Dilema obstétrico, parto assistido e a profissão mais antiga do mundo
por Felipe A. P. L. Costa [*].
APRESENTAÇÃO. – Partos em momentos inesperados ou em situações inusitadas (e.g., dentro de um carro) ocorrem com alguma frequência. Em 4/12/2025, por exemplo, uma mulher deu à luz deitada no chão de uma loja de artigos infantis, em Recife. As imagens do ocorrido, capturadas por câmeras de segurança da loja, tiveram uma ampla repercussão (ver aqui) e ainda estão a circular nas redes sociais. A julgar apenas pelas imagens, o trabalho de parto parece ser algo simples, rápido e seguro. Não é bem assim. Em 2023, segundo a OMS, 260 mil mulheres morreram em decorrência de complicações relacionadas à gravidez, incluindo complicações durante o parto (ver aqui). Em todos os países do mundo, riscos elevados de morte estão associados a diferenças no acesso aos serviços públicos de saúde. Durante o parto, ainda segundo a OMS, a presença de um profissional treinado (e.g., uma parteira) tem um impacto positivo em 99% dos casos.
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1. O DILEMA OBSTÉTRICO.
Alguns estudiosos defendem a hipótese de que o tempo de gestação do bebê humano foi abreviado ao longo da nossa história evolutiva. O encurtamento visaria minimizar o tamanho do neonato e, como tal, seria uma resposta (leia-se: meio-termo) às demandas impostas por três frentes distintas: a bipedia, a termorregulação e o parto [1]. Nas palavras de Huseynov et al. (2016, p. 5227; trad. livre):
“Há um acentuado dimorfismo sexual no esqueleto da pelve humana, o qual tem sido tradicionalmente interpretado em termos da hipótese do dilema obstétrico: dar à luz a bebês com cérebros e corpos grandes requer uma pelve larga, enquanto uma locomoção bípede eficiente requer uma pelve estreita.”
No caso da bipedia, especificamente, a demanda favoreceria uma pelve estreita, mas robusta, capaz de permitir a inserção de músculos potentes e assim maximizar a força das pernas e minimizar a carga do tronco sobre a cintura. A diferença entre largura e altura da pelve afeta as proporções do corpo e a relação superfície/volume, o que afeta a termorregulação do corpo como um todo. Por fim, a forma, o tamanho e a disposição da pelve definem o canal de parto, cujas dimensões devem permitir a saída de um bebê saudável e pouco agressivo – i.e., o parto não deve causar danos ou machucar a mãe.
Essas demandas resultam em pressões seletivas. Gruss & Schmitt (2015, p. 1; trad. livre) anotaram: “Ainda que as três demandas devam ser atendidas, elas não são todas atendidas pela mesma morfologia pélvica. A seleção, portanto, favoreceu compromissos entre essas pressões frequentemente contraditórias”.
Não sendo possível adotar soluções ótimas para cada demanda em separado, restaria à seleção favorecer um meio-termo que estabilize as múltiplas demandas, a depender do caso e do contexto [2].
2. O PARTO ASSISTIDO.
Em termos de contexto, devem ser levados em conta outros dois fatores, a vida em grupo e os riscos associados ao parto. Primeiro, é importante frisar que os seres humanos sempre viveram em grupos. Além disso, cabe observar que, ao contrário do que se vê em outros primatas, o parto em humanos é um momento especialmente crítico, tanto para a mãe como para o bebê – trocando em miúdos, o risco de morte durante o parto é significativo, mesmo nos dias atuais [3].
A presença de um profissional treinado (e.g., uma parteira) tem um impacto positivo em 99% dos partos. Já era assim no século 19 ou na Grécia Antiga, ainda que lá os percentuais fossem mais baixos. Fato é que o parto assistido (leia-se: quando um terceiro indivíduo ajuda a mãe durante o parto) está conosco desde sempre. Sim, trata-se de uma prática cultural das mais antigas, anterior ao surgimento não só da espécie humana, mas do próprio gênero Homo [4].
