Especulações sobre a guerra da Venezuela
por Fábio de Oliveira Ribeiro
A história não se repete, tampouco é cíclica. O determinismo histórico e o fatalismo religioso podem até reconfortar os ideólogos e os fiéis, mas não devem ser considerados critérios relevantes para observar o passado e/ou julgar o que ocorre no presente. Imaginar o que vai acontecer no futuro é sempre perigoso e/ou inútil, pois até mesmo os planos militares mais detalhados e bem concebidos são apenas relações de coisas que podem não acontecer.
Na guerra, detalhes minúsculos e aparentemente triviais podem determinar o sucesso ou o fracasso. Quando se espalha pelos soldados, o medo é um sentimento capaz de provocar a derrota de um exército mais numeroso e bem equipado. A selva é um inimigo terrível, intratável e misterioso para aqueles que nela não habitam. O “general inverno” ajudou os russos a derrotar Napoleão e Hitler.
É possível traçar paralelos entre o passado e o presente, bem como extrair das nossas observações algumas considerações interessantes. Desde que os pressupostos sejam verdadeiros as conclusões lógicas podem ser consideradas válidas.
A elite norte-americana acredita que comanda um império global tão irresistível quanto o Império Romano. Existem algumas semelhanças entre ambos.
“Sob a República, os romanos haviam lutado contra os reinos helenísticos e contra Cartago. Entretanto, a conquista da Gália por César e a da Dalmácia por Otávio quando triúnviro haviam inaugurado um novo período: exércitos bem equipados e um Estado forte achavam diante de si tribos bárbaras desorganizadas e dispersas, e, no entanto, a tarefa nem por isso foi mais fácil. Às batalhas em campo aberto, cujo sucesso tornava a campanha vitoriosa, sucediam as guerrilhas incessantes; a monarcas facilmente desencorajados com os quais podiam-se concluir tratados, sucediam vários chefes astutos que ignoravam regras diplomáticas de temperamento às vezes indomáveis. As regiões ainda por percorrer se faziam cada vez mais vastas e continentais, mais ricas em pântanos e florestas propícias à emboscada do que em belas planícies favoráveis ao ‘Kriegspiel’, e as vias de comunicação, cada vez mais prolongadas, anulavam as qualidades logísticas dos generais. Enfim, era mais difícil subjugar povos atrasados do que populações habituadas ao jugo e alguns reis enervados pelo helenismo: se no tempo de Flamínio houve a pretensão de ‘libertar’ a Grécia, não se cogitava de ‘libertar’ estes bárbaros germanos, dácios e sármatas, a quem o exemplo gaulês ensinara que os progressos materiais trazidos pelos conquistadores se pagavam com a perda da independência e com uma exploração fiscal. Todas as conquistas operadas sob o Império foram longas e difíceis, entremeadas de graves revoltas. Apenas os reinos cederam sem resistência ou remorsos como a Nórica, os Alpes de Cótio, a Trácia, a Galácia e a Capadócia.” (A Paz Romana, Paul Petit, Edusp, São Paulo, 1989, p. 85/86)
O sucesso dos EUA nas guerras convencionais interestatais (II Guerra Mundial, Guerra do Iraque I, Guerra do Iraque II) é um fato inquestionável. Todavia, a guerra interestatal se tornou impensável no momento em que os adversários dos norte-americanos adquiriram capacidade de devastar as cidades dos EUA utilizando armamentos nucleares.
Quando foram obrigados enfrentar uma nação mais pobre e menos organizada que optou pela guerra de guerrilha, os norte-americanos amargaram uma derrota (Vietnã). Ocupações permanentes de países atrasados como o Afeganistão são capazes de desgastar e corromper exércitos modernos e podem se tornar economicamente desastrosas (URSS nos anos 1980 e EUA a partir de 2001).
Paul Petit afirma que os romanos conseguiram derrotar seus inimigos com maior ou menor dificuldade dependendo do grau de sua organização política. Entretanto, Roma nunca conseguiu submeter totalmente a Partia https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerras_romano-partas.
Os problemas que os romanos enfrentaram na Partia nunca foram semelhantes àqueles que os norte-americanos enfrentam na Síria ou enfrentarão na Venezuela. Afinal, os partos nunca chegaram a ameaçar Roma na Europa ou na Península Itálica, mas os aliados da Venezuela podem causar estragos no território dos EUA.
Apesar de toda a propaganda que tem sido produzida e distribuída pelos norte-americanos para consolidar os EUA como potência hegemônica global irresistível, as guerras assimétricas interestatais estão subordinadas às limitações impostas pelas outras potências nucleares (Rússia e China). As fragilidades dos EUA foram expostas pelos russos na Síria, minúsculo país do Oriente Médio que resiste ao imperialismo norte-americano desde 2011.
