Duzentos anos de capital diplomático jogados fora, por Andre Motta Araujo

Conflitos gratuitos por razões ideológicas só ocorreram antes, no governo Dutra, com o rompimento de relações com a então URSS e volta agora em escala muito maior e primitiva no atual governo

Reprodução Tv Globo

Duzentos anos de capital diplomático jogados fora

por Andre Motta Araujo

Uma das diplomacias mais profissionais do mundo, uma das duas nas Américas que tem Escola de Diplomatas (a outra é os EUA), cuja marca  secular foi o EQUILÍBRIO, a sensatez, a capacidade de dialogar com todos os regimes sem se comprometer com eles, uma ESPECIAL qualificação de bem se colocar, bem se representar nas grandes conferências e eventos, nos organismos multilaterais, na alta capacidade de entender e se posicionar em conflitos, razão pela qual o Brasil era (dificilmente será mais) o País MAIS REQUISITADO para compor Missões de Paz da ONU porque aceito por todos os lados, sem vetos, uma diplomacia SEM IDEOLOGIA e sempre pronta a arbitrar e a representar o espírito civilizatório, com grandes nomes de  espíritos refinados, treinados.

No início, com José Bonifácio, depois figuras como o Visconde de Sepetiba, o Visconde do Rio Branco (pai), o Barão de Cotegipe (João Mauricio Wanderley), o Marques de Abrantes, o Visconde do Abaeté, o Visconde de Caravelas, o Marques de Paranaguá. Já na República com Quintino Bocayuva, o Barão do Rio Branco por quase dez anos, na 2ª, 3ª e 4ª Republicas com Oswaldo Aranha, Leão Velloso (4 vezes), Afonso Arinos, Evandro Lins e Silva, Gibson Barbosa, Azeredo da Silveira, Saraiva Guerreiro, Luís Felipe Lampreia, grande parte deles acadêmicos, escritores, intelectuais de escol. As memórias de diplomatas brasileiros já publicadas formam uma biblioteca, como as de Heitor Lyra em dois volumes, os grandes nomes quase todos escreveram suas memórias, Saraiva, Gibson, Leitão da Cunha, Afonso Arinos, diplomatas são bons escritores pela cultura e conhecimento do idioma.

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A DIPLOMACIA DOS GOVERNOS DO PT

Dirão alguns que a diplomacia dos governos do PT também tinha viés. Sim, havia um viés progressista, MAS jamais de nível extremado e prejudicando relações com outros blocos e países. Nos seus dois mandatos, de 2003 a 2010, Lula foi aos EUA por SETE VEZES em viagens oficiais: a primeira antes da posse em 9 de dezembro de 2002, a segunda em 30 e 31 de março de 2006, quando foi recebido na casa de campo presidencial, Camp David, uma deferência rara, quando o Presidente Bush está com a família para descansar, depois em 24 de julho de 2007, depois em 14 de novembro de 2008, em 14 de março de 2009, logo em seguida em 24 de setembro de 2009 e finalmente em 12 de abril de 2010.

Lula tornou-se um Presidente querido nos EUA. George Bush o admirava, sendo ele a quintessência do Republicano conservador, havia notável empatia de Bush Jr. com Lula.

A Presidente Dilma foi aos EUA por três vezes em viagens oficiais, sempre recebida no mais alto nível.

As boas relações do Governo Bush com o PT e com Lula começaram antes da posse, ainda em 2002, com uma reunião sigilosa em São Paulo entre o então Subsecretário de Estado Otto Reich, personagem muito próximo à família Bush e José Dirceu, quando se traçaram as linhas básicas de convívio do novo governo com os EUA. José Dirceu passou a ser a “pessoa de relacionamento” com os EUA, a tal ponto que mesmo depois de sua queda, em 2005, a Secretária de Estado Condolezza Rice, quando veio ao Brasil, quis almoçar com ele antes de começar a viagem oficial. Dirceu esteve muitas vezes nos EUA e sempre foi recebido na cúpula do governo e de Wall Street.

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Portanto o “viés progressista” do governo do PT jamais implicou em conflito com a cúpula dos países ocidentais, ideologia nunca foi elemento desagregador de diplomacia, os interesses do País sempre prevaleceram.

