Economia Brasileira em Sete Pecados Capitais: Ira, por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Enquanto os contendores se digladiam, o verdadeiro inimigo locupleta-se e leva todas as palhas para si. Uma guerra em que não se conhece o inimigo já começa perdida.

Economia Brasileira em Sete Pecados Capitais: Ira

por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Todos já viram campeonatos de derrubar dominós, em que ganha quem conseguir a maior sequência possível. A derrubada deve ser controlada e o espaço ocupado pelas peças é limitado, fazendo com que os competidores elaborem trajetos mirabolantes. Isso deixa a competição emocionante porque os trajetos são a expressão material da estratégia. Economistas não são diferentes. Como o número de variáveis da realidade é infinito, criam modelos para explicar aspectos dela. Frisemos bem, aspectos somente, pois a realidade não se explica, constata-se. Assim, fazer a realidade caber num modelo requer um contorcionismo digno dos mais grandiosos artistas de circo. Vamos ver se a ira cabe numa urna ou numa competição de dominós, ou ainda, num modelo econômico.

Na segunda metade dos anos 1970 e durante todos os anos 1980, entre os herdeiros do neoliberalismo, a pesquisa tinha um tema principal, as expectativas racionais. Ela contradizia a premissa da ilusão monetária e atribuía poder de antecipar eventos a todos os agentes econômicos, o que pareceu absurdo para os economistas de formação keynesiana. Essa linha de pesquisa contribuiu muito porque ela trouxe para os modelos a capacidade que os agentes têm de neutralizar políticas econômicas, o que os teóricos chamaram de “esterilização”. Assim, os agentes viveriam em eterno conflito, entre si e entre eles e o Estado. Até então, achava-se que ações do Governo poderiam ter efeito mais que duradouro, permanente.

Tomemos como premissa que a ira seja a reação exacerbada e irracional contra não se conseguir algo. Os portugueses dizem que “eles brigam por qualquer dá cá essa palha”. Os que disputam a palha têm um inimigo comum, a miséria, mas odeiam-se um ao outro, em vez de colaborar. Enquanto os contendores se digladiam, o verdadeiro inimigo locupleta-se e leva todas as palhas para si. Uma guerra em que não se conhece o inimigo já começa perdida.

Imaginemos viver numa economia exportadora em que há um inimigo oculto e os empresários se dividem entre os exportadores, que recebem em moeda forte e os dedicados ao mercado interno, cuja receita vem em moeda local.  Finalmente, suponhamos que os que faturam em moeda forte queiram que suas despesas ocorram em moeda local, ao passo que os que operam com a moeda fraca pretendem obter receita em moeda forte. Haverá uma contenda que só permanece sob controle se ambos criarem um inimigo comum, o Estado e tudo o que deriva dele, incluindo direitos trabalhistas, funcionalismo público e estatais. É preciso dar um nome ao falso inimigo, fomentando a ira. Que tal socialismo cultural?

Enquanto a ira campeia solta nessa sociedade desestruturando-a, o verdadeiro inimigo toma-lhe os bens. Assume seu centro de lançamento de foguetes, concedendo-lhe todas as cidades do país como alvo. Leva sua empresa petrolífera, a começar pela distribuição de combustíveis, que deixa as forças armadas a mercê de fornecedores nada confiáveis. Em seguida, privatiza a empresa que detém os linhões de energia elétrica, dando a um gaiato qualquer o poder de desligar o país. Elimina o banco de fomento para que a capacidade de investir se anule, deixando essa sociedade fictícia eternamente dependente da poupança externa.

Se a estratégia é fragilizar o país, a tática é pôr no governo quem detém as armas e os dominós começam a cair sem esforço algum, até que não reste nada em pé. Nada mesmo, nem os que deveriam defender o país e voltaram suas armas contra seus compatriotas.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

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