha votado assim, desde o tempo em que muita gente trocava o voto por uma cesta básica ou um saco de cimento.” reflete bem a cara do eleitor nacional. O Rodrigo Vianna desde 2009 defende isso e poucos analistas parecem entender – a oposição ainda tenta fazer crer que o tripé corrupção / inflação / ataques midiáticos ganha eleição.

       

      O que ganha eleição são três coisas: emprego / dinheiro no bolso / preços regulares. Saúde, educação, transporte, por mais que essenciais (bota essenciais nisso) não ganham eleição por si sós. São, na verdade, apenas um complemento do que o eleitor médio procura como resultado de um governo. Mas isso vale para a eleição presidencial. a oposição parece não ter argumentos para combater uma economia que gera empregos, mantém salários em ascenção e o consumo perene.

      São nos governos municipais e estaduais que o tripé saúde, educação, transporte ganha contornos determinantes para um voto.

  3. Como sou do Rio, eu consulto

    Como sou do Rio, eu consulto o DataSaara, ou Datapésujo. Na consulta eu constatei que a jornada de junho foi basicamente uma revolta dos coxinhas. Mas é verdade que foi tranformada numa bomba semiótica, segundo o Wilson.

    Essa bomba caiu na cabeça de todos, mas de uma maneira muito diferente. Todos tinham uma razão para protestar. Posso assegurar que no DataSaara a corrupção foi citada por 0,00000001% dos entrevistados. No Datafacebook por 99,99999999%. 

    Se alguma coisa poderia levar a galera do DataSaara ás ruas, seriam a inflação e a saúde. Mas como sabemos o tomate era fogo de palha e as más condições dos hospitais públicos não foram o bastante

    • CONCORDO EM PARTE

      Concordo em parte. Se for transporte, aqui no RJ pelo menos, qualquer governante será fritado. Paes e Cabral transformaram a capital e a região metropolitana mais os acessos a SP/Região dos Lagos/Região Serrana num pandemônio.

       

      Aliás, Nassif, escreverei post sobre isso amanhã no feriado. Vale uma boa discussão. O RJ hoje é o pior trânsito do país.

  4. Nada supera o Dataprado,

    Nada supera o Dataprado, instituto de pesquisa dos homens de benz:

     

    Nova pesquisa mostra Serra na frente, Aécio e Marina empatados em segundo

    26 de setembro de 2013By 

    A última rodada da pesquisa Dataprado, mostra Serra disparado na frente, e Marina já encostando em Aécio, Dilma continua na lanterna e deve cair mais ainda. Eduardo Campos ainda não emplacou mas deve roubar votos de Dilma, enquanto Marina pode passar Aécio nas próximas pesquisas mas a tendência é que ela perca votos para Serra, que pelas projeções do Instituto deve levar em primeiro turno o certame, pois mais uma vez lidera em todos os cenários. A pesquisa caiu como uma bomba no Planalto e Dilma já pensa em desistir da disputa à reeleição, podendo até mesmo renunciar ao atual mandato. Os próximos lances serão decisivos, aguardemos.

     

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