Outro símbolo evidente da qualidade das relações diplomáticas do Governo do PT foi o Prêmio CHATAM HOUSE, do Royal Institute of International Affairs, conferido em 2009 ao Presidente Lula. Esse Prêmio é a mais alta honraria conferida a um Chefe de Estado por um organismo de relações internacionais que tem o maior prestígio entre todos no mundo. A instituição tem como patrona a Rainha Elizabeth II, e Chatam House é o palácio onde funciona o instituto, presidido por Lord Fraser. O prêmio foi entregue em um jantar com a presença de 450 convidados, a nata da aristocracia de Estado e de negócios do Reino Unido. Nenhum outro brasileiro recebeu esse prêmio, conferido a uma só pessoa a cada ano, uma honraria de excepcional qualidade.

UMA DIPLOMACIA ECLÉTICA – A diplomacia brasileira teve ciclos menos e mais próximos aos EUA, houve fases chamadas “independentes” nos governos Goulart e Janio Quadros. Notavelmente nos governos militares, a diplomacia no Governo Geisel se afastou dos EUA por razões estratégicas, especialmente em relação à política nuclear. MAS a diplomacia brasileira sempre manteve um alto nível de convívio com todos os países, de esquerda ou direita, tradição antiga de equidistância e proteção dos interesses nacionais.

Conflitos gratuitos por razões ideológicas só ocorreram antes, no governo Dutra, com o rompimento de relações com a então URSS e volta agora em escala muito maior e primitiva no atual governo, com a provocação de conflitos ideológicos gratuitos e pueris com países chaves de nossas relações tradicionais como França e Argentina, com evidentes prejuízos de longo prazo.

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Nesta fase diplomática, o Brasil perde seu imenso capital geopolítico de País de equilíbrio na América do Sul, deixa de ser interlocutor em conflitos regionais, não pode operar como influenciador em crises de seus vizinhos, passa a ser evitado até em consultas, uma espécie de pária diplomático.

Também há notáveis prejuízos em relações especiais com países da África e do Oriente Médio, lembrando que nesse teatro o Brasil já foi grande ator em crises no Egito (caso Suez) e parceiro número um do Iraque, onde o nosso Embaixador era um general da ativa do Alto Comando do Exército, Samuel Alves Correa e o Iraque garantiu por quatro anos o suprimento de petróleo para o Brasil sem pedir o pagamento em dólares.

Para um País que precisa crescer, a diplomacia eclética e sem preconceitos é um ativo fundamental, hoje muito danificado por um primarismo indigno de um grande País com interesses globais complexos e que hoje se perde em picuinhas e bobagens muito abaixo do interesse estratégico nacional.

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12 comentários

  1. Bolsonaro é o que é- e todos sabíamos disso !!!! Pior mesmo, é o Ernesto Araújo que é diplomata de profissão e faz toda essa barbaridade, e uma atrás da outra. O que será que se passa dentro do Itamarati? Afinal, são centenas de diplomatas e dezenas de embaixadores e, certamente, não são eles que se envolvem até o pescoço em besteiras como “Guaidó””, que ora é desprezado até pelos USA

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  2. “…Notavelmente nos governos militares, a diplomacia no Governo Geisel se afastou dos EUA por razões estratégicas, especialmente em relação à política nuclear. MAS a diplomacia brasileira sempre manteve um alto nível de convívio com todos os países, de esquerda ou direita, tradição antiga de equidistância e proteção dos interesses nacionais…” “…um primarismo indigno de um grande País com interesses globais complexos e que hoje se perde em picuinhas e bobagens muito abaixo do interesse estratégico nacional…”A Verdade é Libertadora. E a Bipolaridade Tupiniquim só não é maior que a imbecilidade e mediocridade que assola a Elite Política deste país. Uma Nação cambaleante, bêbada de ignorância. Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.

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  3. O mundo deste grupo que hoje está no poder parece se limitar a família, biblia, igreja e milícia até
    terminar este desgoverno, o prejuízo em todos os aspectos serão enormes.

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  4. Isto é o resultado de se colocar um completo idiota na presidência da república, um energúmeno incapaz de raciocinar com o mínimo de inteligência. Parabéns aos 57 milhões de idiotas que o elegeram para destruir o país.

