Freixo e Boulos vêm aí, por Gustavo Conde

Na política, nada nunca é definitivo - essa é uma de suas essências (e é algo bom, antes que alguém se queixe).

Freixo e Boulos vêm aí

por Gustavo Conde

A eleições no Rio e em São Paulo se tornaram um verdadeiro xadrez.

No Rio, com Eduardo Paes sendo atacado pelo judiciário bolsonarista, abriu-se um flanco do tamanho do Maracanã.

É isso que faz Marcelo Freixo voltar ao tabuleiro – e voltar de maneira apoteótica.

Na política, nada nunca é definitivo – essa é uma de suas essências (e é algo bom, antes que alguém se queixe).

Em São Paulo, por sua vez, Boulos surpreende.

Quem imaginaria uma chapa puro-sangue do Psol angariando 13% de intenção de voto no maior colégio eleitoral do país a dois meses das eleições?

É preciso olhar para este cenário com carinho – e com inteligência, se possível.

O primeiro comentário a se fazer é: o cansaço natural que a extrema-direita vai se impondo a si mesma tem como consequência um fenômeno quase rústico de tão evidente: a esquerda cresce.

Mas não qualquer esquerda.

O Psol e sobretudo Boulos atendem a essa demanda político-cognitiva: o eleitor quer algo novo e o “algo novo” neste momento específico é o dirigente nacional do MTST.

Os eleitores exaustos da mesmice e ávidos por um pouco de ‘doçura democrática’ começam a avançar em Boulos como formigas em direção ao açucareiro.

É, por assim, dizer, irresistível.

E, detalhe: Boulos cresce “apesar” do apoio sempre oportunista, rarefeito e auto bajulatório das “elites intelectuais” antipetistas – o apoio das “elites intelectuais” a Boulos seria um ônus, caso fosse significativo.

O que interessa, tecnicamente, é o deslocamento de intenção de voto real e popular que pode ser constatado na última pesquisa de opinião realizada pelo El País.

O que fazer com isso, peguntaria o militante entusiasmado ainda traumatizado pelo golpe e confuso com a péssima qualidade da nossa produção de informação e debate?

O primeiro movimento-clichê mais estúpido, reativo, espasmódico e impulsivo é dizer: “é preciso a união das esquerdas”.

A gente ri para não debulhar em prantos.

Para ainda não falar do Rio, eu prossigo codificando a realidade eleitoral paulista assim: se o PT apoiar Boulos agora, ele mata a candidatura Boulos. O amor dos intelectuais pela chapa Boulos-Erundina acabaria instantaneamente – ainda que isso fosse irrelevante.

Mas a tolerância das elites ‘jornalísticas’ e financeiras a Boulos como o elemento anti-PT cairia por terra.

Concluir-se-ia, portanto, que a candidatura de Jilmar Tatto é importante, inclusive, para manter viva a candidatura Boulos.

Mas a julgar pela ejaculação precoce ideológica de muitos analistas progressistas e pelas complexidades embutidas em todo o cenário nacional e judicial neste momento, seria pedir demais uma decisão inteligente dos dirigentes partidários progressistas.

A ansiedade destes faz parte do problema a ser enfrentado e é um dado posto, não um vetor de resolução e deliberação.

A burocracia partidária envelheceu demais e – pasmem – infantilizou-se a mesma proporção. O fígado tem sido o elemento protagonista nessas ocasiões, sobretudo porque dirigentes enraizados se levam muito a sério e acreditam nos pressupostos patrocinados das mídias corporativas e não corporativas.

O que fazer, perguntaria uma reencarnação zombeteira de Lênin?

Eu respondo: tumultuar.

A direita está tão perdida quanto a esquerda.

É mais simples os progressistas confundi-los do que propriamente pressioná-los com racionalidade gasta.

Aliás, é isso o que a direita tem feito conosco (que acreditamos ser democráticos): nos confundido.

E com extrema competência – até por não é necessária tanta competência assim para confundir alguém.

O único ente político capaz de entender essas complexidades técnicas e encarar as artimanhas múltiplas da sociedade brasileira é ‘ele’ – não preciso dizer o nome.

Quando ‘ele’ se debruçar sobre estas duas novas complexidades eleitorais (Boulos e Freixo), teremos um parecer digno de atenção.

Fora isso, estamos em uma areia movediça minada – sic: temos tudo para vencer duas eleições nos dois maiores colégios eleitorais do país na mesma proporção em que nossos desejos reprimidos anseiam por colocar tudo a perder e a cair nos vitimismos pós eleitorais, quase um vício nas trincheiras progressistas de turno.

O sistema morre de medo do PT (do povo). Alianças prévias e coordenações devem ser feitas com extrema prudência e atenção.

Em outras palavras: eleições não se decidem mais com decisões solitárias, impressionistas ou colegiadas em curraizinhos burocráticos. É preciso ciência. Técnica. Trabalho de análise de cenários aplicada, não de achismos calcados em movimentos-manada de redes e de mídias alternativas palanqueiras.

É preciso avaliar cenários com profissionais da comunicação, não com a velharia publicitária que ainda não desmamou do conforto que é trabalhar com políticos idealistas e narcisistas.

A chance de a esquerda vencer no Rio e em São Paulo é gigantesca e quase irresistível.

Convém não desperdiçar essa chance com as discussões emboloradas de “união das esquerdas”. Quem gosta da “união das esquerdas” é a direita – porque aí fica mais fácil criminalizá-las: criminaliza-se todas juntas.

Fica o recado (se é que me entenderam).

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5 comentários

  1. Se entendi desse texto, estão querendo me dizer que o PT está tão diabolizado que não convém fazer aliança com nenhum partido de esquerda, senão vai queimar todo mundo?

    Não gostei muito dessa sugestão!

  2. Gustavo Conde é o colunista mais arrogante e pretensioso da história da internet. “Se é que me entenderam”, “ejaculação precoce dos analistas”… bom, o cara é linguista e tem coluna no 247. Quer dar lição de moral para quem? O GGN podia pelo menos dar espaço para gente um pouco mais educada.

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