De onde veio a classe média bolsonarista, por Andre Motta Araujo

Trump é profundamente rejeitado na Nova Inglaterra, o berço dos EUA, assim como Bolsonaro é rejeitado no Nordeste, o berço do Brasil, são arrivistas novatos dentro do profundo caldeirão social e cultural dos países.

De onde veio a classe média bolsonarista

por Andre Motta Araujo

A longa vida dá ao observador uma vantagem. Ele já viu muitas ondas geracionais na sociedade e pode, desse conjunto de percepções, deduzir várias análises históricas.

O mundo antigo, aquele que veio da sociedade anterior à Segunda Guerra, se manteve socialmente íntegro até a virada dos anos 50 para a década de 60. Foi uma mudança nítida, perceptível a olho nu. Até 1958, 1959, a sociedade brasileira, parte da sociedade ocidental, mantinha padrões tradicionais no cotidiano, nos costumes, na cultura.

A mudança veio com o rock, com a juventude transviada, com a pílula, foi uma mudança rápida e violenta que se inicia de 1960 em diante, mudaram as roupas, os valores, a linguagem. A geração “Brasília” foi inaugurada em 1960, sai o samba canção carioca e se infiltra a música pop americana, com seu gestual e atitudes.

Até o fim da década de 50 as pessoas se vestiam sempre de terno e gravata para ir ao Centro de São Paulo, nos bancos e cartórios todos os funcionários estavam sobriamente vestidos, nos restaurantes finos, nos teatros e até nos cinemas as pessoas se “aprontavam”, usavam a melhor roupa para se  mostrar bem, as apresentações nas famílias das namoradas e futuras noivas eram formais e protocolares, todos procuravam se apresentar bem dentro dos modos e maneiras civilizadas, mesmo nas classes humildes.

A mudança dos anos 60 trouxe uma nova geração já mais revolucionária, não só nos costumes, mas também na visão ideológica, já caminhando para a esquerda.

O governo militar de 1964 se encontrou com uma sociedade diversificada, complicada, a esquerda crescia mesmo durante a ditadura, a pílula liberou a sexualidade, na música Elvis Presley influenciava na roupa, nos penteados, nos gestos, a nova música brasileira dos Festivais era o hino de uma época que se projetou até o fim dos anos 80, MAS ai já nasce uma nova onda social, diversa e emergente, com uma nova sociedade saída do ciclo de real crescimento econômico, que começa no Governo JK e continua nos governos militares, que produziram um salto econômico e industrial gerador de novos empresários, novos ricos e nova classe média, uma nova sociedade emergente.

A SOCIEDADE DOS ANOS COLLOR

Uma nova onda social com uma nova sociedade nasce na virada dos anos 80 para os anos 90. Os novos ricos que vem dos “anos dourados”, quando o Brasil cresceu 11,3% em um ano (Governo Medici), fruto de um projeto nacional de desenvolvimento que fez o Brasil crescer de forma exponencial com base em grandes empresas estatais e BNDES.

Essa nova geração de ricos e classe média alta explode no governo Collor e entra em cena. Gente que parecia escondida e não se via antes aparece nos restaurantes e nos aviões, de onde vieram? Do dinheiro novo dos anos dourados de 50 a 80, é a geração que vem após os pais pioneiros de novos negócios, aparece agora.

Começam a desaparecer os bons modos que ainda existiam na alta classe paulistana, herdeira dos barões do café. Lembro que nos almoços de domingo no Ca D´Oro e no Tatini se viam senhores de terno e gravata  naquele dia e naquele horário, onde hoje vão de short de jogador e sandália havaiana, ostentando cafajestice e breguice.

Lembro uma conversa na pista de jogging do Clube Paulistano, logo que Collor foi eleito, um companheiro de caminhada, médico cirurgião plástico da moda, disse batendo no peito “Agora temos um Presidente que sabe das coisas, depois da campanha foi tirar férias nas ilhas Mauritius e veja só, ele alugou um jatinho na Suiça, coisa fina”.

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Era uma nova sociedade que se projetava, a elite que sonhava com Miami, a mesma Miami que conheci em 1949 como o lixão da decadência, em NY diziam “lá não é América”, cidade meio fantasma cheia de velhos e doentes, Miami só renasceu nos anos 60 graças à migração em massa da classe média e rica cubana que tomou a cidade para si e a transformou em polo financeiro e comercial, cidade que até hoje dominam completamente. Miami, até 1950, não tinha se recuperado da crise de 1929 e, durante a Guerra, foi cidade hospital de soldados convalescentes nos seus hotéis fantasmas, a Miami de hoje é uma recriação dos cubanos. A nossa elite collorida via então em Miami a modernidade associada ao governo Collor, essa mesma elite que se projeta como elite social endinheirada, afastada a elite de boas maneiras que ainda existia nos anos 50 e que vinha da Era do Café, dos quatrocentões, da Semana de Arte Moderna de 1922, das aulas de piano com a professora Dinorah de Carvalho e de violão com Inezita Barroso. Conheci essa época no seu final, ainda havia as grandes damas da sociedade, os cavalheiros, as pessoas finas e educadas, dava-se alto valor a modos e comportamentos educados.

A Era Collor sepultou essa “ancien societé” paulistana que virou peça de museu, embora ainda existam nichos pequenos, mas discretos que não se exibem por pudor.

Alguns desses nichos são ainda economicamente muito poderosos, mas quase invisíveis porque não se confundem e não se misturam com arrivistas novos ricos.

O padrão até 1950 era do industrial filho de imigrante que educava seus filhos em um nível cultural mais alto, gente de avô humilde quando São Paulo já era refinada e culta.

Esse padrão acabou na Era Collor, o pai rico cria um filho também rico, mas arrogante e boçal, a cultura passou longe e nem pai e nem filho fazem questão dela, aliás a desprezam.

Então formou-se toda uma vasta classe rica economicamente, mas desprovida de modos, refinamento, curiosidade cultural, cujo passatempo era esnobar pelo dinheiro.

Essa nova sociedade rica e inculta, vidrada em lojas de grife aqui e especialmente no exterior, metida a conhecer vinhos sem ter a cultura antecedente indispensável para tanto, geralmente se casam com semelhantes, as peruas de bolsa Prada, igualmente alheias a tudo o que não for o que parece chique, todo esse vasto grupo social, grande na cidade de São Paulo, maior ainda no interior do Estado, muito maior ainda nos Estados ao sul, não tão grande no Norte e Nordeste, por uma questão de raiz cultural mais antiga.

O elo que solda esse grupo é o DESPREZO PELO BRASIL, pelo seu povo e cultura, o fascínio pelos Estados Unidos, sem conhecer a realidade americana fora dos shopping centers. Nesse grupo está o núcleo central do chamado “mercado”, aqueles que por desconhecerem o Brasil, sua História e cultura, tem como modelo realidades estrangeiras que mal absorveram e portanto mal entendem, conhecem apenas a superfície de países centrais, sem conhecer sua ultra complexa história social e econômica, absorvem apenas a superfície de alguns aspectos charmosos dos EUA, da Itália, da França, sem conhecer as intrincadas variáveis que formaram esses países e suas sociedades.

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O  DESPREZO PELO BRASIL é o núcleo central da sociedade bolsonarista, no balaio entram desprezo pela Amazônia, maior riqueza ecológica do planeta, ora em fase de destruição acelerada e aplaudida, desprezo pela cultura indígena, pela cultura africana, pela vasta literatura brasileira dos Séculos XIX e XX, da ultra sofisticada História do Brasil dos Imperadores, um Brasil Habsburgo único nas Américas, com um pedigree que nem os EUA tem.  Desprezam porque desconhecem essa riqueza histórica e cultural das mais importantes do planeta, escritores brasileiros, não poucos, foram traduzidos em dezenas de idiomas, a arquitetura moderna brasileira tem prestígio mundial, tudo isso é desprezado por essa classe alta ignorante que tira seu ganho do País sem respeita-lo e sem solidariedade com seus compatriotas mais humildes.

Qual o ethos, a raiz profunda desse comportamento, específico do Brasil, que não há na Argentina, país que nas suas maiores agruras econômicas é sempre defendido por suas classes altas, o orgulho argentino chega até a ser citado como defeito.

