A engrenagem feminina que sustentou o Brasil enquanto o palanque falava
por Edgar Silva dos Anjos
Há uma observação que se impõe a qualquer um que tenha operado política no Brasil das duas últimas décadas com alguma atenção: as travessias mais agudas da nossa história recente foram sustentadas por uma camada feminina de quadros de coordenação institucional, em postos que não aparecem no palanque e que a imprensa raramente nomeia. Não se trata de exaltação simbólica. Trata-se de descrição rigorosa, e de cálculo político para 2026.
Escrevo enquanto homem, professor de filosofia, vinte anos de bastidor público em Minas Gerais. A localização permite enxergar a cena de dentro, com tudo o que ela revela e com tudo o que tende a esconder. A socióloga Bruna Camilo, cuja pesquisa sobre as estruturas contemporâneas de gênero acompanho desde a passagem dela pelo Consórcio Mulheres das Gerais, vem mostrando como a hierarquia entre homens e mulheres opera como mecanismo de socialização desde a infância, e como essa operação produz pontos cegos analíticos mesmo em quem se reconhece comprometido com a igualdade.
O que Helena Hirata e Danièle Kergoat formularam como divisão sexual do trabalho não opera somente na esfera doméstica. Reproduz-se dentro das próprias organizações políticas, distribuindo sistematicamente as funções de cuidado institucional, de coordenação interna, de manutenção de estrutura, sobre os ombros das mulheres, enquanto a representação visível e o palanque permanecem majoritariamente masculinos. Quem operou bastidor sabe disso porque viu, ano após ano, em mesa após mesa, em gabinete após gabinete.
O que descrevo a seguir é essa reprodução, lida em marcos da política brasileira recente. Mulheres sustentando estrutura partidária, estatal e territorial em momentos críticos, sem que a narrativa pública lhes devolva o lugar correspondente. O que importa é a leitura correta do que aconteceu. E o cálculo do que vem, porque essa mesma geração está agora em postos estratégicos para 2026, e entre elas há figuras decisivas para o próximo ciclo do país que permanecem pouco nomeadas. É sobre uma dessas figuras que este texto, no final, quer falar.
2005: a virada com rosto feminino
Em 2005, o escândalo do mensalão eclodiu e ameaçou consumir a administração Lula. José Dirceu, chefe da Casa Civil e operador político-chave do primeiro mandato, foi obrigado a deixar o cargo. Em seu lugar, Lula nomeou Dilma Rousseff, então ministra de Minas e Energia. Naquele momento de risco existencial para o governo, foi uma mulher quem assumiu a articulação institucional do Planalto. Lula seria reeleito em 2006 com folga, e parte significativa da virada está, precisamente, naquela transição da Casa Civil.
A leitura que predomina sobre o segundo mandato atribui o êxito à liderança individual de Lula, e há razão para isso. Há também o que ainda não se conta. A reorganização do governo a partir de 2005 contou com uma camada feminina de articulação que sustentou a virada. Dilma na coordenação central. Marina Silva no Meio Ambiente desde 2003, conduzindo a política que reduziu o desmatamento da Amazônia a níveis historicamente baixos no primeiro mandato. Nilcéa Freire na Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, com status de ministério, estruturando as primeiras políticas nacionais sistemáticas do Brasil republicano para as mulheres. Foi no Lula I que se sancionou a Lei Maria da Penha em 2006, e se criou o Ligue 180 em 2005, depois de décadas de luta dos movimentos feministas. A operação institucional desse período tem rosto feminino em medida que vinte anos ainda não foram suficientes para registrar adequadamente.
2017: quem segurou o partido em pé
A crise da democracia brasileira a partir de 2016 produziu o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff e, dois anos depois, a prisão arbitrária de Lula. O PT, alvo direto da operação de demolição política, atravessou o período mais escuro da sua história. Lava Jato, prisões, financiamento partidário sob ataque, militância dispersa, mídia abertamente hostil.
Foi nesse momento que duas mulheres assumiram a operação que sustentou o partido. Gleisi Hoffmann na presidência nacional do PT a partir de 2017. Gleide Andrade na Secretaria Nacional de Organização entre 2017 e 2019. A divisão do trabalho institucional foi clara. Gleisi à frente da articulação política e da relação com o Congresso. Gleide segurando a estrutura, reorganizando os diretórios pelo país, coordenando nacionalmente a criação dos Comitês Lula Livre, mobilizando bases em todos os estados, sustentando a presença territorial do partido enquanto a estrutura era abertamente atacada.
