Dentro ou fora da “caixinha”: a lógica do debate público brasileiro, por Gustavo Conde

‘Dentro da caixinha’ versus ‘fora da caixinha’: a lógica do debate público brasileiro

Por Gustavo Conde

Esses especialistas que comentam cenários eleitorais são tudo, menos especialistas. Ou, postulemos: há especialistas dentro da caixinha e especialistas fora da caixinha.

Aliás, aprofundemos: o mundo do comentário se dividiu em dois. A maldita “caixinha” vem fazendo valer com força sua sutil ‘seleção discursiva natural’. ‘Dentro da caixinha’ é aquele inferno medíocre que todos conhecem, mas que rende posições no imenso ‘caixão’ que é o debate público chapa-branca.

E o ‘fora da caixinha’, o que é? É a possibilidade única de liberdade. Liberdade de pensamento, soberania de espírito, leveza do ser. A maldita (ou bendita) caixinha vai sendo a fronteira do século 21 para as questões de ordem filosófica, teórica e política. Talvez, a dicotomia ‘esquerda x direita’ possa beber dessa fonte: fora da caixinha é a esquerda; dentro da caixinha é a direita.

É, de fato, a metáfora fundadora para as questões concernentes à interlocução humana. Se, em 1791, os partidários de Luís XVI ficassem dentro de uma imensa “caixa” na Assembleia Francesa, teríamos hoje a bipolaridade político-ideológica conflagrada na dicotomia ‘dentro da caixinha’ versus ‘fora da caixinha’. Seria mais fofo, certamente.

A questão filosófica-linguística é: há que ame o cabresto e há quem o rechace. O pensamento social pode ser múltiplo e infinito no varejo, mas ele é limitado no atacado. Isso foi posto pela teoria do discurso já nos anos 60 (mais precisamente em 1969, com a publicação “Análise Automática do Discurso”, livro organizado por Fraçoise Gadet e Tony Hak, com o pensamento seminal do linguista Michel Pêcheux).

Não é de se admirar que o nascedouro da teoria que observou empiricamente a organização do discurso seja a França. Os franceses amam a linguagem à sua maneira revolucionária e concreta. São, nesse sentido, muito mais filosóficos que os alemães, sobretudo porque amam a política e a democracia. Não é à toa que Paris é a cidade luz. Ela é mesmo.

Digressões à parte, devo desmistificar e confessar de uma vez: o mundo do discurso em sua organização social é bem limitadinho. Por isso, o debate público tem seus momentos de “espanamento” e de colapso. O que subjaz a esse debate, o que lhe serve de substrato, o que o traduz no corpo social é muito pouco – ou ‘deve’ ser pouco.

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É a explicação teórica para as teorias transversais da comunicação e da publicidade: a linguagem social é ‘simples’. Se se a complicá-la, ninguém a entenderá. É também o preço e o dilema de ser viver em um imenso tecido social, ainda mais agora, com as redes digitais, que empurram a organização do discurso para um novo lugar ainda desconhecido.

A simplificação do discurso pode ser até chocante. Pense: por que temos apenas 10 mandamentos e não 765? Por que são 12 os apóstolos e não 59? Por que a constituição americana tem 7 artigos e não 245 – como a brasileira? Por que Hércules fez 12 trabalhos? Por que são 7 os anões? Por que são 4 os cavaleiros do apocalipse?

Sucintamente, respondo – e a resposta provém dos estudos da cognição. O cérebro humano funciona por ‘ramificações’. Ele não consegue absorver de supetão uma gama imensa de situações simbólicas. Por isso, inventamos o computador. Há um número mágico cognitivo, que gira entre 4 e 17, que postula os limites de absorção cerebral quando o assunto é ‘linguagem’ (para saber mais, ler o magnífico livro de Stephen Pinker ‘Como a Mente Funciona’).

O cérebro absorve essa mínima gama de sentidos estanques, para depois expandi-la em ramificações, aí sim, ao infinito (e a um ‘infinito seletivo’ – sic). O número mágico é uma “isca” e o que “atrai” o pensamento e o desejo pelo pensamento e pela aderência ideológica e discursiva: é cognitivamente sedutor ‘absorver’ os 10 mandamentos, não importa se para combatê-los, se para endossá-los.  

Isso explica Bolsonaro. Isso explica Ciro Gomes. Isso explica o PSDB (todos, nas suas linhas de ‘coadjuvância’ transversal). A ‘facilitação do discurso’, esse dogma da publicidade, atrai alguma aderência social, independente de mérito ou da relevância.

O fenômeno Lula corresponde a outra configuração do espectro cognitivo e social, porque o fenômeno Lula lida com as emoções. Lula está associado demais aos sentidos de amor e de felicidade, diferentemente desses outros atores secundários. Lula é quase maior que a própria teoria, com todo respeito a ambos.