Na minha observação que vem de dentro dessa classe onde nasci e vivo, vem da “cultura do imigrante”, por isso ela é menor no Norte e Nordeste. O imigrante que veio para o Brasil sudeste e sul foi MUITO BEM ACOLHIDO pelo País anfitrião, mas parte desses imigrantes manteve um certo ar de desprezo pelo Brasil porque se achavam de uma sociedade superior àquela do Brasil do Século XIX e começo do Século XX. Nem todos pensavam assim, mas parte grande tinha uma visão depreciativa do Brasil, mesmo sendo este o País que os acolheu muito bem, sem preconceitos e xenofobismo, QUE HAVIA EM ABUNDÂNCIA NOS EUA, onde italianos eram vistos como gente de 3ª classe quando chegaram.

Esse desprezo imigrante pelo Brasil, NEM TODOS É BOM FRISAR, foi a semente de um subproduto ideológico que, a partir do DESPREZO PELO PAÍS, gerou o bolsonarismo na classe média alta. Uma pseudo elite que defino como “elite Miami” pelo seu fascínio por essa estranha cidade, mais cubana que americana, pior ainda se for para Orlando, uma periferia em relação a Miami, esse núcleo onde muitos fazem cursos nos EUA e lá absorvem habilidades, MAS não o que a cultura americana tem de melhor que é o sentido de respeito à lei, ao coletivo, às instituições e respeito aos valores nacionais, dos cursos voltam com a arrogância de quem sabe tudo e usam mais como passaporte social do que como profissional.

Essa sociedade “enclave” dentro de um País hospedeiro lembra os 300 mil italianos em Alexandria no Egito, nos tempos do Rei Farouk, um gueto dentro de um País pobre, por isso, mesmo expulsos por Nasser após estarem no País por mais de cem anos, eram estrangeiros de 4ª geração no Egito.

Lembro que Vargas percebeu a existência desses núcleos e os combateu ferozmente. Em Santa Catarina, na década de 30, em certas regiões não se falava português, em São Paulo nas famílias italianas, ainda na década de 50, como a da minha bisavó paterna, se falava italiano após estarem no Brasil há 60 anos. Nos EUA a primeira coisa que o imigrante perde é a língua anterior, se não falar inglês bem está perdido, a forte cultura anglo-americana OBRIGA o imigrante a rapidamente se assimilar.

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NA POLÍTICA

O rebrotamento de uma classe média alta anti-brasileira que sai do armário nos anos Collor já podia ser percebida na política. Na eleição para a presidência da FIESP de 1986 o industrial Mario Amato, filho de italianos, tinha horror ao PT e a tudo que o PT representava, enquanto o presidente anterior, Luis Eulalio de Bueno Vidigal Filho, de tradicional família brasileira acolheu Lula, com ele se confraternizou e entendeu sua luta. Vidigal era do Brasil antigo e sólido, Amato era a cultura imigrante, pessoalmente boa pessoa, meu amigo e chefiei sua campanha para a presidência da FIESP, mas trata-se aqui de uma questão mais ampla, de raízes nacionais e de visão de País.

A Era PT foi muito mal vista por esse grade grupo social, o “pau de arara” Presidente era um acinte, piadas não faltavam, TODOS GANHARAM DINHEIRO NA ERA PT, mas não adiantava, a rejeição era muito mais profunda, era cultural, era o Brasil Miami em revolta contra o Brasil profundo que vinha das raízes históricas de Pernambuco, de uma rica história de séculos de um País com bela trajetória de formação onde entram índios, portugueses, africanos, holandeses. Lula tem obviamente ascendência holandesa, basta observar seus traços em qualquer pintura flamenga. A profunda raiz africana mestiçada que faz do Brasil o País mais multiétnico do mundo, tudo isso causa rejeição em núcleos arrivistas de pouca antiguidade no País e que, no seu lado bom, fizeram a riqueza do sul do Brasil, região chave do bolsonarismo, que por essa mesma razão é fraco no Nordeste onde suas raízes antibrasileiras não encontram ambiente, o Nordeste é o berço do Brasil e teve pouca imigração nos Século XIX e XX.

Curiosamente o fenômeno Trump nos EUA tem similaridades, seu eleitorado NÃO está na Costa Leste, os EUA de raiz, mais antigo, está no meio oeste, zona de imigração mais recente. Trump, assim como Bolsonaro, é americano de 2ª geração, seu avô era alemão, como o de Bolsonaro era italiano, Trump é profundamente rejeitado na Nova Inglaterra, o berço dos EUA, assim como Bolsonaro é rejeitado no Nordeste, o berço do Brasil, são arrivistas novatos dentro do profundo caldeirão social e cultural dos países.

UMA ANÁLISE APENAS

Esta análise é superficial, fruto de vivência e observação no núcleo central da classe média alta paulista. Nos clubes, escolas e edifícios, onde circulo, o bolsonarismo é dominante, um progressista que se revele será objeto de ostracismo social,  um intelectual arejado terá que procurar seu grupo, não terá espaço em varandas gourmet de bons edifícios dos Jardins, se for esposa e mãe será segredada em grupos de mães nas escolas, o fenômeno bolsonarista é forte nesse núcleo, essa é uma realidade a ser considerada na política, apenas um desastre monumental a mudará a curto prazo, toda política tem uma raiz social e cultural antecedente que a explica e substancia, esta é a que vejo.

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82 comentários

  1. Só discordo do post num aspecto = deu um ar romanceado à elite da qual você faz parte. Vou chamá-la de elite raiz. Claro que se comparada à elite Miami, essa elite raiz é do nível das melhores do mundo. Mas é bom lembrar que mesmo essa elite nunca atacou de verdade a desigualdade, a concentração de renda. Verdade que essa elite raiz fez, a partir de 30 até 50, de uma sociedade agrária um país entre os 10 mais industrializados. Mas tendo como efeito colateral uma concentração de renda absurda. JK criou o país industrial, mas o preço que teve que aceitar foi não mexer no Brasil rural, nas mãos dos grandes latifundiários, que serviu como exportador de mão de obra barata para os centros industriais. Mais ou menos o que Lula teve que fazer = aceitou não mexer uma vírgula na elite rentista para poder governar e aproveitar uma bonança econômica para dar umas migalhas gordas para o povo. Paraisópolis, a maior favela de São Paulo, não surgiu nos anos 90. Ela nasce nos anos 50 quando SP vira um canteiro de obras e de indústrias. De lá para cá, passou pelo poder Getúlio, JK, Jânio, Jango, Regime Militar, Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro – e nesse tempo todo Paraisópolis só cresceu, seja em época de milagre econômico, seja em época de recessão, seja sob democracia plena, ditadura brava, sob governo esquerdista, ou conservador . Portanto, isso não é um acidente, mas um projeto de país, que sempre foi feito para poucos a custas de uma concentração de renda pornográfica. Nunca se atacou isso e hoje temos boçais no poder que veem essa desigualdade não como fruto de uma sociedade injusta, mas de uma seleção natural darwiniana = se você é pobre, é porque não se esforça, não crê com fé no deus verdadeiro; enfim, você é fraco e os fracos devem ser naturalmente descartados. Nessa pandemia, Bolsonoro faz sua parte em estimular as pessoas pobres a arriscarem a vida para poder sobreviver – mas conta com isso com uma desigualdade construída por séculos. Reitero que prefiro mil vezes essa elite antiga da qual você faz parte, André, do que esses trogloditas que tomaram o poder. Mas vocês também não fizeram o suficiente pra dar ao povo uma condição de vida melhor através de moradia, saúde e educação dignas. Entram na história nos devendo essa.

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    • “Mas vocês também não fizeram o suficiente pra dar ao povo uma condição de vida melhor através de moradia, saúde e educação dignas.”

      Nem faria sentido: a ideia de haver uma elite pressupõe haver, para se contrapor, pessoas de classe inferior. Nenhuma elite será inclusiva pois que “elite” significa o contrário de inclusivo: exclusivo.

      Ou o povo se organiza, luta e trabalha por igualdade, por si mesmo – ou seja, pelo fim das elites – ou jamais receberá isso de elite nenhuma. Mas certamente receberá um simulacro: dinheiro como se fosse bem viver.

      O que está na raiz do Capitalismo atual – e se o tempo não para menos ainda volta para trás, o Capitalismo evoluiu para isso que estamos vendo e jamais voltará a ser o que foi – é que hoje todos querem ser elite e isso só tende a piorar: o vírus da rejeição ao comum impregna esse lado de cá do mundo e não é visível porque não mata, apenas aleija. Olhamo-nos e fingimos que não vemos o aleijão alheio por ser o mesmo aleijão que temos.

