no Substack: Um cético esperançoso
Francisco Lopes
Como se explica o equilíbrio keynesiano, onde há desemprego persistente, com a Lei de Walras? A pergunta foi feita ao professor Francisco Lopes, logo numa das primeiras aulas do curso de macroeconomia da EPGE da FGV. A lei de Walras, formulada em 1874 por Leon Walras, afirma que se todos os mercados, menos um, estão em equilíbrio, também este último estará em equilíbrio. Como então conciliá-la com a principal tese da Teoria Geral de Keynes, que demonstra a possibilidade de um estado de equilíbrio com desemprego, que poderia se prolongar indefinidamente, sem a atuação da política fiscal para reanimar a economia?
Estávamos em 1973, o jovem Chico Lopes, recém-chegado de seu doutorado em Harvard, interrompe a sua exposição e, depois de alguns longos segundos, com os gestos pausados e a fala mansa que o caracterizavam, responde: — não sei, mas vou pensar. Na aula seguinte, expôs com elegância e simplicidade, como a distinção entre demanda potencial e demanda efetiva conciliava o persistente desemprego keynesiano com a Lei de Walras. Depois de ler Robert Clower e Axel Leijonhufvud, perguntei ao professor se ele tinha conhecimento dos conceitos de demanda nocional e demanda efetiva, quando formulou sua explicação. — Não, mas eu talvez tenha lido alguma coisa do Clower, me disse displicentemente, como se quisesse aplacar minha admiração. Conversamos muito durante o ano e meio do meu mestrado. Chico me fez ler o Tratado da Moeda de Keynes, que considerava tão ou mais importante do que a Teoria Geral.
Alguns anos depois estávamos de novo juntos na PUC do Rio, onde Francisco Lopes, com Dionísio Dias Carneiro e Rogério Werneck, depois de deixarem a EPGE, tinham criado o programa de pós-graduação e de pesquisa em economia. Com outros colegas da PUC, ajudamos a formular a teoria da inflação inercial, segundo a qual uma inflação elevada, mantida por muitos anos, se tornaria insensível aos remédios convencionais. Mesmo que fossem eliminadas suas causas originais, não cederia, continuaria movida pela inércia da indexação formal e informal.
Quando ficou claro que Tancredo Neves seria o novo Presidente da República, Chico sustentou que não poderíamos nos ater a criticar e explicar as razões do fracasso das políticas monetária do regime militar. Era preciso propor uma fórmula eficaz de combate à inflação inercial, porque seríamos inevitavelmente chamados para formular e implementar um programa de estabilização. Efetivamente fomos. Do Cruzado ao Real, o grupo de economistas da PUC do Rio, professores e ex-alunos, com cargos no Banco Central, na Fazenda e no Planejamento, teve papel central na longa luta, conceitual e política, para vencer a inflação e estabilizar a moeda.
Na transição do primeiro para o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, Chico Lopes foi incumbido de resolver o problema da sobrevalorização do Real. Um tema complexo que dividia a equipe econômica, com risco de por abaixo a estabilização ainda não consolidada. Diretor da área internacional, indicado para assumir a presidência do BC, Chico Lopes concebeu e se propôs a implementar um sofisticado sistema cambial de transição, ao qual deu o nome esdrúxulo de “banda diagonal endógena”. Por razões que nada tinham a ver com a proposta, o fim do câmbio fixo provocou uma turbulência que o derrubou da presidência do BC, antes mesmo que a sua posse fosse formalizada.
Com o olhar retroativo e tendo em vista os repetidos fracassos, em outros países, dos programas de estabilização com sobrevalorização cambial, fica claro que o fim do câmbio fixo salvou o Real. Quem pagou um preço altíssimo foi o próprio Chico. Atropelado e acusado, sem qualquer evidência, num processo kafkiano, que envolveu a quebra de instituições financeiras e acusações de informação privilegiada. Um senador lhe deu voz de prisão por exercer o direito de ficar calado, sua casa foi invadida pela polícia com um mandato de busca e apreensão.
Chico sempre foi fascinado pelas encruzilhadas da vida, momentos nos quais uma decisão, aparentemente irrelevante, transforma e define, para o bem ou para o mal, o futuro. Quando, no início dos anos 1980, fui convidado por Claudio Haddad, que ia para o BC, para substituí-lo como economista do Banco Garantia, Chico foi contra. Não entendia como eu poderia abandonar uma carreira acadêmica, segundo ele promissora, pelo mercado financeiro. Durante muito anos, inconformado, voltava ao tema. Acusava-me de querer repetir Keynes, missão impossível, ter sucesso como acadêmico, como financista e como homem público. Culpava o fato de que um artigo teórico que escrevi, ainda aluno de doutorado no MIT, não tivesse sido aceito pela American Economic Review. Foram as cicatrizes daquela rejeição que, segundo Chico, definiram minha opção pelo mercado financeiro. Não sei se ele estava certo, mas nunca me arrependi.
Quanto a ele, como relembrou Rogério Werneck, em artigo da semana passada na imprensa, foi comovente vê-lo declarar, no seminário, O Real na PUC: gênese do Plano Real, na PUC do Rio em abril de 2024, que jamais deveria ter deixado a vida acadêmica. Chico talvez tivesse sido mais feliz, nunca se sabe. Tendo passado por uma experiência parecida, entendo o trauma que mudou a vida de Chico Lopes e o fez se arrepender de ter trocado a universidade pela vida pública. A universidade teria tido muito a ganhar, mas para o país, a retirada de Francisco Lopes da vida pública, quase três década antes de sua morte, este mês aos 80 anos, foi uma perda injusta e desnecessária.
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