Para concluir o raciocínio numérico do comportamento discursivo humano, cito o embate entre enxadristas humanos e enxadristas computacionais. Esse desafio histórico revelou parte desse fenômeno. Em 1996, Kasparov venceu o Deep Blue, o supercomputador enxadrista da IBM, por 4 a 2 (depois, perdeu por 3,5 a 2,5, num match cercado de polêmicas).

O que importa: como um supercomputador que faz mais de 1 bilhão de cálculos por segundo, pode perder para um ser humano que só alcança 12 cálculos por segundo (no máximo)? Pela seletividade. O computador calcula todas as possibilidades, até as estúpidas. O ser humano, não.

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Esse é o ‘jump’ que a espécie humana tem e dá no árduo caminho do cognitivo para o social e, de volta, do social para o cognitivo, na nossa eterna dança existencial: para absorver sentidos, eu preciso de simplificação. Para re-elaborá-los, eu preciso de complexidade. Feito esse processo, o meu cérebro faz o serviço, sozinho, depois.

Esse é dilema que sequestrou o debate público brasileiro: com Lula proscrito ou mesmo ausente da condução do país (governo Dilma), tudo ficou na simplificação: absorção e elaboração. O pensamento da direita, dentro da sua pequenina caixa auto-opressora, é a simplificação perpétua, uma verdadeira maldição cognitiva.

Eles não compreendem as cores da bandeira, não compreendem a Segunda Guerra, não compreendem as estatísticas, não compreendem o debate sobre LGBTT, não compreendem o feminismo, não compreendem filosofia, não compreendem gramática, não compreendem o contraditório. Eles habitam a menor ‘caixinha’ de que já se teve notícia.

De modo que o pensamento ‘dentro da caixinha’ tomou de assalto todo tecido social, acadêmico e leitor do país. Nas universidades, essa dicotomia (caixinha ou ‘não-caixinha’) também vem provocando divisões epistemológicas. Os poucos pesquisadores que inovam vêm de classe sociais mais baixas – a inclusão ocorrida nos governos do PT. A metáfora da ‘caixinha’ também explica isso: quem está ‘fora da caixinha’, a elite ou o trabalhador?

O poder das hegemonias, no entanto, ainda é muito forte. Ele se impulsionou também com os governos do PT devido a necessidade de se dar uma resposta – por mais medíocre que fosse – ao irresistível discurso da inclusão social e do crescimento econômico.

Dentro da sua fragilidade política, moral e tecnológica, esse discurso ‘dentro da caixinha’, de pretensões hegemônicas, naufragou fragorosamente na cena social do andar de baixo (o povo) e se alastrou para os nichos elitistas da academia e do mercado, os grandes absorvedores da mediocridade intelectual produzida pelas mídias tradicionais.

O Brasil – me parece – quer sair da ‘caixinha’, dessa infame e minúscula ‘caixinha’ que o sequestrou e o aprisionou em um cativeiro jurídico-midiático. Para infelicidade do golpe e de toda a mediocridade que o cerca, o realce da dicotomia esquerda/direita através da metáfora da ‘caixinha’, tão popular que é (tão simples de entender que é) vai se alastrar – como já se alastrou – e vai re-definir a cena do debate público nos próximos anos.

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O segmento sem conteúdo versus o segmento com conteúdo, os repetidores de discurso versus os formuladores de discurso, os adesistas acríticos versus os refratários críticos, os dentro da caixinha, versus os fora da caixinha, o cabresto versus a liberdade, a direita versus a esquerda.

Estamos vivendo um verdadeiro recall de discurso, um recall histórico de sentidos e de construção de subjetividades. E ao contrário dos que muitos filiados à ‘caixinha’ pensam, repetidores fetichistas de clichês que são, o universo cognitivo-social da linguagem e do discurso gosta das dicotomias. É um atrativo a mais para a absorção de conteúdo.

Eu antecipo, por assim dizer, o antídoto para o meu argumento central, o de que o contraste de ideias é produtivo e origem das sínteses históricas: evocar o maniqueísmo e a luta do bem contra o mal para combater o protocolo histórico da produção de sentidos e de narrativas é apenas e tão somente um gesto diversionista que confirma a regra do argumento teórico aqui posto: ele simplifica.

O detalhe é que ele simplifica e se estilhaça, porque a elaboração não lhe pertence. Dentro da sua ‘caixinha’ auto limitadora, o discurso da produção-repetição de clichês e lugares-comuns fica na superfície e perpetua a própria mediocridade, seu sentido-condutor mais elementar e, ao mesmo tempo, terminal.

Para finalizar, permitam-me um singelo arremate metalinguístico: eu tenho uma tese, a despeito e à reiteração de todo esse conjunto de formulações que despejei aqui, meio que inadvertidamente. Eu não subestimo o leitor. Digo isso, porque talvez alguém me acuse de não ‘facilitar’. Não facilitei e não gosto de facilitar – ainda que preze o ritmo e a cadência diccional do texto.

Eu estou fora da caixinha, com muito orgulho.

 

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