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    • André e Joel Lima, não poderíamos ter tanta informações sobre a nossa formação de classes e de poder, como você, André, tão bem detalhou aqui.
      É uma pena que apenas alguns cidadãos tenham acesso à elas.
      Vou acrescentar pouca coisa nesse debate porquê, as informações que complemento aqui, são também para que raciocine mos com a razão e, imaginemos como era o Brasil de 1930 para trás, ou seja, antes de Vargas romper uma estrutura de poder rural arcaica, onde o Brasil era governado por dois Estados alternadamente, por São Paulo e Minas Gerais e, também, o Rio de Janeiro, onde ficava o governo central do Brasil.
      E porque esses Estados e outros, têm tanta raiva e mágoa de Vargas.
      És as suas realizações mais importantes:
      REALIZAÇÕES DE GETULIO VARGAS
      1931: criou o Conselho Nacional do Café
      1931: criou o Departamento de Correios e Telégrafos
      1932: instituiu a Carteira de Trabalho
      1933: estabeleceu o Código Eleitoral e, com ele, o voto secreto e o voto da mulher
      1934: criou o Código Florestal
      1938: instituiu o Conselho Nacional do Petróleo
      1939: criou o Conselho de Águas e Energia Elétrica
      1941: fundou a Companhia Siderúrgica Nacional
      1942: criou a Companhia Vale do Rio Doce
      1943: sancionou a lei que estabeleceu a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho)
      1944: instituiu o Conselho Nacional de Política Industrial e Comercial
      1952: criou o BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico)
      1952: fundou o Banco do Nordeste
      1953: criou a Petrobras
      1953: sancionou a lei sobre liberdade de imprensa
      1954: apresentou a proposta de criação da Eletrobras
      Fonte: https://www.google.com/amp/s/www.terra.com.br/amp/noticias/brasil/legado-de-vargas-sobrevive-60-anos-depois-de-sua-morte,c3e4c7466edf7410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html
      Sebastião Farias
      Um brasileiro nordestinamazônida

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      • Sebastião, sei de toda importância de Vargas na história do país – tanto que coloquei que o marco zero do país sair da condição de fazendão pra chegar aonde chegamos é 30, com a tomada de Vargas através dum golpe. Houve mudanças enormes no perfil da população, houve milhões que melhoraram o padrão que tinham anteriormente ( eu mesmo sou filho de um maranhense que veio pra cá no final dos anos 60 com a roupa do corpo e conseguiu ter sua casa e dar estudo aos filhos principalmente por ter trabalhado décadas em indústrias de autopeças ). Mas a desigualdade, a má distribuição de renda nunca foi atacada de verdade. Moro numa região periférica de São Paulo. Há 30 anos atrás, se minha mãe perdesse o ônibus ela voltava pra casa porque não chegaria a tempo a consulta de um médico, por exemplo. Hoje aqui tem comércio, hospital, CEU, terminal de ônibus, enfim, mudou muito. Mas o que ocorreu foi que em torna dessa periferia se criaram outras periferias, cujas linhas de ônibus saem de hora e hora. Em São Paulo é mais fácil o Alkimin um dia ter o carisma do Churchill do que o poder público bancar um projeto de revitalização dos prédios abandonados do centro, que podiam servir como moradia para muita gente da periferia. Ao invés disso, preferem que o prédio pegue fogo e desabe, como houve aqui há uns dois anos. E hoje essa desigualdade é o terreno fértil pro coronavírus.

        • Obrigado por sua opinião e, mais informações ao tema da matéria de André, que nos enriquece e nos instrui.
          Aproveito, para juntar ao tema, esse link que tudo tem a ver com o assunto :
          https://jornalggn.com.br/brasil/links-para-a-historia-do-brasil-de-1894-a-2018/.
          Que bom, se todos os membros dos 03 Poderes lessem essa matéria do André, para conhecerem melhor o Brasil.
          Ah se todos os cidadãos brasileiros, tivessem conhecimento de tudo isso.
          Saberiam assim, os motivos reais da raiva e ódio das elites urbanas e rurais do Brasil, de Vargas e Lula e, porque estamos assim, atualmente.
          Sebastião Farias
          Um brasileiro nordestinamazônida

      • Só tem um problema. Vargas foi um golpista. O que é uma mancha negra indelével no currículo de qualquer cara. Ditadorzinho fascista e nazista de 1930 a 1945. Só virou democrata a partir de 30 de abril de 1945, quando o seu grande ídolo Adolf Hitler se matou. Agora o maior crime deste bastardo foi entregar a Olga Benário, judia e comunista, ao capitão do navio alemão atracado no porto do Rio. Como ele pôde fazer isso se a nossa constituição previa que nenhum cidadão ou cidadã, pai ou mãe de brasileiros, não podia ser deportado(a)?. E a Olga estava grávida da filha do Prestes. Acabou morta num campo de concentração nazista depois de dar à luz. Na verdade quem a matou foi o Getúlio e não os nazistas. Isso é o que chamamos hoje de crime contra a humanidade, que não prescreve nunca. Me enche o saco a pessoa fazer uma relação de benfeitorias do Vargas. Isso é uma grande bobagem visto que todos os itens eram questões maduras, ás quais, fosse quem fosse o presidente, elas seriam necessariamente implementadas. De quaquer forma o golpe, o espírito fascista e o assassinato da Olga ofusca qualquer coisa que o baixinho sacana tenha feito.

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        • Eu vi pessoalmente FHC proclamar “Nos (esse plural majestático é demais) viemos para acabar com a herança varguista” .
          Ok, e deixaram o que no lugar? Só pavimentar o caminho para a atual barbárie.
          Vargas não era fascista ou nazista, exterminou integralistas e comunistas com a mesma verve.
          O Brasil foi o único local do mundo onde foi possível ver uma experiência de governo positivista (Vargas e em menor escala Dutra, herança gaúcha)
          O mesmo positivismo que ainda há nas FFAA.
          Quanto às questões maduras, são as mesmas que sofreram refluxo em data bem recente. E que passados mais meio século não estão consolidadas.
          Notável que o próprio Prestes aliou-se a Getúlio.

        • Compartilho de sua indignação quanto à extradição de Olga grávida de 7 meses e para uma Alemanha que já tinha políticas anti-judeus, mas essa história precisa ser contada corretamente, coisa omitida no filme:
          1) Olga foi extraditada em 1936 para ser presa e não morta. 3 anos antes da guerra e da política de extermínio nos campos de concentração (iniciada em meados de 1941). Era o ano da Olimpíadas de Berlim, onde quase todos os países do mundo participaram. Outros países “democráticos” também tinham acordos de extradição com Alemanha e extraditaram gente.
          2) Não havia condenação a Olga pendente na Alemanha. Foi presa política (por ser comunista, ter antecedentes prescritos de militância revolucionária, tentativa de resgate de preso político, e considerada perigosa politicamente). Mas não havia pena de morte para ela quando foi deportada. A família Prestes procurou Olga em 1945 no fim da guerra, pois não sabia de sua morte.
          3) A filha dela nasceu em uma prisão feminina comum na Alemanha para presos políticos. Foi amamentada por Olga até o fim do período de amamentação, e aos 14 meses entregue à avó, mãe de Prestes, que a trouxe para o Brasil.
          4) Olga foi transferida para campo de concentração em 1938. Ainda eram campos de trabalho escravo para prisioneiros que existiam desde 1933 e não de extermínio. A maior parte do tempo Olga ficou em um campo feminino a 80km de Berlim.
          5) Em 1939, meses antes da II Guerra, os alemães decidiram soltá-la e expulsá-la do país (como outros judeus), contanto que outro país que a aceitasse. A màe de Prestes conseguiu permissão do México, mas a permissão só chegou à Alemanha após a eclosão da II Guerra, quando essa política de expulsão havia mudado.
          6) A “solução final” (de extermínio) só começou em meados de 1941.
          7) Em abril de 1942, quase 6 anos após sua extradição, Olga foi transferida para o campo de extermínio de Bernburg, onde foi assassinada.
          8) Olga pode se comunicar por carta com a família, sempre perguntando pela filha, inclusive com Prestes quando estava preso no Brasil (certamente lida pela repressão alemã e brasileira) até 1942, pouco antes de morrer. Comunicação interrompida em períodos de punicão em que ela esteve em solitária.

