Dólar e Juros, por Marcos A. Ortega

Mas o juro alto não influi na vida do povão? Muito pouco. Em primeiro lugar a maioria dos brasileiros nem sabe o que é esse tal de juro. E entre a classe mais baixa a jogada é outra.

Dólar e Juros

por Marcos A. Ortega

O que é melhor: dólar alto e juro baixo ou dólar baixo e juro alto? Por dólar entenda-se a taxa dólar/real e por juro a taxa Selic, definida pelo Banco Central.

Turma da riqueza. Para o grupo das pessoas ricas, a elite, a classe média alta, industriais, grandes fazendeiros, a resposta é sempre a mesma: a primeira opção,  dólar alto e juro baixo.

Porquê? Imagine um fazenderão lá do Mato Grosso vendendo a soja dele. O preço da soja hoje (27/8/20) está em 24 dólares e o dólar está em 5,58 reais, portanto, o sujeito recebe pela saca 134 reais. Em janeiro de 2018 a saca valia 23 dólares e o dólar cotado a 3,18. Naquela ocasião o sujeito recebia 73 reais. Portanto, devido à cotação do dólar a qual está super alta hoje, o vendedor está ganhando praticamente o dobro. Como a nossa moeda é o real, o cabra é só felicidade. Uiscão de 36 anos e um Havana legítimo para comemorar. Alguém poderia argumentar: mas e os insumos que também são cotados em dólar? Mas se o sujeito é esperto, e todos o são, ele já estocou os insumos  quando o dólar estava a 3,2 reais.

Em janeiro de 2018 o salário mínimo valia 954 reais. Hoje está valendo 1045 reais. Se o reajuste fosse o mesmo da saca de soja, o mínimo deveria estar em  1751 reais. É lógico que existem diversos parâmetros nessa questão, mas, na prática, hoje, o fazendeiro recebe 134 reais pela saca e o peão recebe 1045 reais por um mês de trabalho.  São exatamente 7,78 sacas de soja por um mês de trabalho! Isso se o coitado não for terceirizado. E essa distorção absurda é resultado do dólar alto.

Mas não é só isso. Com a alta do dólar tudo, de uma forma ou de outra, sobe, devido ao entrelaçamento dos vários setores. Um setor que  mais amarra tudo é o de combustíveis. Assim o peão além de não ganhar mais relativamente, porque a correção do mínimo é muito pequena em relação à inflação — o leitor, evidentemente, é inteligente e não acredita que a inflação esteja em 4% como diz o governo; hoje deve estar no mínimo em 15% a.a. — tem o seu poder aquisitivo vilipendiado. O pouco que ele compra paga mais caro e aí entra o mecanismo letal do capitalismo: transferência de renda do pobre para o rico.

Quanto à taxa Selic baixa isso é conveniente para a tubarãozada porque juros de empréstimos do governo ficam muito mais baixos. A turma da grana é useira e vezeira em tomar empréstimos do governo. Veja-se o caso do véio da Havan. Ficou-se sabendo outro dia que ele já tomou 52 empréstimos do BNDES, quer dizer, o malandro montou o seu império de lojas, cujo maior símbolo é a estátua da Liberdade, com grana do povão brasileiro. Agora, resta saber se ele vai pagar isso, coisa que normalmente, eles, os poderosos, dificilmente fazem.

Turma da pobreza. Para essa turma a segunda opção acima, i.e., dólar baixo e juro alto, é a solução óbvia, a qual foi experimentada durante os oito anos do governo Lula e parte do governo Dilma. Neste caso, o que ocorreu? Um fluxo muito grande de dólares para o Brasil. Os investidores  vinham para aproveitar as altas taxas Selic. Como resultado disso o valor do dólar em relação ao real começou a cair devido à oferta enorme da moeda norte-americana no nosso mercado interno. Quase que diariamente o diretor do Banco Central, Henrique  Meirelles, tinha que comprar dólares para “enxugar” o mercado e evitar que o valor da moeda americana ficasse muito baixo. O dólar chegou a custar 1,56 reais em 30 de julho de 2008. Na média dos oito anos do governo Lula o valor ficou em 2 reais. Em dois de janeiro de 2003, no primeiro dia do governo Lula, o dólar custava 3,52, e em trinta de dezembro de 2010, último do governo do petista a moeda estava cotada a 1,66 reais.

