Esperando Queiroz, por Wilson Luiz Müller

Esperando Queiroz 

por Wilson Luiz Müller 

Nos últimos anos a sociedade brasileira se acostumou a ver os órgãos de investigação agirem com grande rigor em relação a pessoas acusadas, ou suspeitas, de envolvimento com a corrupção. 

O ex-presidente Lula foi conduzido  coercitivamente pela Polícia Federal para prestar depoimento.
 
Na investigação das denúncias envolvendo o presidente Temer, seu amigo Coronel Lima, em estado grave de saúde, foi arrastado em cima de uma cadeira de rodas para a prisão. O argumento utilizado foi de que essas pessoas estavam se esquivando de prestar informações às autoridades.
 
Nos exemplos citados, envolvendo um ex-presidente e  um presidente em exercício, assim como em inúmeros outros casos, o rigor das autoridades era justificado em grande parte pelo clamor da sociedade pelo fim da impunidade e da corrupção. Acostumamo-nos a ouvir a máxima de que ninguém estava acima da lei, e que os culpados deveriam ser punidos, “doa a quem doer”.

 
Pois bem, a sociedade brasileira passou a acreditar que assim é, que as autoridades agiam unicamente movidas pelo espírito republicano de fazer valer a lei, aplicando-a de igual modo a todos, fosse quem fosse o cidadão.
 
Foi com esse estado de espírito que chegamos ao fatídico dia em que tomamos ciência da movimentação milionária de Fabrício Queiroz, amigo do presidente eleito e motorista do seu filho deputado. Há quase um mês a sociedade espera ansiosamente que Queiroz dê uma explicação sobre a origem da dinheirama. 
 
A sociedade que antes cobrava o combate duro contra os suspeitos de corrupção é a mesma. Não há nenhum motivo para acreditar que a sociedade mudou repentinamente de opinião, passando a  ter  desinteresse pelo assunto.
 
De outra parte, é visível a mudança de comportamento das autoridades responsáveis pela investigação. As notícias emanadas das fontes oficiais dão conta de que as investigações correm em segredo de justiça, que Queiroz foi intimado várias  vezes a depor sem comparecer, que o Ministério Público vai esperar que Queiroz se recupere de um problema de saúde, que foi emitido ofício à Assembleia Legislativa do RJ verificando a possibilidade de Flavio Bolsonaro comparecer ao Ministério Público em data a combinar.
 
Antes buscavam as pessoas intimadas a depor, não importa como e onde estivessem; traziam-nas de uma forma ou outra. Agora esperam que os intimados se decidam a prestar as informações.
 
Antes as autoridades nos tinham convencido de que o afastamento do sigilo se justificava em nome do direito da sociedade acompanhar o andamento da investigação, pois se tratava de dinheiro público desviado. Inclusive  interceptações telefônicas sem relevância para a investigação (o que é ilegal) eram divulgadas para que a sociedade soubesse o que os investigados tratavam na intimidade de suas conversas.
 
É preciso lembrar que a sociedade tomou conhecimento da movimentação milionária de Queiroz porque alguém vazou o relatório do COAF. Não fosse o vazamento, é provável que ninguém a essa altura soubesse algo sobre o fantástico negócio a que se dedica Queiroz. Em relação a isso, as autoridades devem à sociedade alguns esclarecimentos:
 
– tendo o Ministério Público Federal tido  conhecimento do relatório COAF por ocasião da escolha dos alvos da Operação Furna da Onça, quais critérios foram utilizados para não incluir Flavio Bolsonaro entre os alvos? 
– não houvesse o vazamento do relatório COAF, significa que o caso Queiroz teria passado em branco, sem merecer  investigação?
– a exoneração, alguns dias antes da Operação Furna da Onça, de Queiroz e sua filha Natália, dos gabinetes de Flavio e Jair Bolsonaro, tem relação com o conhecimento do conteúdo desse relatório COAF? Que relação é essa se, naquele momento, o relatório era do conhecimento somente das autoridades responsáveis pela Operação Furna da Onça?
 
Segundo coluna de Bruno Boghossian, FSP de 28/12/18, Queiroz “disse que só falaria do assunto ao Ministério Público — embora tenha se esquivado de quatro intimações para depor.”
 
A sociedade brasileira não merece ser tratada como os personagens da peça teatral “Esperando Godot”. Não queremos ficar inertes,  num descampado desolado, esperando ingenuamente por alguém que não virá. Das autoridades esperamos que façam o que deve ser feito. Nos afigura como inaceitável essa dúvida de que as autoridades, seja por qual for a razão, tenham perdido o ânimo e a energia no combate à corrupção.
 
Wilson Luiz Müller – Auditor Fiscal da Receita Federal aposentado. COLETIVO DE IDEIAS (Grupo de pessoas que pensam de forma crítica a realidade brasileira)
 

 

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