    • Mais do que isso! Mais do que nos devendo, são e foram a imagem que essa “elite Miami” quis alcançar e superar!
      Pensar que a elite quatrocentona seja melhor do que a bolsonarista é como pensar que ter Amoedo presidente seria melhor! Melhor para quem? Para o povo periférico, para os mais pobres é comparar o péssimo ao horrível! Nenhum dos dois parece menos pior…

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      • Elites não são nefastas só para o “povo periférico”, para “os mais pobres”. É nefasta, também, à classe média. Pessoas da classe média têm dificuldade em compreender isso porque fantasiam-se elite, alguma forma de superioridade e distinção. Assim o lixeiro sente-se superior ao mendigo, o analista sente-se superior ao lixeiro, o gerente sente-se superior ao analista, o diretor sente-se superior ao gerente e todos eles dizem-se “classe média”.

        As pessoas da elite são nefastas a tudo o que não é elite porque sempre farão de tudo para que o “clube” seja o mais exclusivo possível, inclusive sabotarão tentativas da pessoas de classe média de ascensão. Esse é o problema de toda sociedade que se organiza em classes: se um quer se impor como superior, todos querem também. E aí quem tá por cima providencia para que outros fiquem por baixo.

        A gente pode pensar que isso é natural das pessoas, esse é um dos “truques” de sociedades como a nossa: ensinar às pessoas desde que nascem que uma sociedade de classes é natural. Talvez seja natural a superioridade do leão em relação ao cervo ou ao pavão, mas aí já não estamos mais falando em humanos. Humanos têm matéria biológica igual aos outros animais mas tem algo que esses outros não têm: raciocínio. Para que se estabeleça uma sociedade sem classes á suficiente usar o raciocínio acima da animalidade.

  2. Onde assino?
    Uma observação pra adicionar: a pandemia de cólera da década de 1850, máxime em 1855 devastou a economia nordestina, mudando o eixo econômico pro sul, junto com a terrível seca que seguiu, de 1869 a 1878. Coincide com a pesada afluência de imigrantes pro sul.

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  3. A decisão de “importar” brancos europeus para “melhorar a raça” brasileira foi tomada pelo baronato visto com tao bons olhos pelo articulista. A classe emergente e media que formaram, antes de Miami, Disney ou Hollywood, se inspirou foi nessa mesma aristocracia que os “acolheu tao bem” enquanto massacrava negros e índios…

    A continuidade é muito mais nítida, persistente e permanente do que as rupturas.

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    • Lucinei, não houve essa decisão de importação de contingentes populacionais brancos. Darcy Ribeiro mostra isso no livro “O povo brasileiro”. Leia e veja.

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        • Os milhões de europeus que vieram para cá, pra Argentina, pro Uruguai e pro Chile, segundo tá no Darcy, vieram como excedentes de mão de obra lá (estavam passando fome, entende?). E temos dito, eu e o Darcy.

        • A possibilidade de embranquecer a população brasileira foi de fato saudada por intelectuais influenciados pelas teorias raciais que vicejavam à época. Mas era uma ideia de intelectuais, e não de fazendeiros. O propósito de promover a imigração foi encontrar substitutos para os escravos que não mais podiam importar da África, tanto que só foi promovida para valer depois do fim definitivo do tráfico negreiro. Muitos imigrantes foram tratados como escravos, o que deixa claro que não eram vistos como superiores aos negros, mas equivalentes a estes.

          A ideia de que a imigração foi promovida para embranquecer a população é uma injunção maldosa, sem fundamento histórico.

        • Nina Rodrigues , Sílvio Romero, João Batista Lacerda e Oliveira
          Viana foram apagados da História Brasileira?
          E todos eles eram do lumpesinato!
          Poupemem!

    • A política de embranquecimento não foi um fenômeno brasileiro. Isso foi um fenômeno da época nas Américas. Os EUA também fizeram uma política de ’embranquecimento’ no século XIX e de forma bem mais organizada e massiva do que a tupiniquim.. Com milhares de escandinavos, alemães, irlandeses, e entre outros europeus do norte, etc. migrando na grande marcha para o oeste, onde praticaram genocídio de nativos em larga escala.

      80% da imigração europeia naquele período foram para o ‘grande irmão’ do Norte.

      O texto ele fala que Trump é americano de segunda geração porque tem um avô imigrante alemão, mas o mesmo Trump é imigrante de primeira geração, a mãe dele é escocesa de nascimento. Alemães foram o grupo étnico que mais emigraram para o EUA no século XIX. Estados do meio oeste e oeste, entre eles os industriais Illinois, Michigan e Pensilvânia tem forte presença desse grupo na formação de suas culturas locais. E são mais nativistas do que aqueles da Nova Inglaterra na costa leste.

      Além do mais. A própria Hillary Clinton também tem avós não americanos, 2 imigrantes franco-canadenses em Chicago.

      Quanto a classe alta brasileira e seu ‘suposto’ desprezo pelo Brasil. Eu acredito que é mais complexo do que se possa imaginar, para mim remonta quando Portugal deixou de ser uma potencia marítima de primeira ordem e isso enraizou na mentalidade Portuguesa a ideia de fracasso, nossa elite herdou isso

  4. Mto bom o arrazoado do André. Faltou mencionar, no entanto, que a “geração Miami” é resultado direto da educação e conceitos que receberam de seus pais e avós. A “chiqueza” de Paris, a Europa como centro do mundo e os EUA como padrão ostentação são referências que vêm desde sempre da nossa pobre/rica elite

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  5. Vá ao interior dos Estados do Sul, que ouvirá dos seus moradores que na suas casas falam a língua dos seus avós: alemão, italiano etc.
    Gostam de enaltecer suas origens européias e a dupla nacionalidade.
    300 mil participaram de um plebiscito informal para tentar fazer a separação dos três Estados do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, sob o lema: O Sul é meu País.
    Em São Paulo algo semelhante se dá na própria capital, em determinados guetos.
    Os seus filhos, em boa parte, são encaminhados para estudar no exterior.
    Muitos nem retornam e, os que voltam, detestam o brasileiro comum: preto e pobre.
    É o médio classista como o câncer ou o coronavírus da desgraça nacional.

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    • Cesar, muito bem lembrado. Mas tem aqueles sujeitos ou damas (e muitos desses(as) que você citou) que, viajam e conhecem a realidade de países desenvolvidos, como educação de alto nível, o respeito pelos seres humanos, a organização e seriedade institucional, a ética e o compromisso dos Poderes públicos com o bem-estar e com a justiça dos cidadãos, uma compensação mais justa ao trabalho das pessoas, todos primando por uma qualidade de vida decente para as pessoas, etc, mas tem um porém, por lá tudo de bom tá certo, mas quando chegam no Brasil, não querem isso aqui, de jeito nenhum. Como poderíamos classificar essas pessoas?
      Sebastião Farias
      Um brasileiro
      Nordestinamazônida

  6. Análise de um elitismo revoltante. Toca em pontos verdadeiros, sobretudo na questao do desprezo pelo Brasil que há na classe média — mas, pelo menos no Rio, nao particularmente descendente de imigrantes e tb nao só formada de novos ricos, aqui a gente vê mais gente de bolsa e executivos com esse perfil. Mas o elitismo saudosista do autor anula o que poderia haver de bom nas IMPRESSOES dele (Ok, ele mesmo reconheceu que a análise é superficial).

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      • Andre: esse seu papocabeça bem poderia se transformar num livro substancial. Em torno de 350 folhas. O tema merece melhor reflexão. Não que você esteja errado ou certo. Apenas sugerindo que esse é um dos problemas-raiz de nossa desgraça. Haverão contrários. E dessem confronto de ideias e emoções teremos possibilidade de estudar a fundo a farsa para se conseguir solução à tragédia. Pense com carinho…

  7. Brilhantes suas reflexões, André, congruentes, elucidativas. Fez bem a mim lê-las, tinha uma antipatia generalizada pela elite paulista, inercial essa antipatia. Dizem que tudo compreender é tudo perdoar, embora já tenha aprendido na vida que há inúmeras formas de perdão, inclusive o desprezo. Vamos ver, né,? Abraço e obrigado.

  8. Análise muito interessante e bem acurada.
    Falta, na minha opinião, aquilo que é o ponto de contato entre a antiga elite tradicional e a nova elite bolsonarista. O nome deste ponto de contato é racismo.

    Os imigrantes europeus foram bem recebidos no Sul e Sudeste por serem brancos. Foi política da antiga elite tradicional incentivar a imigração europeia para “embranquecer e melhorar” a população do Brasil. O desprezo pelo país, que a classe média alta bolsonarista não só demonstra mas do qual se orgulha, está intrinsicamente ligado ao fato de que a maioria da população é negra e/ou mestiça e, portanto, para eles, inferior.