Em algum momento durante o conflito da Síria as frotas navais dos EUA e da Rússia ficaram frente a frente. Os norte-americanos recuaram assim que os russos destruíram os mísseis Tomahawk que eles haviam disparados contra Bashar al-Assad. Em momento algum os caças norte-americanos desafiaram as baterias de mísseis que a Rússia instalou na Síria. Os caças e bombardeiros russos atacaram posições inimigas sem sofrer qualquer tipo de retaliação dos EUA. Um deles foi abatido pela Turquia, mas esse incidente isolado não pode ser considerado relevante para aferir a verdadeira natureza das relações entre norte-americanos e russos.
Todos sabem que a Venezuela é muito mais frágil militarmente do que os EUA. Ao lado da China e da Rússia, o país de Nicolás Maduro pode resistir até mesmo a um ataque norte-americano e colombiano. O Brasil mantém relações comerciais importantes com a China. As relações diplomáticas do nosso país com a Rússia são amistosas. Os brasileiros nada tem a ganhar agindo como se fossem cães de guarda dos interesses norte-americanos na América do Sul.
A diplomacia brasileira precisa reconhecer três fatos inexoráveis: os EUA do século XXI não é o Império Romano do século I dc; a hegemonia norte-americana está em declínio e o poder dos EUA continuará sendo limitado pelas potências nucleares rivais; se quiser ser respeitado, o Brasil não pode e não deve se rebaixar à condição vil de Estado vassalo do império norte-americano.
helio dias horvath
20 de fevereiro de 2019 3:45 pmCom a importante ressalva de que não se deve renunciar jamais à análise concreta de uma situação concreta, como as correntes agressão política e propaganda sórdida contra o valente povo venezuelano sob a liderança de Maduro, concordo com as conclusões do autor do artigo.
Severino Januário
20 de fevereiro de 2019 4:01 pmQueiram ou não os observadores de esquerda ou de direita, a Rússia está completamente envolvida na crise venezuelana. A petroleira russa Rosneft emprestou, em 2016, 1,5 bilhão de dólares ao governo venezuelano, que ofereceu como garantia do empréstimo o controle de 49,9% da Citygo, a subsidiária da PDVSA nos Estados Unidos. Isto provocou um pequeno terremoto no mundo dos negócios petroleiros americano. Em 2016 o preço do petróleo estava a 35 dólares o barril, o que ocasionou um baque catastrófico na economia da Venezuela, que depende quase exclusivamente de suas vendas de óleo.
Assim, já que os 50,1% restantes da Citygo estavam empenhados em títulos, a Rússia passou a ser praticamente dona de uma empresa com refinarias (refina 749 mil barris por dia no Texas), gasodutos e oleodutos, dentro dos Estados Unidos, o que é um contrapeso geopolítico formidável às sanções que os americanos impuseram à economia russa. Além disso, a Rosneft adquiriu campos de petróleo na Venezuela, o que lhe confere influência sobre as exportações de petróleo venezuelano, fortalecendo sua presença até mesmo em território americano. https://www.reuters.com/article/us-usa-oil-citgo-exclusive/exclusive-u-s-ivestors-seek-to-acquire-russias-rosneft-lien-in-citgo-idUSKCN1GA2J4
Por estas razões, um grupo de investidores buscou a ajuda de Washington para recomprar a dívida da Rosneft, para impedir, entre outras coisas, que os ativos da PDVSA nos Estados Unidos fossem confiscados pela Rússia, no caso de uma possível falência da estatal venezuelana, que se encontra muito endividada. A Rosneft se recusou a comentar a possibilidade de se desfazer da Citygo. A verdade é que a participação da Rosneft na Citygo veio inviabilizar alguma possível tentativa de sequestro da mesma judicialmente por algumas empresas que operavam na Venezuela, para reparar o prejuízo que tiveram com a nacionalização do setor por Hugo Chávez.
Diante da situação da Citygo, o referido grupo de investidores mandou um recado a Trump, de que ele tinha de tomar providências quanto ao caso, seja barrando a Rosneft como administradora da Citygo, seja passando a importar menos petróleo da Venezuela, ou então trabalhando para que um governo mais amigável viesse a se instalar na Venezuela. Parece que Trump entendeu esta última sugestão, dada a título de “contribuição da iniciativa privada para resolver um problema de política pública”, como sendo uma demanda por invasão. https://www.counterpunch.org/2019/01/30/trumps-coup-in-venezuela-the-full-story/
Ocorre que Trump já havia elegido a futura invasão da Venezuela como um dos pontos altos de seu governo, muito antes da atual crise. Em 2017, numa reunião referida pela Associated Press, “Trump alarmava amigos e inimigos ao falar de uma ‘opção militar’ para remover Maduro do poder. Os comentários públicos foram inicialmente rejeitados nos círculos de política dos EUA… Mas pouco tempo depois, ele levantou a questão com o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, de acordo com [um] funcionário dos EUA. Dois altos funcionários colombianos que falaram sob condição de anonimato para evitar antagonizar Trump confirmaram o relatório.”
