E Bolsonaro subiu. Quem se espanta?, por Camilo de Oliveira Aggio

Existem muitos fatores que explicam muito disso e, ao contrário de Folha, não acredito que tenha alguma relação com a mudança de tom teatralmente simulada de recuo das investidas autoritária de Bolsonaro.

Foto Sergio Lima - Poder 360

E Bolsonaro subiu. Quem se espanta?

por Camilo de Oliveira Aggio

Tem novo DataFolha na área e fiquei pensando se devia ou não devia comentar, vez que, naturalmente eu vou doar repetitivo e inevitavelmente cair no famigerado “eu disse”. O que posso fazer se disse mesmo?

Jair Bolsonaro bateu seu recorde de popularidade na série histórica do instituto. Saiu de 32% na última pesquisa para 37% nessa. A mudança meses índice de rejeição foi ainda mais expressivo e despencou dez pontos. De 44% a 34%.

No meio de mais de um município de cadáveres produzidos pela COVID-19 graças a um governo que patrocina a morte e com novas e evidentes revelações do envolvimento da família com corrupção, o cara bate seu recorde de popularidade.

O que explica?

Eu já estou me preparando para a cólera que me visitará. Muitos já estão engatilhado o velho e nojento argumento do “estômago” para culpar os de sempre: os pobres. Bolsonaro foi eleito expressivamente pelo apoio dos mais endinheirados, a faixa onde arrancava o maior percentual de votos. Esses não votam com o estômago, mas com a racionalidade (sic!), né? Pobre não raciocina, pobre é levado pela fisiologia.

E aí, amigos e amigas, quando entra o preconceito contra pobre misturado com o preconceito com o Nordeste, temos a síntese da mentalidade preconceituosa sudestina para atribuir culpas.

Bem, mas vamos lá. O argumento é furado, embora já esteja engatilhado.

Houve queda acentuada na rejeição de Jair Bolsonaro no Nordeste. De 52% para 35%. É também no Nordeste que temos o maior número de solicitantes do auxílio emergencial. Mas não sejamos Alexandre Garcia com suas falácias lógicas. Entre os que fizeram o pedido do auxílio emergencial, 42% acham Bolsonaro ótimo ou bom. Isso é um percentual só um pouco acima da média geral. E o mais importante, 36% dos que não fizeram solicitação do auxílio acham a mesma coisa. Percentuais muito próximos.

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Mais um pouquinho: o percentual de ótimo/bom cresceu em 3 dos 4 estratos sociais analisados pela pesquisa. Só caiu em um. 6 pontos. Adivinha em qual. No estrato de renda baixa, até 2 salários mínimos.

Ou seja, quem aposta que o tal “coronavaucher” está alavancando a popularidade do cara e reduzindo sua rejeição, cede apenas a uma simplificação interpretativa, ainda que legítima, ou a um preconceito de classe tradicionalmente escroto que não para em pé diante dos dados.

Argumento mais: o aumento da popularidade e queda da rejeição se deu acentuadamente em todo país. Vejam o Sudeste: saiu de 29% para 36%. Rejeição de 47% para 39%. São número de apoio muito mais expressivo do que no Nordeste. No Sul e Norte/Centro Oeste, o cara bate em 42% de aprovação.

Sigamos para a demografia.

O cara teve queda acentuada de rejeição entre os mais jovens. Com curso superior, saiu de 53% para 47%. Entre os mais ricos de 52% para 47%. Os empresários o apoiam ainda mais: saíram de 51% para 58% de ótimo e bom. E entre estudantes, a rejeição saiu de 67% para 56%. 11 pontos de queda. Um tombo super positivo.

Bem, existem muitos fatores que explicam muito disso e, ao contrário de Folha, não acredito que tenha alguma relação com a mudança de tom teatralmente simulada de recuo das investidas autoritária de Bolsonaro.

Eu vou enumerar apenas 5:

1) A pandemia no Brasil acabou. Não factualidade, por óbvio. Estamos batendo recordes de mortes e infectados ainda. A pandemia acabou na percepção pública brasileira. Como avisei, quem apostava que pilhas de corpos detonariam Bolsonaro, apostou alto e menosprezou muito a incapacidade do Brasileiro em exercer a solidariedade e a compaixão.