    Isto não é novidade. É até possível que tenham ouvido de seus avós ou bisavós que este era um país de macacos. O que talvez seja novidade é a falta de vergonha com que eles expõem estes sentimentos e como consideram que exercer seus preconceitos seja um direito inalienável.

    • Exato. E a classe média tem a mania de mimar e proteger a elite. De fato muitas pessoas da elite são frágeis e chegam a ser ternas, humanistas e fofas. Suas aparências – polidez e “educação” – dificilmente revelam a extrema violência com que providenciam que a classe média se mantenha domesticada. Mas o que seria da elite se não fosse a violência autorizada das polícias e até das Forças Aramadas? Sabe aquela história de que “rico não vai para a cadeia”? E a seletividade, “quem tem diploma universitário vai para cadeia diferenciada”?

      Então se pessoas da elite realmente inspiram mimo, enquanto classe social a elite inspira violência. De outra forma, não consta que se esmagado por botas mais bem engraxadas doa ou fira menos…

    • Isso é lenda. As teorias racistas nem eram conhecidas pela maioria da elite da época. O real propósito de promover a imigração foi prover mão-de-obra que não podia mais ser provida pela importação de africanos – em outras palavras, prover novos escravos, e muitos imigrantes foram, de fato, tratados como escravos. O que ilustra bem a mentalidade da elite da época, que não via os europeus pobres como superiores aos negros, mas como equivalentes a estes.

      • Não ss trata de lenda. A política de branqueamento está documentada em inúmeras pesquisas acadêmicas.

        Apenas como exemplo, enquanto a imigração europeia foi incentivada, a imigração de negros norte americanos para o Brasil foi barrada, existindo instrução em 1921, do Ministro das Relações Exteriores, para que fossem negados vistos para imigrantes negros americanos (pesquisa no arquivo do Itamarati de Jeff Lesser, citada por Petrônio José Domingues). Existiram ainda projetos de lei, na década de 1920, que propunham que fosse proibida a imigração de negros para o Brasil. Trabalhos de Thomas Skidmore e Jair de Souza Ramos analisam estes projetos. Se fosse somente uma questão de falta de mão de obra não haveria razão para impedir que negros imigrassem para cá. Existem inúmeros estudos para quem quiser se aprofundar no assunto, basta ter vontade de procurar e ler.

        Que os imigrantes europeus tenham sido inicialmente tratados quase como escravos não elimina o fato que eles possuíam um capital que não lhes podia ser tirado: eles eram brancos. E por serem brancos a eles estavam abertas portas que não estavam abertas para ex-escravos e filhos de ex-escravos. Da porta para o trabalho mais bem remunerado que exigia “boa aparência” à porta do casamento com filhas da classe média e média alta.

        • A imigração de negros foi barrada por um bom motivo: os EUA tinham planos de “exportar” toda a sua população negra para cá. Mais precisamente para a Amazônia, fazendo em ampla escala o que fizeram em pequena escala na Libéria. A imigração tem que atender aos interesses de indivíduos que querem imigrar, e não a projetos de limpeza étnica.

          Não é verdade que os imigrantes encontraram portas abertas aqui porque eram brancos, o patronato rural brasileiro era muito fechado e via-os com desconfiança (muitos eram anarquistas). A diferença foi que eles já tinham conhecimentos de pequena agricultura e trabalho em fábricas, adquiridos em sua terra natal, e por isso prosperaram. Você não pode comparar um caboclo praticante de queimadas com um agricultor japonês que chegou aqui já conhecendo técnicas de plantar tomates gigantes e coqueiros anãos.

  9. Para Lucinei: não houve decisão de “importar” brancos, houve foi imposição da própria Europa. Darcy Ribeiro mostra muito bem no seu “o povo brasileiro”.

    • A ideologia do embranquecimento está fartamente documentada e mapeada. Não o foi por um unico decreto ou ata de reunião.

      Darcy Ribeiro falou outra coisa, ele faz é uma defesa da mestiçagem. Mais, aponta, contata, demosntra que a regra – principalmente para o povão, foco sempre privilegiado da analise dele – é a mestiçagem.

      Dito de outro modo, pro povão, seja lá qual tenha sido a decisão das elites, as pessoas se viram. É importante entender isto no interior da tese maior de Darcy Ribeiro acerca da formação de uma civilização brasileira, uma “Roma Tropical”, nas palavras do próprio autor.

  10. _É da região central do estado de minha cidade Santa Maria, muito bem lembrado. Tau Golin é jornalista e historiador de renome no Rio Grande do Sul e muito respeitado por não esconder o que está a olhos vistos. Não omitindo a verdade dos fatos, dessa e de outras verdades do sul. É tudo verdade. São sutilmente racistas e anti-cotas. Saudações.

  11. Boa noite, senhor Andre Motta. Concordo quando o senhor diz: Uma análise apenas. O senhor levou em consideração seu olhar diferente, porém dentro de sua classe social. Concordo que há muita influência cubana conservadora na cidade de Miami, que é extremamente turística, mas é também uma cidade com tantas características sociais, culturais e artísticas que ninguém imagina. Miami é o centro das artes plásticas. Tem crescido em todas as áreas profissionais e de cultura. Torná-la uma cidade “cubana” é não compreender as diferentes imigrações que por lá passaram e passam. Tenho muitas críticas à cidade, mas não o senso comum como o senhor o coloca. Outro dado muito importante: não se pode comparar a Nova Inglaterra com o Nordeste brasileiro. São histórias absolutamente diversas e de desenvolvimento opostos. Como um grande economista o senhor deve saber disso melhor do que eu. Me agrada muitas de suas análises por aqui, mas esta não esteve à altura daquelas. Sejamos francos: foi rasa e preconceituosa. Não acha?

    • Agradeço o comentario substancioso. È preciso ver Miami sob a otica da riquissima cultura cubana, muito diferente das demais colinas espanholas na A.Latina. Cuba foi provincia da Espanha até 1898, com uma classe media ilustriada muito maior proporcionalmemente do que nas demais colonias da Espanha ew muito mais ligada à Europa do que os demais paises latino americanos. Essa gande classe media mudou-se quase integralmente para Miami levando sula cultura europeizada, Miami ganhou muito com isso.
      O Nordeste do Brasil JÁ era uma rica região quando a Nova Inglaterra engatinhava, a primeira sinagoga das Americas foi em Recife, quando Nova York sequer existia, Recife era rica e culta nos Sec.XVII, quando os EUA não existiam vejo semelhanças no fato que ambas as regiões foram o BERÇO de seus paises, a raiz primeira e forte, Recife era uma cidade importante quando SP era uma aldeia.

  12. Uma chave explicativa fundamental: a desidentificação nacional de nossas elites. Outra chave importante, não explicitada, a conversão ao neoliberalismo, a traição ao modelo que respondeu pela prosperidade patrimonial e pela distinção social da classe média alta. Afinal, outra chave quase consenso, a repulsa pela igualdade, pela ruptura com estrutura social forjada pela exclusão e interdição à mobilidade. A sinceridade do autor é um valor indispensável em tempos que a dissimulação e, como reconheceu, o arrivismo campeiam.

  13. Interessante depoimento de sua vivência com conteúdo histórico, mas faltou dizer que pós 2a guerra mundial , principalmente no interior de São Paulo, vamos encontrar descendentes de fugitivos do nazismo tanto adoradores de Mussolini como de Hitler, Votuporanga sua primeira administração foi inaugurada com a bandeira nazista. Muitos e muitas foram as que se refugiaram no Brasil. O avô de Bolsonaro era pró Hitler ele declarou isto.

