Dorian Gray invertido
por Daniel Gorte-Dalmoro
Em O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, um homem mantém sua imagem jovial e de pureza moral, enquanto o peso dos anos e das escolhas degradadas são transferidos para seu retrato, escondido em um quarto, o qual seria a fiel representação de sua imagem “real”.
Ao olharmos atualmente, parece que vivemos uma espécie de Dorian Gray invertido: o retrato não mais enfeia enquanto a pessoa mantém sua aparência, pelo contrário, vemos o embelezamento da imagem enquanto a pessoa vai ganhando as marcas do tempo e das escolhas (conscientes ou não): com uma série de filtros para cada foto ou vídeo publicada nas redes sociais, cada vez mais o retrato se separa da realidade.
Não que esse embelezamento da imagem seja novidade: há séculos retratos costumam mesmo trazer algum embelezamento à figura retratada – seja retrato feito em pintura, seja em fotografia.
A novidade para estes tempos é que esses retratos com seus filtros embelezadores não são um momento solene – um quadro, uma foto para pôr na parede da sala de visitas -, são atos quotidianos. Mediados cada vez mais por telas – pelas redes sociais, em especial -, os retratos, hoje, são feitos diariamente, como uma forma de ateste de existência de pessoas inseguras consigo próprias – “posto, logo existo” é a fórmula da dúvida radical cartesiana para o século XXI.
Há uma miríade de formas de postar algo, é certo, mas na nossa cultura do narcisismo, isso se tornou principalmente a divulgação de imagens performativas de si próprio. E é aqui que temos o Dorian Gray invertido: preocupado com a própria imagem, pessoas aderem a um duplo filtro de si: primeiro, um filtro de curadoria, daquilo que postam: geralmente momentos felizes, extraordinários, de “sucesso”; segundo, os filtros estéticos, de embelezamento de si: uma ruga apagada, um nariz afinado, uma pele branqueada ou bronzeada, um corpo fora do padrão que é sutil e eficazmente camuflado.
Na década de 1960, Debord, em A sociedade do espetáculo, apontava, sob o capitalismo, a queda do ser para o ter e do ter para o parecer. Hoje esse parecer é ainda reforçado pela pressão de aparecer constantemente, de se mostrar feliz e adaptado, como forma de validação social de si. O mesmo Debord dizia que no espetáculo “o verdadeiro é um momento do falso”: diante da inversão total sob o espetáculo, em que a falsidade é generalizada, mesmo aquilo que é verdadeiro acaba sendo sustentáculo dessa mentira. Vive-se como se a vida virtual fosse a verdadeira vida (e acredita-se nisso, por parte de muita gente que segue esses perfis), e a vida que acontece fora das telas é apenas uma etapa, um processo para uma foto ou vídeo, que será devidamente filtrada (no sentido de selecionada mas também de embelezada) e publicada e, só então, passará a ter “veracidade”.
Dorians Grays passam pelo nosso celular o tempo todo. Encontros reais se tornam uma ameaça a nossos tão bem filtrados retratos, sustentáculo de nossa identidade social atual – afinal, pouca coisa resta daquilo que vemos na tela, seja fisicamente, seja emocionalmente. Dorian Gray, o original, mantinha seu retrato escondido para viver seu personagem na sociedade; quem entra na lógica atual do espetáculo também vai precisar esconder para viver seu personagem – o problema é que o que precisa ser escondido é a si próprio.
Daniel Gorte-Dalmoro é escritor e funcionário público. Filósofo e Sociólogo formado pela Unicamp, Mestre em Filosofia pela PUC-SP (se debruçou sobre A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord), Psicanalista em formação. Autor, dentre outros, de Trezenhum. Humor sem graça. (Ibiporã 1011) e Linha de Produção/Linha de Descartes (Editora Urutau).
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