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Igualmente, menosprezou muito a força de Jair Bolsonaro e seu investimento no argumento de que a economia é mais importante e pode matar mais. O bolso de muitos pesou, o governo ajudou a pesar quando podia aliviar, mas conseguiu emplacar a percepção de que a culpa não é dele, mas de governadores e a vida precisa voltar ao normal. As pessoas precisam trabalhar.

2) A chateação dos antigos apoiadores, que fizeram a popularidade de Bolsonaro cair e sua rejeição aumentar, era apensariam chateação. Nada que o tempo não resolva. Briguinha de casal. Bolsonaro é a síntese perfeita da qualidade moral brasileira, principalmente nos estratos socioeconômicos superiores.

3) Bolsonaro é uma questão moral. A afinidade brasileira com Bolsonaro se dá fortemente por conta de seus valores e atitudes. Autoritário, misógino, racista, homofóbico, classista, boquirroto, autêntico, demófobo, punitivista e seletivo. Isso é uma base de sustentação que resiste a abalos sísmicos de grande escala.

4) O jornalismo brasileiro não é anti-Bolsonaro como seria com algum governante à esquerda sem um projeto de desmonte do Estado e garantias a trabalhadores. É regido pela defesa dos interesses quem tem é representa por afinidade. E para mim a constatação é simples e se explica por uma anedota: fosse uma Dilma ou Lula da vida à frente dessa necropolítica face à pandemia, os enquadramentos que estaríamos vendo seriam o de que perderam a capacidade de governar e tira-los era uma questão de saúde pública

5) Há um submundo complexo da comunicação por onde essas pessoas também se informam, conversam, discutem, compartilham experiência, relatos e entendimentos. Pode ter algum grau de influência nesse processo.

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Como sempre alertei, sentem-se confortavelmente. Essa viagem vai ser longa.

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8 comentários

  1. Exato. É por aí mesmo.

    Sugiro mais uma vez a leitura: A Divina Comédia, de Alighieri.

    Seguimos ainda em direção ao fundo do Inferno.

  2. De minha parte cólera nenhuma. A única “crítica” que faço a esse texto é movida por “inveja” de não tê-lo escrito. Desde o início do princípio do começo (eu não disse ?) não considero Bolsonaro culpado de nada. Culpado são os que votaram nele, ricos, pobres e remediados, os verdadeiros professantes da moral bolsonara. A viagem vai ser longa, sem dúvida nenhuma, só não sabemos para onde nos levará.

  3. Primeiro precisamos lembrar que a melhora de aprovação do governo eleito em 2018, indicado mas pesquisas, demonstra uma derrota do neoliberalismo econômico e daqueles que defendem uma diminuição do estado.

    Segundo, que o presidente eleito em 2018, apesar de representar a direita, não tem ideologia, sendo extremamente um oportunista, e sem o apoio para fechar totalmente o regime, caminhará a passos largo em direção ao populismo. O neoliberalismo que se cuide.

    De qualquer maneira reforça as teses do PT junto ao eleitorado mais pobre, da necessidade de ampliar as políticas sociais e aumentar a distribuição de renda.

    Dentro de um quadro de disputas eleitorais livres, restará poucas ou nenhuma alternativa para o governo eleito em 2018.

    De certa forma isto é inédito no Brasil, e não sabemos como reagirá os eleitores, diante de uma guinada de um governo que no início defendeu o liberalismo econômico e a diminuição do estado.

    Mas muito provavelmente se ficar no meio do caminho, com apenas medidas para atenuar os efeitos da crise econômica, dificilmente conseguirá apoio eleitoral suficiente para vencer as eleições.

    Será necessário ampliar o emprego e aumentar o salário mínimo, e não conseguirá com medidas neoliberais e com a redução do estado, principalmente na economia.

  4. Concordo Camilo, e acho que há duas novidades aí, além de Bolsonaro representar a alma profunda do caonservadorismo nacional, que abarca todas as classes sociais.