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  5. Tristeza e revolta é o que sentimos com relação a esse governo que parece ter capacidade infinita de cometer desatinos.
    A exposição do André Araújo ainda agudiza ainda mais esse desespero dado que toda uma prática exitosa no que é a parte mais sensível da gestão do Estado, suas relações com o Mundo, se tornou o lócus da mediocridade, da vulgaridade e da irresponsabilidade.
    Não temos um chanceler no Itamaraty, mas um tresloucado exsudando ideologia barata por todos os poros. Seu chefe, o mandatário do país, um indigente intelectual grosseiro e mal educado, mal sabe o que fazer do mandato que recebeu de 57 milhões de incautos.
    Resta-nos torcer para que o país não soçobre até 2022.

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  6. Debite grande parte dessa destruição da diplomacia brasileira capitaneada pelo Babão do Rio Branco ( nome que foi dado pelo Sérgio Augusto pra esse Ernesto do Cão Araújo ) às famílias que estudaram nos melhores colégios e universidades do Brasil e do mundo, mas que abraçaram um pulha como Bolsonaro quando este indicou que o ministro da economia seria Paulo Mercado Financeiro Guedes. Me refiro às famílias Moreira Salles, Setubal, Amador Aguiar – que comandam o melhor negócio do mundo que é ter banco no Brasil, em que você tem o azar de dever 100 reais em janeiro no cheque especial e terminar dezembro devendo uns 500 – coisa que o maior sanguinário agiota teria vergonha de cobrar . Essa gente sabia muito bem o nível dessa corja, mas claro que pra manter os seus ganhos pornográficos não ligam que isso seja às custas da destruição dos serviços públicos pro povo e da liquidação do setor produtivo ( hoje Paulo Beato Salú Guedes veio com a grande ideia de um livre comércio com a China, ou seja, vai acabar com a indústria brasileira que ainda resta. Gudin deve estar tendo orgasmos no inferno em que está morando ). Essa nossa elite financista rentista é tão espúria quanto à elite alemã que ajudou Hitler a chegar ao poder mesmo sabendo o psicopata bufão que ele era. Bolsonaro é uma desgraça, mas tenho a esperança que um dia ele e a corja que o cerca passarão ( assim como Collor que, há 30 anos se via como o Imperador do país e hoje não é nada em termos nacionais ), mas o problema é que essa elite de quinta continuará dando as cartas no jogo em que só ela tem que ganhar muito e sempre, mesmo que o país esteja pra explodir.

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  7. Guedes, como bom “corretor” que é, sabe intermediar “negócios”.
    Que geralmente dão altos prejuízos para os que representa, mas milionários lucros para ele próprio.
    Essa “idéiota” de LIVRE comércio com a China (que iniciou bem seu capitalismo com as ZPEs) me parece a estória do cara pequinininho, com um “falinho” tipo clitóris, propôr um troca-troca com outro, gigante de 2,10m e “falão” até o joelho.
    E o pequenino só o viu flácido…

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    • Vc fazer livre comércio com o país mais competitivo do mundo, vc quebra em 6 meses. Os USA pensaram a mesma coisa, ” os chineses são idiota, são comunistas”, sifu, pediram arrego.

  8. Os milicos ( as forças armadas) apoiam esse show de horrores, este festival de atrocidades.
    Na economia o Brasil cuida de produzir a terra arrasada.
    Nas relações exteriores nós causam uma profunda vergonha diante de tanta burrice e vexames.
    E os milicos sabem que o projeto do clã Bolsonaro é um projeto de poder com as milícias!!!! COM AS MILÍCIAS! Mais nada ..
    E eles permitem. Sabem.
    Sua preocupação é com a carreira…que se estende pela aposentadoria.

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  9. Dormindo com o inimigo… O pessoal do PT foi bem recebido pela turma do dólar, a mesma turma que patrocina o golpe em curso e que apoia aberta ou enrustidamente Moro, Dallagnol, Bolsonaro e seus diplomatas. Enquanto isso , segundo a imprensa chapa-branca do OESP, Paulo Guedes negocia acordo de livre comércio com a China. ( https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,guedes-fala-sobre-possibilidade-de-area-de-livre-comercio-com-a-china,70003087943 ). China comunista. Ou RPC. Ao mesmo tempo, aquela mesma turma do dólar agride a Venezuela, ameaça a Bolívia…

    Realmente não é ideologia de “esquerda” e “direita”, caro André, é ideologia de imperialismo, de poder para desestabilizar países a serem assaltados e saqueados. Com diplomacia ou sem. De “esquerda” ou de “direita”.

    Empobrecemos para eles enriquecerem.

  10. + comentários

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