  14. De terno e gravata ou se camiseta, a classe mérdia é conservadora e até reacionária. Ela só se torna revolucionária na iminente passagem para o proletariado

    Diria um Rapper: não é nenhuma roupa que vai te dar mora. Tem muitos patricinhos na maior cara de pau

  15. Discordo quanto a superioridade cultural da tal “elite” paulistana. Se tem uma coisa que a história mostra é que ela podia ter o verniz do refino parisiense, mas era igualmente tosca, ignorante, primitiva e bárbara, pois jamais entendeu ou tentou mudar o Brasil….Portanto…
    Quanto a nossa classe média, tirando as exceções, ela SEMPRE foi assim: superficial, ignorante, racista, preconceituosa, tosca, inculta, semi-analfabeta e profundamente estúpida. Os mesmos literatos que você convocou mostravam isso….Sua meta, como de qualquer classe média, é imitar os ricos. Mas como ela não compreende nada ela imita os ricos no que vê deles: a ostentação consumista.
    Finalizando: sempre digo que ninguém entendeu tão bem como “pensa” nossa classe média como Bolsonaro, até porque ele veio dela. Bolsonaro É a nossa classe média. Portanto…

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    • Tarsila do Amaral e a Semana modernista de 1922 são referencias de uma vivvacidade cultural dessa elite.
      Fabio da Silva Prado, ícone quatrocentão, Prefeito de S.Paulonos anos 30 criou o Departamento de Cultura dao Municipio, embelezou a cidade, legou para S.Paulo sua propria residencia, hoje o magnifico MUSEU DA CASA BRASILEIRA, homem de cultura excepcional e perfil de uma época de ouro da cultura paulista.

      • Você só me dá razão: é puro verniz cultural. Posso citar mais uns 50 nomes assim, todos excelentes expoentes culturais. Mas no quê mesmo contribuíram para mudar a estrutura sócio-econômica do país? NADA!

  16. Claro que, como ensina a melhor sociologia brasileira, a instituição que estruturou nossa sociedade foi a escravidão, com as terríveis consequências que hoje assistimos. A tristeza maior é ver que a discriminação, o racismo, a violência implacável sofrida pelos pobres e miseráveis vem aumentando ainda mais. A elite econômica do Brasil considera a maioria da população como escravos. Não é por acaso a empatia desse estrato social e de largas camadas da classe média pelo fascista hoje no poder.
    Além de sua vasta cultura e experiência, o André tem uma visão “de dentro” da chamada elite brasileira. Deve ser duro conviver com essa gente.
    Um abraço ao André e a todos os que fizeram comentários

  17. Que análise professor André! E que sinceridade do texto, conseguir ver assim amigos, parentes, pessoas que gosta e, talvez, a si, numa autoavaliação que, espero eu, seja libertadora para vc tb.
    Quem nós dera 1/3 da nossa elite tivesse 20% dessa consciência…
    Forte Abraço

  18. A história, não sei se mais simples, pelo menos é mais curta: classe média* bolsonarista é igual à classe média* lulista.
    *Se é que existem classes nesse mundo de “historiadores” que inventam polaridades.

  19. A história, não sei se mais simples, pelo menos é mais curta: classe média* bolsonarista é igual à classe média* lulista.
    *Se é que existem classes nesse mundo de “historiadores” que inventam polaridades.
    PS: “Detectado comentário repetido; parece que você já disse isso!”
    Esse site parece que é pra elites com tempo de folga pra escrever, ler e ficar comentando.

  20. Uma curiosidade: Segundo Silveira Bueno, no tempo colonial, ‘brasileiro’ era adjetivo que indicava profissão: tirador de pau-brasil. ‘Fazer o Brasil’ era expressão corrente entre esses homens que chegavam para explorar o máximo que pudessem, a fim de retornarem ricos à metrópole. Também eram assim chamados os criminosos banidos para o país por Portugal. Portanto, o adjetivo tinha significado pejorativo e por isto ninguém queria ser chamado assim. Tanto um, quanto o outro sentido, dizem muito.

    Quanto aos argentinos – povo composto majoritariamente de descendentes de imigrantes -, com quem tive a oportunidade de conviver alguns anos e conhecer muitos a quem tenho por amigos queridos, seguem para mim um enigma profundo. De resto, o bom e velho ‘As Veias Abertas da América Latina’ do craque uruguaio Galeano, também não explica tudo, mas explica muito.

  21. Lendo o post do André e os comentários dos leitores chego a conclusão de que o Brasil é um país sem conserto e futuro.
    Desde quando o FHC venceu a eleição em 1994 até início de 2013 acreditei que dentro de ais umas três décadas o Brasil seria um país melhor e mais desenvolvido.
    Hoje sinto uma enorme decepção e acho que não haverá futuro saudável para as novas gerações.
    As elites se sentiram ameaçadas por uma leve ascensão dos pobres, sentiram que os pobres ameaçavam as vagas dos seus filhos em universidades públicas, seu assento no avião ou no restaurante, etc etc
    E por este motivo resolveram destruir o país e colocar uma nova ditadura que impedisse que essa ascensão se repetisse novamente.
    Penso que só uma guerra civil onde grande parte dessa gente – a tal elite e classe mérdia – seja eliminada pelos pobres, que são imensa maioria da população, poderá resolver este problema.

    • Jossimar: curto e objetivo, você foi à raiz do problema — “As elites se sentiram ameaçadas por uma leve ascensão dos pobres, sentiram que os pobres ameaçavam as vagas dos seus filhos em universidades públicas, seu assento no avião ou no restaurante, etc etc”. Eis a questão. Aliás, isso não é novo nem novidade. Antonio Carlos de Andrada, mineiro tinhoso, já dizia “façamos a revolução antes que o Povo a faça”. Só que desta vez os VerdeSauvas se adiantaram, sedentos que estavam, desde XV de novembro de 1889, e, com a ajuda dos gringos donos do Quintal onde moramos, arranjaram um MelianteCapitão (segundo o TogaSuja) e um Índio desgarrado da tribo e, com um simulacro de facada, assumiram o governo e instalaram a DemocraciaDaBaioneta. A Elite, que andava desgostosa de sentir tanto pobre ocupando postos que diziam ser de seus descendentes, assinaram em baixo e a manobra vingou. Esta é a mesma Elite do tempo do Império. Porque Elite é só uma. Só muda de roupa e de ganância…

  22. Um tipo de que gente que odeia o Brasil, mas se diz “patriota”.
    Que carrega consigo os piores valores que o ser humano pode ter, mas se diz “gente de bem”.
    Que é corrupta no seu dia a dia (são eles que bradam: “imposto é roubo”, uma mantra repetido para se livrar da culpa), mas se diz a paladina da luta contra a corrupção.
    Que segue seitas comandadas por notórios criminosos, que se utilizam de seus empreendimentos para lavar dinheiro do crime organizado, mas se diz “de Deus”.
    O bolsonarista médio é o batedor de carteira que grita “Pega ladrão!”.

  23. Análise preciosa e sem pretensão, crônica de uma situação histórico-social a partir de um olhar singular e testemunho por dentro da situação. Apenas comparou elites e conjunturas que têm diferenças refletidas até nas escolhas de roupas ou de viagens – olhar pruostiano de André -.Tais diferenças afetam, sim, a vida política de um país e são analisadores esclarecedores de uma sociedade. O melhor seria se os ditos bossolnarista da elite atual fossem apenas de ocasião, como antes estavam com Collor, Serra, FHC. Mas, lendo o artigo fica o temor que o Bolssonarismo é um PSDB sem máscaras, desavergonhado – vide exemplo de Regina Duarte.

  24. André Motta Araújo
    Seu artigo é uma aula de sociologia. Deveria ser lido nas escolas
    Texto claro, objetivo e, o mais importante – imparcial
    Lendo o seu texto lembrei de duas adolescentes, filhas de um amigo meu, que já foram a Miami e Orlando pelo menos três vezes, o que significa dizer que ambas conhecem melhor os Estados Unidos do que o nosso querido Brasil.
    Parabéns.

  25. Gostei do artigo. Muito bom. Claro que podemos fazer várias leituras do mesmo assunto por outros pontos de vista, mas podemos sim explicar a falta de amor ao nosso país a partir da maneira como os escravos foram absorvidos pela sociedade e de como muitos imigrantes continuaram se comportando como “estrangeiros” até o fim da própria vida. Conheço muita gente em SP ainda hoje que se regojiza pela descendência européia ou asiática como forma e desculpa para se eximir de qualquer responsabilidade, seja como cidadão, eleitor, ou até mesmo diante de alguma situação de flagrante injustiça, exploração, ou humilhação alheia.

    Infelizmente não conheço o norte nem o nordeste, mas vejo pessoas mais íntegras e respeitosas em amigos vindos dessas regiões. A despolitização do nosso povo passa pela conduta dos imigrantes, pelo fim da escravidão, a dominação dos grupos de mídia, má gestão eterna da educação, falta de formação social dos militares, heranças do colonialismo português, incentivo à economia informal, incapacidade das esquerdas e dos sindicatos em buscar nova representatividade junto a população e, não sendo o bastante, lutamos agora contra o fanatismo neo-pentecostal, fake news, mídias sociais e a eterna intromissão dos EUA em nosso quintal, (ainda) seduzindo a classe média com a Disneylândia e seus carrões baratos.