A grande vantagem do dólar baixo é o controle da inflação. Suponhamos que em função de algum fator climático o arroz tenha subido de preço. Com o valor mais baixo do dólar fica fácil para o governo importar e manter o balanço oferta/procura no mercado interno. Uma vantagem que usualmente não se atenta muito à ela é o fator psicológico. Um valor baixo das moedas fortes sempre passa a impressão de estabilidade, enquanto o contrário, como hoje, 1/9/20, por exemplo, com o dólar a 5,4 reais e o euro a 6,4, tem-se a impressão que a coisa pode fugir do controle à qualquer momento.

Em dezembro de 2005 ocorreu um fato auspicioso: o governo Lula pagou toda a dívida que tínhamos com o FMI. Lula foi o presidente que mais pagou a dívida externa, ganhando da soma paga pelo governo FHC e todos os governos militares juntos [Folha de São Paulo, 14/12/2005, Wikipédia]. De uma certa forma manter uma taxa Selic no patamar 10-15% ajudou devido à compra quase que diária de dólares pelo Banco Central. Quando a crise de 2008, também chamada crise das hipotecas, se instalou nos EUA e se espalhou pelo mundo todo o Brasil praticamente não sentiu nada, em função justamente dessa libertação em relação à moeda norte-americana. Na época o Lula, como sempre, teve toda razão ao dizer que quando a onda chegasse ao Brasil ela não seria mais do que uma “marolinha” … ao contrário da “gripezinha” do Bozotroxa. Um contra-exemplo bastante triste foi a Espanha que se envolveu com o cassino de Wall Street (por culpa do José Aznar, ex-primeiro ministro espanhol do PP, partido conservador de direita). O efeito foi devastador, sendo que a economia do país praticamente parou, principalmente a construção civil e os empregos evaporaram. Num noticiário da TeleUno espanhola este autor viu uma família com boa parte de seus pertences instalada na  garagem de um amigo, visto que o rapaz chefe de família estava desempregado há vários meses e não tinha mais como pagar o aluguel.

Mas o juro alto não influi na vida do povão? Muito pouco. Em primeiro lugar a maioria dos brasileiros nem sabe o que é esse tal de juro. E entre a classe mais baixa a jogada é outra. Suponha que a cidadã queira comprar um forno de micro-ondas. O mais barato em um Magazine tradicional, da Midea, custa “410,23 reais à vista ou 459 em 12X de 38,25 sem juros” — olha a cara de pau dos caras afirmando que as 12X são sem juros. Os juros na verdade são de 12% ao ano. Mas e a taxa Selic do governo de 2% a.a.? Essa é só para inglês ver. Se fosse sério a cidadã pagaria os 2% aa e não 12%. De qualquer maneira os 12% não evita, de forma nenhuma, que a compra seja relizada, porque o principal para a compradora é saber se a prestação de 38,25 reais “cabe” no orçamento dela. Se couber normalmente a pessoa compra.

O leitor observa então que o juro oficial baixo (taxa Selic de 2%) não ajuda em nada os mais pobres visto que estes continuam pagando juros de mercado (12%). A taxa Selic baixa só ajuda os ricos. E além do mais o juro baixo não atrai dinheiro do exterior o que pressionaria o dólar e o euro para baixo aliviando assim a inflação. Isto mostra de maneira cristalina que a política juros altos/dólar baixo da época do Lula é a correta e não a política atual da dupla Guedes/Bolsopata que massacra o cidadão.

Atenção. O autor não tem a intenção de polemizar em torno destes pontos visto não ser economista. O que foi acima descrito corresponde simplesmente às observações do que ocorreu na realidade do país após 2003.

Marcos A. Ortega, Professor Titular em Aerodinâmica, Aposentado.

 

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