18 de junho de 2026

Economia para quem? O papel do economista em um mundo em transformação, por Feil & Feijó

A lição que precisamos recuperar é que a economia é uma ciência social. Ela não existe separada da política, da história e das instituições.
Varvara Stepanova

Crises múltiplas desafiam economistas a repensar o papel da economia, considerando política, história e instituições.
Teorias econômicas dominantes nem sempre se aplicam a países periféricos como o Brasil, exigindo análise contextual.
Economistas devem formular políticas para enfrentar desigualdades, crise climática e promover desenvolvimento sustentável.

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Economia para quem? O papel do economista em um mundo em transformação

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por Fernanda Feil e Carmem Feijó

Vivemos uma época marcada pela sobreposição de crises. A emergência climática, a degradação ambiental, o aumento das desigualdades, as tensões geopolíticas, a fragilização da democracia e a crise do multilateralismo compõem um cenário que desafia não apenas governos e instituições, mas também as formas tradicionais de pensar a economia.

Diante desse contexto, uma pergunta torna-se inevitável: qual deve ser o papel do economista?

Durante as últimas décadas predominou uma visão segundo a qual os mercados seriam capazes de coordenar a vida econômica de forma eficiente, enquanto o Estado deveria restringir sua atuação ao mínimo necessário. O planejamento foi tratado com desconfiança, a política industrial frequentemente descartada e a intervenção pública apresentada como obstáculo ao desenvolvimento.

Os resultados dessa experiência merecem ser avaliados. O que observamos é o aumento da concentração de renda e riqueza, a crescente financeirização das economias, a perda de capacidades produtivas, a precarização do trabalho e uma crise ambiental sem precedentes. Ao mesmo tempo, cresce a sensação de insegurança econômica e social, o que alimenta fenômenos políticos preocupantes em diversas partes do mundo.

Parte desse problema está relacionada à forma como a economia passou a ser concebida e ensinada.

A primeira lição que precisamos recuperar é que a economia é uma ciência social. Ela não existe separada da política, da história e das instituições. Toda decisão econômica envolve escolhas distributivas e beneficia determinados grupos mais do que outros. A ideia de uma economia puramente técnica, livre de interesses e conflitos, é mais uma construção ideológica do que uma descrição da realidade.

Da mesma forma, as teorias econômicas não surgem no vácuo. Elas refletem contextos históricos, disputas de poder e projetos de sociedade. Compreender economia significa entender não apenas os modelos, mas também os interesses e visões de mundo que eles ajudam a legitimar.

Isso não implica rejeitar a análise quantitativa. Estatística e econometria são instrumentos fundamentais para compreender fenômenos econômicos. O problema surge quando essas ferramentas passam a ser vistas como as únicas formas legítimas de produção de conhecimento. Dados são essenciais, mas não falam por si mesmos. Toda análise depende de hipóteses, interpretações e escolhas teóricas. A realidade é sempre mais complexa do que qualquer modelo é capaz de representar.

Essa reflexão torna-se ainda mais importante em países periféricos como o Brasil.

Grande parte das teorias econômicas dominantes foi formulada para explicar as economias desenvolvidas. No entanto, estruturas produtivas, instituições, sistemas financeiros e trajetórias históricas diferem profundamente entre países centrais e periféricos. Aplicar mecanicamente teorias concebidas para uma realidade distinta frequentemente produz diagnósticos equivocados e políticas inadequadas.

Celso Furtado já alertava que o subdesenvolvimento não é uma etapa anterior ao desenvolvimento, mas uma condição histórica específica que tende a se reproduzir. Compreender o Brasil exige levar a sério suas particularidades: a desigualdade estrutural, a heterogeneidade produtiva, a fragilidade tecnológica, as restrições externas e os desafios de financiamento do desenvolvimento.

Também exige reconhecer que os mercados não são fenômenos naturais. O capitalismo é uma construção histórica sustentada por instituições, normas, sistemas jurídicos e relações de poder. Da mesma forma, não existe economia capitalista sem moeda e crédito.

Por isso, o sistema financeiro ocupa uma posição central no desenvolvimento econômico. Ele não apenas intermedeia recursos, mas cria moeda, direciona investimentos e influencia a trajetória produtiva de um país. A discussão sobre o papel do BCB, dos bancos públicos e dos bancos de desenvolvimento não pode ser reduzida ao controle da inflação. Trata-se de discutir quem financia a transformação econômica e em que direção ela ocorre.

Essa questão torna-se ainda mais relevante diante da transição ecológica. A mudança climática não é apenas um problema ambiental. É também um desafio produtivo, tecnológico, industrial, financeiro e social. A construção de uma economia de baixo carbono exigirá novos investimentos, novas infraestruturas e novas formas de coordenação entre Estado, sistema financeiro e setor produtivo.

Nesse contexto, o papel do economista vai além da análises técnicas e reprodução de modelos abstratos. Economistas devem, através de métodos de análise científicos, desenvolver a sensibilidade de interpretar contextos históricos específicos para  formular políticas públicas, moldar instituições e definir prioridades coletivas. Suas ideias guiam decisões que afetam emprego, renda, investimento e qualidade de vida.

Por isso, talvez a principal tarefa dos economistas hoje seja recuperar a capacidade de imaginar alternativas. A maior vitória do pensamento neoliberal foi convencer parte da sociedade de que não existem alternativas, fora das obtidas da aplicação de modelos de equilíbrio. A realidade não reproduz trajetórias de equilíbrio. É resultado de escolhas de agentes públicas e privados, movidos pela percepção de oportunidades futuras. Portanto, trajetórias são construídas à medida em que alternativas são desenhadas. Alternativas   existem.

A economia continua sendo uma ferramenta poderosa para compreender o mundo. Sua relevância futura, porém, dependerá de sua capacidade de responder às questões que realmente importam: como reduzir desigualdades, enfrentar a emergência climática, gerar empregos de qualidade e construir uma trajetória de desenvolvimento socialmente inclusiva e ambientalmente sustentável.

Em última instância, o papel do economista não é apenas interpretar a realidade. É contribuir para transformá-la.

Fernanda Feil – Diretora do CeFiS – Centro de Finanças Sustentáveis e professora colaboradora no Programa de Pós-graduação em economia da UFF

Carmem Feijó- Diretora do CeFiS – Centro de Finanças Sustentáveis, professora titular na Universidade Federal Fluminense, pesquisadora CNPQ e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento – Finde/UFF

CeFiS – Centro de Finanças Sustentáveis – é um think tank voltado para finanças sustentáveis e políticas públicas, dedicado ao desenvolvimento de alternativas para reduzir a lacuna de financiamento da transição sustentável das economias em desenvolvimento.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino. O Grupo de Estudos de Economia e Política (GEEP) do IESP/UERJ é formado por cientistas políticos e economistas.

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