  26. “Post” do André Motta Araújo, como sempre, brilhante, que, no meu entender, se aplica muito bem ao sul do País. Contudo, moro no Nordeste (mais especificamente, em Natal/RN), onde não houve essa tão grande influência dos imigrantes, e há pessoas que são “bolsomínions” perfeitos. No meu entender, é necessário que se estude, também, a herança cultural que nos foi legada por cerca de 350 anos de escravidão no País. Nesse sentido, me veio há algum tempo um pensamento que, creio, sintetiza bem o fenômeno “antilulismo”: “você não quer que a filha de sua empregada seja doutora como sua filha, você quer que ela seja empregada de sua filha doutora”.
    Nesse sentido, peço ao AMA que, se possível, elabore um “post” abordando esse tema.

  27. “Post” do André Motta Araújo, como sempre, brilhante, que, no meu entender, se aplica muito bem ao sul do País. Contudo, moro no Nordeste (mais especificamente, em Natal/RN), onde não houve essa tão grande influência dos imigrantes, e há pessoas que são “bolsomínions” perfeitos. No meu entender, é necessário que se estude, também, a herança cultural que nos foi legada por cerca de 350 anos de escravidão no País. Nesse sentido, me veio há algum tempo um pensamento que, creio, sintetiza bem o fenômeno “antilulismo”: “você não quer que a filha de sua empregada seja doutora como sua filha, você quer que ela seja empregada de sua filha doutora”.
    Nesse sentido, peço ao AMA que, se possível, elabore um “post” abordando esse tema.

  28. A questão central, que eu também estou de acordo, é que essa classe dominante tem desprezo pelo Brasil (cultura, história, povo mestiço, etc.). Daí fica a pergunta: é possível formar um país-nação com essa visão de mundo?

  29. Veio da Globo, Estadão,Folha,Veja,CBN,Jovem Pan,PSDB,Dem,Face,You,ZAP,EUA..todo o sistema capitalista !!!
    Obs:E imaginem pra tirar quem do “poder?”

  30. Acho que foi pouco discutido o papel da tv, principalmente da globo, na transmissao de valores, de cultura ou anticultura, costumes etc via novelas e outros programas. Acredito q é muito pouco estudado (ou divulgado) o papel da TV como influenciadora cultural.

    • Concordo. Mais que a Globo, os canais popularescos criaram uma cultura negativa e anti brasileira , propagando péssima deseducação, criando um visão grosseira e vulgar da vida, o poder de concessão do Estado existe exatamente para barrar transmissão de lixo por TV. na Europa predomina a TV do Estado
      para evitar essa proliferação da barbarie, inclui-se ai tambem canais ditos “religiosos” com exorcismos,
      mercantilismo da religião, propagação da ignorancia, tudo aquilo que o Estado deveria barrar com seu poder de concessão, parte do rebaixamento cultural da população vem dessa tv baixaria.

  31. Discordo em parte dessa analise sendo eu originario de um nucleo italiano do sul do pais, muito mais concentrado que em SP, onde até hoje se fala o dialeto dos tataravós. Pelo que posso concluir dos relatos de meus antepassados que viveram a partir dos anos 30 e 40, já brasileiros natos, esse desprezo pelo Brasil no descendente europeu surgiu muito mais recentemente, talvez concomitante a essa visão glamourizada de Miami. É um pouco ilógico pensar que imigrantes teriam tal imagem de um continente empobrecido no final do século XIX. Mesmo o racismo contra negros disseminado hoje nas antigas colônias européias do sul do Brasil não era à época mais evidente que em qualquer outro lugar do país, mesmo no nordeste.
    O que talvez tenha criado essa elite seja a própria ascensão econômica e política destes, que se deu por uma série de razões. Há de se lembrar que esses europeus não trouxeram na bagagem a cultura democrática que surgiu na Europa apenas mais tarde como resultado das guerras do século XX. Tampouco o Brasil teve as mesmas oportunidades que a Europa para mudar o status quo.
    Existem inúmeros exemplos na Europa de tais evoluções: regiões pobres depedentes no pré-guerra, tornam-se ricas no pós-guerra, e hoje separatistas. É possível ver o fascismo nos jovens mais acirrado que nas antigas gerações. Esse padrão existe em cada um dos países da Europa.

  32. Andy:
    Conheço quem na Europa fala abertamente que a África começa nos Pirineus, italianos do norte torcem o nariz para os vindos do Mezzogiorno, alemães que ainda comentam dos Ossies e britânicos que depois da segunda dose de Beefeater clamam por England e detestam os sapos comedores de alho!
    É o mesmo caldo de cultura da nossa middle class!
    Aqui recheado pela aversão ao lógico, pelo bacharelismo pedante , pelo sebastianismo e a cereja do bolo: uma falta completa de solidariedade e um obscurantismo fundamentalista.
    Sonham em ser Miami, mas detestam cubanos, olham subservientes para o WASP e detestam trabalhar (viver de renda é bem melhor) e pagar impostos (coisa de pobre).
    Mas como os dinossauros caminham para a extinção.

  33. Acho estas análises pessoais, com base no cotidiano e na observação direta, muito mais embasadas e perspicazes que a maioria das análises acadêmicas. Não por acaso, boa parte dos acadêmicos que fazem sucesso e produzem o conhecimento “mainstream” de nosso país é oriundo justamente do extrato social descrito pelo autor. Daí, talvez, a necessidade de se construir uma identidade nacional oficial para o país, tentando de alguma forma, fazer entrar o quadrado no triângulo. Teses capengas que são obsessivamente reproduzidas por meios de comunicação, pelo Estado e pela própria academia têm um DNA claramente uspiano ou sudestino. Exemplos não faltam, como o de uma certa professora que analisou a infância na História do Brasil tendo como exemplo padrão a figura de Dom Pedrinho, neto de Pedro II. Ou uma outra que afirma de pés juntos que a América Latina é atrasada por ser este um território composto por “cacos de culturas” dos quais não abrimos mão. E mesmo os mais aclamados e ilustres intelectuais, como Sérgio Buarque de Hollanda vem sofrendo críticas até então indizíveis, como sua relativa omissão no trato da escravidão brasileira como fator de formação de identidade nacional.
    Quanto ao texto acima, eu só acrescentaria humildemente que, para além do desprezo dos imigrantes, apercebido pelo autor, sua interação com o espírito submisso ou, melhor dizendo “vira-latas” da sociedade que os recebeu possa ter sido um grande potencializador do êxito ideológico e econômico do estrato imigrante que se formou no começo do século XX. O autor aponta muito bem, o acolhimento da sociedade brasileira, embora seja necessário lembrar que tal acolhimento recebe contornos que extrapolam o sentido de dignidade. Isto é explicável em grande parte pelas marcas da escravidão até hoje inculcadas na maioria negra-mestiça-indígena que compõe nossa sociedade, além do que, sua notória desqualificação educacional e profissional que os impediram de que ocuparem os espaços que foram destinados ao imigrante europeu recém recebido e já afeito a uma sociedade mais industrializada e capitalista.
    Meus respeitos ao autor.

  34. Evidente que quem lê a história do Brasil entende que desde a proclamação da República a elite foi se revezando no poder, militares e a elite, aí vem o Lula, acordos maravilhosos com a elite, quem era muito pobre virou pobre a classe média deu uma melhorada, a classe mais alta se dinheiro mas continuou pobre culturalmente, e os ricos ficaram milionários … envolvido com todo tipo de coisas que sempre acontecera, mas não se sabia, a comunicação tbm ajudava muito a 30 anos atrás a não se saber de quase nada.
    Essa experiência chamada bolsonarismo faz parte dessa história.

    Não vi na história do Brasil algo novo e diferente a não ser Lula e Bolsonaro, os outros todos eram muito previsíveis na linha de susseção. A República nem foi proclamada por um republicano, Difícil e entender, mas real.
    A deteriorizacao da civilidade social gera essas tentativas, um país em que o sistema de parlamento não poderia ser mais do ué essa jabuticaba, não somos nem parlamentarista nem presidencialista e muito menos federalistas, mas somos tudo isso tbm!
    Estamos vivendo uma nova experiência com essa presidência q não respeita nada, ainda bem que isso está acontecendo agora, se fosse a 100 anos, certamente não existiríamos …

  35. Muito bom seu artigo, senhor André! Todavia, faltou falar um pouco sobre Minas Gerais. Em sua opinião, para que lado Minas pende nessa questão?

