5 de junho de 2026

Evangélicas bolsonaristas: “Maquiagem é coisa de meretriz”, por Esther Solano

A história dessas três mulheres, evangélicas fundamentalistas, eleitoras de Bolsonaro, é a história do Brasil que falhou nas políticas públicas
Foto: Miguel SCHINCARIOL/AFP

Por Esther Solano

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Na Carta Capital

Conto aqui as histórias de três mulheres. Seus rostos não vão aparecer no Jornal Nacional. Provavelmente, você nunca vai ouvir a voz delas. Três mulheres sobre as quais os acadêmicos não falarão nas suas aulas magnas. Brasileiras, pobres, cujas existências não se dão sob nenhum holofote, mas cujas palavras ensinam mais sobre o País do que muitas enciclopédias.

Esta foi uma das entrevistas mais complicadas que fiz com eleitores de Jair Bolsonaro. Três mulheres jovens, de 20 a 30 anos, todas mães, residentes em uma área periférica de Porto Alegre. A entrevista deu-se na casa de uma delas. Não tinha praticamente nada. Pobreza, tinha pobreza. As três frequentam a igreja Assembleia de Deus e o nível de fundamentalismo e intolerância religiosa delas era sufocante. Uma das primeiras afirmações que escutei durante a conversa foi: “Maquiagem é coisa de meretriz”. Para imaginarem o nível.

A entrevista durou quase quatro horas. Falamos de tudo, de família, de amor, de esperança, de desesperança, de medo, do passado, do futuro. Quando acabamos, eu tinha conseguido entender muito bem as raízes desse fundamentalismo religioso. Quando você conversa por tanto tempo com alguém olho no olho, com honestidade e realmente interessado em entender, você entende.

A primeira delas, chamemos de Raquel, foi abandonada pelo pai depois da morte da mãe no parto. Sem família, sua única chance de sobrevivência apareceu quando foi acolhida por uma missão evangélica. Literalmente, a igreja permitiu-lhe viver. Deu família, pai, mãe, educação, lar, futuro. No Brasil, 5,5 milhões de crianças não têm o nome do pai no registro de nascimento. Segundo a ONG Visão Mundial, 70 mil crianças vivem em situação de rua. Se o Brasil não fosse o que é, talvez Raquel não tivesse se transformado em uma evangélica fundamentalista.

A outra, digamos que se chame Elena, disse ter passado a vida de homem em homem, de rua em rua, de droga em droga, até que, segundo ela, uma igreja evangélica abriu-lhe as portas. “Encontrou Jesus” e, agora, anos depois, tem uma casa e um emprego dos quais se orgulha. Talvez, se o Brasil tivesse uma política de drogas decente e humana, Elena não seria hoje uma evangélica fundamentalista.

A última, Bárbara, tem o marido na cadeia. Por tráfico. No Presídio Central de Porto Alegre. O marido converteu-se dois anos atrás ao conhecer pastores que vão à cadeia para pregar o Evangelho. Depois da conversão, diz ela, ficou muito mais tranquila, pois o marido tornou-se menos violento, não bebe tanto, não se mete em problemas, tem um grupo que o apoia na cadeia e, portanto, a segurança dele está mais garantida num lugar onde ninguém garante a segurança de mais um negro pobre preso. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, o Brasil tem atualmente 800 mil detentos. Talvez, se o País não jogasse em masmorras sua população negra, Bárbara não teria se tornado uma evangélica fundamentalista.

Quando falamos da expansão e da importância sociopolítica das igrejas evangélicas no Brasil, em especial das pentecostais e neopentecostais, falamos de muitas coisas, de desrespeito ao Estado laico, de interferência religiosa na política, da Bancada da Bíblia, de intolerância com religiões de matriz africana, de Bolsonaro, de Marcelo Crivella, de Edir Macedo, de Silas Malafaia… Falamos destas três mulheres, da história de vida de cada uma, de um país que não deu nada a elas, de um Estado e de uma sociedade que falharam totalmente. Tudo se resume a uma frase de Raquel: “A igreja me deu tudo, eu darei tudo a ela”.

Se o Brasil não fosse o Brasil, talvez o Estado teria dado um futuro ou uma opção a Raquel. Talvez a sociedade não a teria esquecido, talvez ela não devesse tudo à igreja e talvez nunca fosse uma cristã que pensa que quem usa maquiagem é meretriz.

ESTHER SOLANO é doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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6 Comentários
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  1. AMORAIZA

    5 de outubro de 2019 1:16 pm

    Esther pode estar sendo simplista.
    O poder da religião está na necessidade de poder do homem sobre o homem e especialmente do homem sobre a mulher e tudo o que é feminino.
    Tudo o que significa vida e sobrevivência tem que estar à disposição do predador, eis o princípio das religiões ocidentais.
    O mais. é o poder do convencimento ou coersão, que caminha junto com o poder econômico que fabrica a desigualdade.
    Da desigualdade à carência, da carência ao desespero, do desespero ao redenção através do “salvador” apresentado, de preferência num ritual de sangue, sacrifício e injustiça, onde tudo o que o pobre e oprimido consegue deve ser atribuído a uma divindade com representação da terra, por “homens santos” que manterão a miséria, a desigualdade e o poder sobre as almas e armas.

    1. peregrino

      5 de outubro de 2019 3:02 pm

      disse tudo…
      é por isso que não movem uma palha para libertar as pessoas das suas dificuldades reais, materiais, de vida, principalmente, como no caso em tela, quando vindas de condições anormais de vida……………………….

      o que vem das condições anormais de vida não tem nada a ver com fé, é resposta a uma ilusão, uma falsa revelação, porque para a maioria dos casos não há impressões religiosas anteriores a serem mudadas, ou seja, vieram de condições anormais de vida e continuarão em condições anormais de vida, às vezes até pioradas pela obrigação de se pagar o dízimo

  2. Arthemisia

    5 de outubro de 2019 4:19 pm

    Sinto muito, mas esse tipo de fundamentalismo existe há muito tempo e também cresce no primeiro mundo. Não nego que essas mulheres tenham uma fé pragmática, mas isso não explica o bolsonarismo. O bolsonarismo, no seu auge, era branco, macho e rico, ou seja, o oposto dessas mulheres. Claro que o povão é a maior parte dos eleitores, mas quem puxou o bolsonarismo não foi o povão.
    Achei simplista a associação, e digo isso não para desmerecer a pesquisadora e seu trabalho, mas para alertar que as associações não são tão diretas. Digo também porque conheço o meio evangélico fundamentalista, do qual já fiz parte, e porque também sou pesquisadora.

  3. Moyses Nunes

    5 de outubro de 2019 8:40 pm

    Como referência a este texto, sugiro que se façam maiores levantamentos quanto ao “Exércíto de Deus”, tentado pelos líderes da igreja universal…
    Ainda que a “intenção” hipoteticamente não fosse militar (será?) quais seriam as verdadeiras intenções?
    Baseado no que temos visto quanto ao fundamentalismo de hoje, quais seriam as consequências se tivessem conseguido a legitimidade do movimento?!

  4. Suzir

    7 de outubro de 2019 6:40 pm

    Vc disponibilizará o conteúdo completo da entrevista?

  5. Maria do RJ

    10 de outubro de 2019 9:14 pm

    Chocante, muito penetrante esse texto, pra se compreender finalmente como o estado falhou e falha em todos os sentidos. Parabéns a mestre Esther Solano.

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