Os Comitês Lula Livre foram a maior operação de mobilização popular do PT na sua história recente. Milhares de pessoas mobilizadas em centenas de cidades. A vigília de Curitiba se tornou símbolo internacional da resistência democrática. O que pouca gente sabe é que a coordenação nacional dessa rede passava pela mesa de uma dirigente mineira que ninguém na imprensa fotografava. A história oficial desse período conta os juízes, os presos, os procuradores, os advogados, e os homens visíveis do palanque. A engrenagem que manteve o partido em pé era feminina, mineira no caso da Gleide, e fora do enquadramento da câmera.
Mariana e Brumadinho: a operação feminina nos territórios
Em 2015, em Mariana, o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, matou dezenove pessoas e devastou a bacia do Rio Doce até a foz no Espírito Santo. Em 2019, em Brumadinho, o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, da Vale, matou duzentas e setenta e duas pessoas e contaminou centenas de quilômetros do Rio Paraopeba. Os dois maiores crimes socioambientais da história brasileira aconteceram em Minas Gerais, com intervalo de menos de quatro anos. O Estado falhou em prevenir e segue falhando em reparar. A reparação avança em ritmo de empresa, distante do ritmo de quem foi atingido.
Quem segurou a memória, organizou a resistência, e exigiu reparação foi o Movimento dos Atingidos por Barragens, o MAB. E o MAB, ao contrário do que a maioria das matérias jornalísticas registra, é majoritariamente feminino. Mulheres e jovens compõem cerca de setenta por cento da composição do movimento. O Coletivo Nacional de Mulheres do MAB articula em todo o país a denúncia, a luta por direitos, a organização das atingidas.
Os nomes que sustentam essa operação raramente aparecem na grande imprensa, mas circulam com peso em outra dimensão da política brasileira. Letícia Oliveira na coordenação nacional, expondo em entrevistas e articulações a tese de que a invisibilização das mulheres se reproduz na própria política de reparação. Ivanei Dalla Costa, também na coordenação, sistematizando a luta cotidiana e multifacetada das mulheres atingidas. Tatiane Paulino Bezerra, mulher preta nordestina, atingida pela Barragem do Castanhão no Ceará, hoje na coordenação estadual do MAB no Rio Grande do Sul. Thalita Soares, moradora de Brumadinho, que abriu sua casa para as primeiras oficinas de arpilleras com as mulheres atingidas pelo crime da Vale.
As arpilleras precisam ser nomeadas. Trata-se de uma técnica têxtil popular chilena, originada na resistência das mulheres à ditadura de Pinochet, ressignificada pelas mulheres do MAB como linguagem política de denúncia e memória. As atingidas costuram, em pano, o que o Estado e as empresas tentam apagar. Em 2025, essas arpilleras foram tema de exposição no Museu de Arte de São Paulo, dentro da programação Histórias da Ecologia. O bordado das atingidas chegou ao mais importante museu de arte do país, o que diz algo sobre a qualidade política e estética dessa produção. Diz algo, também, sobre o fato de que o reconhecimento institucional tarda, mas chega.
O caso do MAB amplia a tese para fora do partido. A mesma camada de coordenação feminina que sustentou o PT na crise sustenta a luta por direitos socioambientais nos territórios onde o Estado se ausentou. Mariana e Brumadinho são marcos mineiros. As atingidas que reorganizaram a vida e exigiram reparação são mineiras, capixabas, fluminenses, baianas, gaúchas, nordestinas. A geografia do desastre é nacional. A operação feminina que respondeu, também.
2023: a resposta ao golpe
Os primeiros dias do terceiro governo Lula trouxeram dois marcos de natureza distinta, e ambos com operação feminina decisiva.
No dia 8 de janeiro de 2023, oito dias após a posse, a sede dos três poderes foi invadida e depredada por bolsonaristas. Foi tentativa de golpe, e foi também tentativa de deslegitimação simbólica do governo recém-empossado. Três dias depois, no Palácio do Planalto, o presidente realizou cerimônia conjunta de posse de duas ministras. Anielle Franco no Ministério da Igualdade Racial, irmã de Marielle, articulando a partir daquele momento a resposta internacional do governo brasileiro à crise democrática. Sonia Guajajara no Ministério dos Povos Indígenas, primeira ministra indígena da história do Brasil. A composição daquela cerimônia, três dias após o ataque, foi gesto político deliberado de reposicionamento simbólico do Estado pós-invasão. E foi articulada por uma cadeia que passava pelas duas, por Gleisi no Congresso, e por toda a estrutura interna de coordenação do governo.