  36. Existem razões determinantes, preponderantes, concorrentes, secundárias. Desde meados dos 80, nossas rádios, das 5,00 ou 6,00 horas da manhã até às 9,00 colocam no ar os programas policiais. É o Datena, é o Ratinho, antes era o Homem do sapato Branco, o Gil Gomes lhe diz. Depois o Datena, Ratinho migra para a TV. Milhões e Milhões de pessoas são fiéis seguidores destes programas. A mentalidade da pessoa fica estreita. As TVS na busca louca por audiência deixam de colocar no ar programas de arte, de música, de poesia, de filmes. De direito. Temos, então, uma parte da população que busca justiça com as próprias mãos. O justiçamento. O Miliciano. Educada ouvindo o pior sertanojo. Não é pouca coisa… Se fosse apenas um programa em uma época….Mas, não ! A programação é continuada, é sistêmeca, aí…… elegemos o Collor,…o Obsceno….Não fomos acostumados a preservar os direitos, os direitos humanos….. temo pelo amanhã…

  37. André, o texto esclarece algumas coisas, mas, por outro lado, parece romantizar a elite tradicional. Nossa país tem enorme desigualdade social, e se a ordem vem de cima, por que a elite a manteve? Se uma elite é nacionalista/ histórica e a outra elite cresceu fascinada pelos filmes de ação estadunidenses; parece que nenhuma das aludidas quis mexer com a desigualdade social. O resultado está aí: pobreza, pobreza e pobreza. Acho que as duas elites rejeitam os tipos negritude e proletários nordestinos, que nos estados do sul e do sudeste, formam os aglomerados de favela.

  38. Não refuto a descrição de André Araújo acerca das transformações que ocorreram no perfil econômico e de costumes das classes mais abastadas, ele é testemunha disso, porém discordo de que isso tenha influência significativa na formação da ligação entre essa classe e o bolsonarismo.
    Há bolsonaristas no Nordeste. Eles são poucos porque grandes foram os efeitos das políticas petistas. Nasci e me criei na caatinga nordestina. Quando criança, vi flagelados da seca passando diante de minha porta e se aglomerando diante de armazéns em busca de alimento. Quando adulto, no governo FHC, o problema continuava e o governo distribuía comida aos filhos e netos daqueles flagelados que eu vi quando criança. No Governo Dilma, voltei à região em que morei, que enfrentava uma dura seca. Sem água, os proprietários soltavam o gado para que pudessem buscar por si alguma água e comida. Muitas morriam. Carcaças se acumulavam nas margens das estradas, formando um banquete para os urubus. Mas não havia flagelados. A economia das cidades pequenas continuava a funcionar. O povo nordestino, mesmo nos centros urbanos maiores, percebeu isso. Era algo que eles desconheciam e gostaram.
    O bolsonarismo genuíno é pequeno, formado por gente irracional e que se identifica com as convicções do líder. Apesar de bastante aguerrido, esse grupo não elege presidente. A ele se uniu o grupo antipetista. Aí sim, Bolsonaro foi eleito. Como o antipetismo não floresceu muito no Nordeste, Bolsonaro não penetrou lá como no restante do país.
    O grupo social responsável pelo desastre em que nos metemos é o antipetista. E, sim, ele é constituído pelas classes média e alta. Como essa classe virou antipetista?
    A elite brasileira de hoje e de ontem sempre foi discriminadora. Não é o uso de havaiana ou de terno que a faz pior ou melhor. Tanto a antiga aristocracia rural, quanto a industrial, e também a financeira de hoje têm em comum a exploração dos recursos naturais e do povo sem limites e sem culpas. As palminhas nas costas de Lula não tornavam Vidigal mais mole ao negociar contratos de trabalho.
    A mesma política que angariou profundo reconhecimento dos nordestinos ao PT criou grande ódio ao partido nas classes médias. Elas ganharam dinheiro, mas perderam status quo. Alguns espaços sociais eram de seu uso quase exclusivo e foram invadidos: universidades públicas, eletrodomésticos modernos, automóveis, viagens aéreas. Mas nada doeu tanto quanto a perda das empregadas domésticas e a perda de status para essa categoria profissional. Quem está confinado sabe perfeitamente a falta que faz uma empregada doméstica. Europeus e americanos possuem salários maiores, sistemas de educação, transporte e saúde melhores que o nosso, mas quando chegam em casa após o expediente, devem limpar, cozinhar e dar banho nas crianças. Nossa classe média tradicional se acostumou a não fazer isso. A perda de status e das empregadas fez crescer um profundo rancor com o PT. Este rancor se manteve calado, pois era moralmente condenável rejeitar uma política que tirava gente da miséria por inveja e perda de empregadas domésticas. Bastou alguém alegar corrupção que a classe média embarcou. Isso os livrava do dilema moral, ao contrário, agora havia razões morais para a rejeição.
    A classe dirigente brasileira sempre foi exploradora. Essa característica se transmite entre as gerações, embora as vestimentas e a cultura (ou falta dela) mudem. A classe média brasileira foi formada desejando ser rica e desfrutar exatamente das mesmas regalias dos ricos, e já usufruem de algumas, entre as quais as empregadas domésticas. Já o povo não tem organização e consciência de seu papel de explorado. Por isso naturalizou a prática. Os que tiverem chance de ascender, replicarão os costumes das classes mais altas.
    Não se muda uma cultura de séculos assim. A imigração não foi grande o suficiente para tal. Os imigrantes logo passaram a reproduzir as práticas locais. Os privilégios são muito facilmente absorvidos, por razões óbvias.
    Sem uma mudança dessa mentalidade, o Brasil nunca alcançará o nível de desenvolvimento social dos países ricos. O mais provável é que tudo continue assim. Tentativas de mudança, como a ocorrida nos governos petistas serão todas repelidas pela aliança entre ricos e classe média.

    • Obrigado, André e Alcides Carpinteiro. O texto de André, que propõe excelentes questões não-acadêmicas, resulta numa magnífica troca de ideias, opiniões e arrazoados que desemboca neste último comentário, que joga uma luz profunda sobre nossa miséria social, ao confrontar as classes médias da Europa e dos EUA com a nossa, que fez da empregada doméstica a escrava por excelência: aqui na Europa (moro em Portugal atualmente), temos de “limpar, cozinhar e dar banho nas crianças”, enquanto o brasileiro de classe média nem sabe o que é isso, e odiaria ter de se “humilhar” a esse ponto.

  39. Realmente e infelizmente tudo isto é fruto do preconceito e da arrogância de pessoas que educaram seus filhos, se é que podemos chamar isto de educação, com base no preconceito e indiferença, pessoas que cresceram sem amor e o único valor é o dinheiro, ter posses independente de que modo fosse conseguido pois, o que mais importa é a ostentação para afagar o ego de que faz parte da elite. Elite sem valores morais que aceita o crime e justifica como sendo por um bom motivo. E assim nasceram os bolsonaristas que são pessoas odiosas, não respeitam o próximo e não tem amor a ninguém nem mesmo os da própria família se não tiver posses.

  40. A classe média reacionária é herdeira da nossa história colonial escravocrata que naturalizou entre os mais privilegiados a ideia de que o índio é vagabundo e o negro nasceu para servir!
    Essa classe também herdou da ditadura imposta pelo imperialismo do Hemisfério Norte a intoxicação ideológica criadora do famoso complexo de vira-lata e o ódio e o desprezo pelos pobres!
    Conheço pessoas que apoiam até hoje os militares , Hitler e babavam pelo filmes hollywoodianos ou novelinhas da Globo fascista! Fascistas, muito antes do Collor, comentavam as mesmas coisas horrorosas dos bolsominios nos almoços em família , agora, perderam o constrangimento!

  41. Concordo em parte, boa parte dessa classe média, vem também junto com as seitas religiosas, evangélicas e católicas, com uma biruta no sentido dos EUA…são pessoas alienadas pela manipulação religiosa cujos líderes destas seitas, que vão do padre marcelo rossi até o picareta do waldemiro e outros, alienam totalmente na direção do individualismo, quebrando qualquer visão social e de conjunto do rebanho….esta classe média apenas se diferencia da pobre pela conta bancária, cabeça é igualzinha…..

  42. + comentários

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