Assim como o uso do fogo e a confecção de ferramentas, o parto assistido seria mais um exemplo de herança transespecífica (ver aqui). Ora, se o parto assistido está conosco desde sempre, nada mais justo do que rotular o trabalho das parteiras de a profissão mais antiga do mundo [5].
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NOTAS.
[*] Artigo extraído e adaptado do livro Por que morremos? – Alguns tópicos de biologia que o seu médico deveria ter estudado (ainda no prelo). Sobre a campanha Pacotes Mistos Completos (por meio da qual é possível adquirir, sem despesas postais, pacotes com os quatro livros do autor), ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para adquirir o pacote ou algum volume específico, ou para mais informações, escreva para [email protected]. Para conhecer outros artigos ou obter amostras dos livros, ver aqui.
[1] Para detalhes, ver Gruss & Schmitt (2015); para ressalvas, Carvalho & Okumura (2025). Vale lembrar que duas outras dinâmicas estavam em curso: (i) a postura bípede se estabeleceu entre os homininos há 4-5 Ma; e (ii) desde ~2 Maa, a linhagem Homo estava a experimentar um aumento no volume cerebral. Para uma revisão, ver Mitteroecker & Fischer (2024). A ideia de que o tempo de gestação é um meio-termo está embutida em expressões como hipótese do dilema obstétrico ou h. do quarto trimestre. Esta última, em particular, faz alusão ao fato de que um crescimento pós-natal acelerado seria um modo de compensar as restrições impostas por um encurtamento da vida intrauterina.
[2] Sobre a precocidade do recém-nascido, observe o seguinte: o bebê humano nasce com 24% da massa cerebral de um adulto; nos demais grandes símios (Cap. 5), entre os quais a abertura do canal de parto não é tão crítica, esse percentual varia entre 40 e 70%.
[3] Para detalhes e refs., ver Grunstra et al. (2023).
[4] Ver Rosenberg (1992). Laudicina et al. (2019) argumentam que o parto em A. sediba (Cap. 5) poderia exibir traços intermediários entre Homo e Australopithecus.
[5] Consultei listas de profissões antigas elaboradas por historiadores brasileiros; a profissão de parteira não foi citada. Sobre o parto assistido em sociedades humanas, ver Englemann (1882); sobre o papel das parteiras, Barnawi et al. (2013).
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REFERÊNCIAS CITADAS.
++ Barnawi N & mais 2. 2013. Midwifery and midwives: a historical analysis. Journal of Research in Nursing and Midwifery 2: 114-21.
++ Carvalho, MRG & Okumura, M. 2025. Does covariation between cranial and pelvic shapes alleviate the obstetric dilemma? Insights from a Brazilian sample. Evolution & Development 27: e70005.
++ Englemann, G. 1882. Labour among primitive peoples, 2nd ed. St Louis, JH Chambers.
++ Grunstra, NDS & mais 10. 2023. There is an obstetrical dilemma: Misconceptions about the evolution of human childbirth and pelvic form. American Journal of Biological Anthropology 181: 535-44.
++ Gruss, LT & Schmitt, D. 2015. The evolution of the human pelvis: changing adaptations to bipedalism, obstetrics and thermoregulation. Philosophical Transactions of the Royal Society B 370: 20140063.
++ Huseynov, A & mais 6. 2016. Developmental evidence for obstetric adaptation of the human female pelvis. Proceedings of the National Academy of Sciences 113: 5227-32.
++ Laudicina NM & mais 2. 2019. Reconstructing birth in Australopithecus sediba. PLoS One 14: e0221871.
++ Mitteroecker, P & Fischer, B. 2024. Evolution of the human birth canal. American Journal of Obstetrics & Gynecology 230 (Suppl.): S841-55.
++ Rosenberg, KR. 1992. The evolution of modern human childbirth. Yearbook of Physical Anthropology 35: 89-124.
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