Quase simultaneamente, no fim daquele mesmo janeiro, a crise humanitária do povo Yanomami eclodiu publicamente. A situação de desassistência era anterior, vinha sendo denunciada nos meses finais do governo Bolsonaro, mas a magnitude do colapso foi documentada nos primeiros dias do governo Lula. Decretou-se emergência em saúde pública de importância nacional. Sonia Guajajara e Joenia Wapichana, à frente da FUNAI, coordenaram a maior operação humanitária da história recente do Brasil em terra indígena, envolvendo trinta e três órgãos federais. Bilhões de reais liberados, Casa de Governo permanente instalada em Boa Vista, ações continuadas de desintrusão e assistência. O reconhecimento midiático ficou aquém da magnitude da operação, mesmo dentro de um governo onde elas estão no cargo.
Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul foi atingido pela maior tragédia meteorológica da sua história. A coordenação visível da resposta federal foi majoritariamente masculina. A engenharia interna incluiu, entre outras, Simone Tebet no Planejamento e Cida Gonçalves no Ministério das Mulheres. O padrão se reproduz mesmo onde elas chegaram ao cargo. Reproduz-se na própria distribuição da câmera.
O padrão, e o que ele cobra
O padrão atravessa duas décadas e cinco contextos institucionais distintos. Governo federal em momento de risco existencial. Partido sob ataque coordenado. Movimento social em território devastado pela mineração. Resposta institucional a tentativa de golpe contra a democracia. Coordenação humanitária em emergência indígena. Em cada um desses cenários, a operação que sustentou a travessia teve composição majoritariamente feminina, sem que essa composição tenha entrado, na proporção devida, na narrativa pública subsequente.
Trata-se de reprodução estrutural, dentro das organizações políticas e estatais, da divisão sexual do trabalho que estrutura a sociedade brasileira fora delas. Hirata e Kergoat mostraram isso na esfera do trabalho assalariado e doméstico. O argumento se estende com facilidade para o trabalho político. As funções de cuidado institucional, de coordenação interna, de manutenção de estrutura, de articulação invisível, recaem sistematicamente sobre as mulheres, enquanto a representação pública, a fala no palanque, a entrevista, o cargo eletivo permanecem majoritariamente masculinos.
Há ainda outra camada, articulada por Bruna Camilo nas suas pesquisas mais recentes. A socialização contemporânea de gênero, agora intensificada pela arquitetura das redes sociais, opera desde a infância e atua sobre todos, inclusive sobre quem analisa. Reconhecer a operação dessa estrutura é parte da análise rigorosa que se exige de quem pretende compreender o que aconteceu no Brasil das duas últimas décadas. É também condição para qualquer cálculo político minimamente sério sobre o que está por vir.
2026: nomear, ou seguir invisível
Essa geração está agora em postos estratégicos para a reeleição que se aproxima. Janja em centralidade simbólica no Planalto. Anielle Franco e Sonia Guajajara em ministérios decisivos. Macaé Evaristo nos Direitos Humanos. Gleisi Hoffmann à frente da articulação política do governo após deixar a presidência do PT. Em Minas Gerais, Leninha Andrade na presidência estadual do partido. E, no coração da operação nacional, Gleide Andrade, hoje Secretária Nacional de Finanças e Planejamento do PT, com responsabilidade direta sobre o caixa do partido em ano de reeleição presidencial, sobre a coordenação nacional da campanha de Lula, sobre a articulação do Grupo de Trabalho Eleitoral em Minas Gerais, com competência efetiva sobre a montagem da chapa proporcional do estado e sobre a indicação ao Senado.
Vale dizer quem é Gleide Andrade, para situar quem ainda não a conhece, embora a militância mineira a conheça há quatro décadas. Mineira de Carmo do Cajuru, no Centro-Oeste do estado, veio para Belo Horizonte ainda jovem, estudou filosofia na PUC, ajudou a reconstruir o movimento estudantil mineiro na reabertura democrática. Aos vinte e poucos anos, entrou na gestão Patrus Ananias em BH, ajudou a implementar o Orçamento Participativo e a fundar o primeiro Conselho Municipal das Mulheres da cidade. Foi professora de filosofia da rede pública. É filha, é mãe. Quarenta anos de trajetória política institucional, sustentada por escolhas que não passaram pelo palanque.
Decide, no bastidor, parte expressiva do que homens do palanque vão disputar no próximo ano.
A questão que este texto tenta abrir, sem fechá-la, é se a geração que sustentou as travessias da democracia brasileira nas duas últimas décadas vai ser, em 2026, finalmente nomeada, reconhecida, eleita. Ou se vai seguir compondo a engrenagem invisível enquanto outros ocupam o lugar visível. O futuro do país se decide também na composição do Congresso que vai sustentar, ou estrangular, o terceiro mandato de Lula. E a composição do Congresso passa por quem o ocupa.
Há figuras dessa geração que precisam estar lá. A Gleide é uma delas. Vale conhecê-la de perto.
Edgar Silva dos Anjos é professor de filosofia, ensaísta e produtor cultural. Escreve sobre política, cultura e território, com pé no território.
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