    Primeiro, este conservadorismo foi reforçado pelo avanço avassalador dos neopentescostais desde a década de 1980, que abriu caminho para esta visão moralista e intolerante do bolsonarismo: os evangélicos são a base mais forte e fiel do Bolsonaro.

    Segundo, o bolsonarismo não é só a afirmação do conservadorismo preconceituoso brasileiro, embora se alimente dele. Ele é um processo fascista de feição nacional, assentado no ódio e no ressentimento com as instituições liberais (parlamento, judiciário, estado de direito, democracia) que, de fato, só beneficia o capital em todo o mundo. É uma revolta irracional e inconsciente contra o capitalismo, mas que se crê uma revolta contra a corrupção política moral e econômica.

    E não nos iludamos, o bolsonarismo, como todos os fascismo não tem projeto de poder que não seja a opressão do inimigo (interno ou externos), a destruição social e a guerra permanentes, até a autodestruição dos fascistas e da nação, sob o disfarce do combate ao mal. A viagem serpa longa. E tenebrosa. Que os deuses nos protejam!

  5. ‘Se Bolsonaro acha que vai tirar o lado liberal e continuar com o mesmo apoio, está enganado’, diz presidente do Instituto Mises(https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53774028)
    Letícia Mori Da BBC News Brasil em São Paulo —14 de agosto de 2020

    Diante do que o próprio ministro da economia, Paulo Guedes, classificou como um “debandada” de seus auxiliares que pediram demissão no ministério, o presidente do Instituto Mises, Hélio Beltrão, diz que, se o governo romper com o liberalismo vai perder o apoio do empresariado, que foi um dos pilares de sua eleição. “Se ele acha que vai tirar o lado liberal e continuar com o mesmo apoio que tinha antes, ele está enganado”.

    Beltrão é um dos principais defensores do que classifica como “ultraliberalismo econômico” no Brasil. É presidente do Instituto Mises Brasil, nomeado em homenagem ao economista liberal austríaco Ludwig von Mises.

    Ele tem uma relação próxima com Guedes (fundou com ele o Instituto Millenium) e com alguns dos seus auxiliares que saíram, como Salim Mattar, agora ex-secretário especial de desestatização, e Paulo Uebel, ex-responsável pela secretaria especial de desburocratização.

    A saída nesta semana de Mattar e Uebel agravou a crise de perda de funcionários insatisfeitos no ministério que já vinha acontecendo desde o início do ano. Mattar e Uebel reclamaram que as mudanças liberais previstas — reforma administrativa e agenda de privatizações — não estavam saindo.

    A saída de funcionários insatisfeitos marca uma virada na postura econômica do governo, segundo analistas, de uma agenda liberal defendida por Guedes para uma postura com maior atuação estatal. —–
    —–Beltão diz que espera que Guedes consiga “renegociar” as privatizações, a reforma administrativa e a abertura comercial, mas afirma que um rompimento definitivo com o liberalismo tornaria muito difícil para o governo “recuperar o apoio” que conseguiu por defender uma agenda liberal durante a campanha.

    “Eu suspeito que não, o presidente não consegue se eleger sem o apoio dos empresários”, diz ele, que afirma também que “essa coisa de aumentar o tamanho do governo está ficando parecido com o governo de esquerda (que veio antes)”.

    Leia abaixo trechos da entrevista de Beltrão a BBC News Brasil

    https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53774028

  6. Particularmente, atribuo aos 600, sim, e tambem aos meios militares e policialescos. Também contribui a percepção da população que bozo é só um garganta incompetente, que sempre irá liberar um pis, um fgts, ou um auxilio qualquer, haja vista sua incapacidade de gerar empregos.
    Mas com certeza o maior trunfo deste desgoverno reside na hesitação, ou cumplicidade, da imprensa, que exalta pequenos avanços economicos mas esconde a realidade , só a expondo quando percebe que o regime caminha para o populismo miliciano.
    https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/08/14/previa-do-pib-do-bc-indica-tombo-de-quase-11percent-no-2o-trimestre-e-inicio-de-recessao.ghtml

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