Entre deepfakes e desinformação: o detergente, o algoritmo e as eleições brasileiras (Parte 3)
Por: Diego Matheus de Menezes, Gabriel Avritzer, Stella Ferreira Gontijo e Anna Luiza Coli, (Cátedra Darcy Ribeiro IEAT/UFMG)
A plataformização do debate político atual vem transformando a forma de fazer e pensar a política de maneira surpreendente. Nos dois primeiros artigos desta série, discutimos alguns dos usos políticos e eleitorais de sistemas de IA fora das campanhas e de perfis. A terceira parte da série será dedicada a alguns dos usos políticos e eleitorais de sistemas de IA, considerando o fenômeno, nativo digital, da transposição de posicionamentos e identidades políticas para comportamentos de consumo.
Em maio de 2026, a Anvisa suspendeu lotes de produtos da Ypê por contaminação bacteriana. O que deveria ser um episódio técnico e questão de vigilância sanitária se transformou em mais um front da guerra cultural brasileira. Perfis ligados à extrema direita mobilizaram redes sociais, grupos de WhatsApp e Telegram para transformar a crise sanitária em “vingança política” contra uma empresa aliada ao campo bolsonarista. Dentre várias lideranças desse campo, Michelle Bolsonaro publicou stories de apoio à marca. Vídeos viralizaram com pessoas bebendo o detergente, em sinal de solidariedade à empresa. A Agência Lupa registrou, no monitoramento daqueles dias, o uso de inteligência artificial generativa para criar “novelinhas” e esquetes dramatizadas sobre o caso. Assim, as redes sociais passaram a ser tomadas por “ficções sintéticas” que simulavam diálogos cotidianos para transformar uma crise sanitária em disputa política.
Acontece que o “fio do Ypê” não foi um acidente. Foi um ensaio do que serão as eleições de 2026 em termos da produção superindustrial de imagens do real via conteúdo gerado por IA. Seremos inundados, dia sim, dia também, por imagens capazes de reproduzir uma visão do real e cristalizar a guerra narrativa em um produto audiovisual convincente, diante do qual nos resta a adesão imediata ou a perplexidade.
A perplexidade, no caso, leva também à paralisia – e não raro à angústia – diante da constatação de que uma eleição não pode ser reduzida a um detergente e que, a despeito do absurdo, as coisas parecem se encaminhar mesmo para esse desfecho. A propaganda feita por IA não tenta mais convencer, inclusive porque as estratégias de convencimento, assim como as da publicidade de outrora, não surtem mais efeitos diante da enxurrada audiovisual à qual está submetida o “sujeito cronicamente online”. O que essas propagandas fazem é justamente engrossar a enxurrada, tornando todas as mensagens igualmente indiferentes. Por isso, o que de fato importa é a capacidade de viralização de uma mensagem publicitária.
A condição em que a veracidade da informação importa menos do que a visão de mundo que ela confirma, também chamada de pós-verdade. Quanto mais vezes uma imagem – e a narrativa nela cristalizada – aparecer no feed dos usuários, maior a chance de ela se tornar imagem do real e, assim, aderir à realidade. O objetivo dos conteúdos produzidos para viralizar é o de emplacar uma imagem do real capaz de mobilizar os usuários das redes. Nesse cenário, emplacar uma imagem do real vale mais do que disputar a realidade factual.
Mais do que a busca pela “verdade”, a atuação nas redes passa pela construção de identidades. Nesse sentido, o compartilhamento de imagens do real que confirmam nossas crenças é uma forma bastante eficaz de sinalizar o pertencimento a um grupo específico. Sentir-se parte de um grupo que se mobiliza contra um inimigo comum ajuda a entender o fenômeno das pessoas que encontram no consumo ostensivo do detergente Ypê uma forma de afirmar sua identidade patriota.
Esse cenário se acentua em um contexto de crise da confiança em instituições que até recentemente eram consideradas parte fundamental de democracias consolidadas, o que está em jogo é também o pacto republicano estabelecido com a Constituição de 1988. Essa dinâmica se relaciona à percepção de que a crise das democracias contemporâneas não se manifesta apenas por meio de rupturas abruptas ou golpes explícitos contra a ordem democrática, mas se desenvolve de forma gradual, por meio de um processo contínuo de erosão.
Vivemos em uma era, como propõe Letícia Cesarino no livro “O mundo do avesso: Verdade e política na era digital”, em que a própria dinâmica das plataformas digitais e da mediação algorítmica contribui para a crise de confiança no sistema perito que, na era pré-digital, organizava socialmente os critérios de validação e, assim, o que era considerado verdadeiro ou falso. Atualmente, o esforço necessário para obter adesão a conteúdos artificialmente sugeridos foi significativamente reduzido, dada a possibilidade técnica de produção superindustrial de posts e vídeos, facilitada pelo acesso a sistemas de IA e direcionada em massa às pessoas com maior suscetibilidade ao engajamento, impulsionado por um exército de perfis falsos e bots. Assim, qualquer absurdo se transforma em pauta jornalística, adquirindo toda a aparência de um movimento orgânico e até mesmo “razoável”.
Em artigo recente, Giuline Bastos diz sobre a automação narrativa que substitui a passos largos a verdadeira mobilização popular, que “até a indignação política começa a correr o risco de se tornar um produto sintético otimizado por algoritmos”. Os afetos políticos circulam à maneira das risadas enlatadas dos sitcoms americanos: eles indicam a um público entorpecido quando é hora de reagir com violência.
E apesar do diagnóstico consensual de que a plataformização da política ameaça os pilares e as instituições democráticas, os desafios à regulação crescem a cada dia. Como estratégia de deslegitimação de todo e qualquer debate sobre regulação das Big Techs, a extrema direita brasileira repete a fórmula bem-sucedida da “alt-right” americana: reduzir todo e qualquer debate sobre regulação à “censura”. O argumento é raso e beira o simplismo, mas lá como cá preserva sua eficácia, especialmente porque no Brasil, nos últimos anos, tornou-se aceitável a ideia de que um indivíduo deve poder expressar o que pensa, ainda que esse pensamento ameace a vida de outras pessoas e a sobrevivência do próprio sistema.
A popularização da ideia de “censura” é uma reinterpretação da concepção de liberdade de expressão consolidada na cultura política brasileira, conquistada no processo de redemocratização e de consolidação da Constituição cidadã de 1988. Ou seja, caminhamos na contramão do entendimento até então corrente no Brasil de que a liberdade individual é limitada pelos direitos humanos e sociais, conforme apontamos na Parte 2 desta série de artigos.
Por fim, destaca-se que a disputa em torno das concepções de liberdade individual também se relaciona ao modelo de gestão de dados e de controle social da informação. A perspectiva de pensar as megacorporações tecnológicas como responsáveis pela gestão da liberdade individual não apenas possibilita a coleta de dados sensíveis de usuários e instituições ao redor do mundo, mas também garante a essas corporações acesso a mecanismos e “ferramentas” geopolíticas para constranger países a aceitarem suas atividades e interesses. Ressalta-se, portanto, que regular algoritmos que amplificam determinados conteúdos não é o mesmo que censurar conteúdos; da mesma forma, exigir transparência sobre quem financiou um vídeo ou identificar bots não equivale a silenciar indivíduos.
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