É claro que as petroleiras americanas não deixaram de ambicionar o petróleo da Venezuela, e a luta da Exxon para se impor sobre a exploração na zona fronteiriça litigiosa com a Guiana é prova disso. Também é claro que, além dos interesses imediatos, está o permanente desiderato imperialista de dominar as principais fontes de energia do planeta. Mas a estupidez do desejo expresso por Trump de invadir a Venezuela deixou chocado o próprio CEO da Exxon Mobil e Secretário de Estado, Rex Tillerson. Não é à toa que ele depois pediu demissão. O general Herbert MacMaster, ex-Conselheiro de Segurança Nacional, também ficou chocado com o desejo de Trump de invadir a Venezuela. https://www.apnews.com/a3309c4990ac4581834d4a654f7746ef Ambos, Tillerson e MacMaster, tentaram demovê-lo desta idéia absurda, o que, segundo o site Counterpunch, soa como irônico: Um homem do petróleo e um homem do Pentágono tentando evitar uma guerra que Trump teima em querer fazer.
Então, embora coincida com objetivos permanentes da política de hegemonia americana, este conflito que se avizinha pode ser entendido como sendo uma guerra pessoal do presidente Trump. Podemos considerar também que pode haver certa urgência em acelerar os planos dos promotores da mudança de regime, já que o preço do petróleo se elevou a 61 dólares em Fevereiro deste ano, havendo ainda perspectiva de alta até o fim do ano. Isto está fazendo com que a Venezuela apresente um quadro de pequena recuperação, e quanto aos supermercados de Caracas, há informações de fontes diversas de que eles estão abastecidos de tudo o que haveria em qualquer supermercado americano. A oportunidade de intervenção gerada pelo desabastecimento vindo do boicote econômico e dos preços baixos do petróleo está a se desfazer para os americanos.
Entretanto, parece que, além dos assuntos do petróleo, o presidente Trump devota um ódio todo especial aos povos latinos, como atestam múltiplos exemplos. O Presidente Maduro está a repetir sistematicamente isso em todas as suas entrevistas, além de classificar Trump como um legítimo e radical supremacista branco. Para viabilizar sua guerra, Trump juntou dois dos mais paranóicos belicistas dos Estados Unidos: O ex-diretor da CIA Mike Pompeo e o “bruxo” John Bolton, Conselheiro de Segurança, um dos grandes responsáveis por levar os Estados Unidos à invasão do Iraque. Juntos, estes dois Já conseguiram uma série de vitórias preliminares, como a submissão quase unânime dos governos das outras nações sul-americanas aos intentos da Casa Branca, e a adesão da maioria das nações européias às ideias neocolonianistas que este projeto de invasão vem a representar. Não haverá reação interna suficientemente poderosa para barrar esta loucura que já se instala como quase certeza? A Rússia vai ficar só protestando? Vamos ver no que tudo isso vai dar.
Alberto
21 de fevereiro de 2019 9:49 amParabéns, suas informações e análise dariam um artigo completo. Excelente!
Sidnei
20 de fevereiro de 2019 8:28 pmPrezados amigos,
Deixe-me colocar mais alguns ingredientes nessa lista:
Os militares que já tomaram a presidência e sabem que é impossível enfrentar a Venezuela;
Os americanos sabem que é impossível encarar a Venezuela numa guerra convencional;
Duvido que qualquer país latino deseje uma base militar americana em seu território ( que se tornará eterna, daí);
Então só restará apelar para uma crise econômica cada vez mais forte contra a Venezuela forçando a queda do governo ou uma guerra civil.
Assim, tudo dependerá de como a Venezuela conseguirá resistir ( com apoio Russo e chinês) e, principalmente, se ela vai conseguir se livrar das garras econômicas impostas pelos americanos. Essa imposição de todo o mundo ao dólar, conseguida sobretudo após a segunda guerra, é a fonte de todo poder americano. A Rússia e a China estão desfazendo isso…se a Venezuela conseguir se livrar do padrão dólar… aí teremos a visão mais exata dessa primeira etapa da queda desse maldito império – pior que o próprio Reich nazista.
Esse maldito império americano que nunca ganhou nenhuma guerra, mas provocou desgraça em todos os países do mundo, talvez sem nenhuma exceção.
Viva Bolívar!
Espero que eu seja o sonhador de algo que se mostre real nos próximos 10 anos…um intervalo brevíssimo de tempo para a história.
Daniel
21 de fevereiro de 2019 12:37 amImportante ressaltar que o próprio exercito venezuelano que em sua grande maioria e contra o regime, e não tem equipamentos nem alimentação adequada. Uma invertida estrangeira responde aos anseios do próprio exercito que ao meu ver entregariam as posições de bom grado e sem demonstrar resistência! muito fácil falar da Russia que tem a perder com as empresas de petróleo mas bem mais a perder se entrar numa guerra que não e sua… eles como a china não entrarão nessa briga por razoes econômicas e comerciais! e muito fácil quem esta de fora da Venezuela ou de longe fazer uma analise sem conhecer, eu morando a 2 anos perto de caracas sei bem das dificuldades que esse povo enfrente e os anseios de que o Regime chegue ao final de uma vez por todas.