General Heleno, peça para sair ou seja exonerado!, por Eugênio de Aragão

Indagado sobre as rotinas preventivas sob sua responsabilidade, saiu-se com essa: “não tenho bola de cristal”! Isso é tudo que nossa inteligência tem a dizer? Segurança presidencial passou a ser exercício de adivinhação?

Foto El País

General Heleno, peça para sair ou seja exonerado!

por Eugênio José Guilherme de Aragão

Errar é humano. Quem erra deve tentar de novo, de novo e de novo, até acertar. Se o erro causou dano a outrem, precisa o errante tirar as consequências de seu ato – isso se chama responsabilidade. Erramos, mas não podemos fugir de nossas responsabilidades, por vivermos todos na coletividade. O coletivo nos impõe a solidariedade inerente à comunidade de destino.

O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) é responsável pela incolumidade do Presidente da República e do próprio Estado, quando se trata de ameaças políticas a sua existência ou a sua funcionalidade. Para cumprir com essa grave tarefa, compete ao GSI organizar e manter os serviços de inteligência é contrainteligência do governo, articulando-se com órgãos setoriais da mesma natureza, sejam da polícia ou das Forças Armadas.

Inteligência é essencialmente uma atividade de coleta (é não “colheita”, ouviu, Moro?) de dados capazes de produzirem informações. Essas informações são fonte de relatórios de risco e instruem ações preventivas ou repressivas. Diferentemente da investigação que mira para o passado, para atos e fatos consumados, a inteligência enxerga para o futuro, tentando compor cenários possíveis a partir da evolução do contexto atual.

Quem coleta dados são agentes que normalmente trabalham encobertos e, por vezes, até conspirativamente, para evitar que, constatado o interesse governamental por esses dados, atores de risco venham a eliminá-los. A eliminação de dados que podem compor informações de inteligência ou as ações que dificultam o acesso a esses dados chama-se contra-inteligência. É importante que os atores de risco não saibam a extensão do conhecimento inteligente do governo, para não impedirem ações preventivas ou repressivas.

Leia também:  Porque existem terraplanistas, por Andre Motta Araujo

Basicamente, isso tudo está hoje sob o comando do General Augusto Heleno Ribeiro Pereira, aka General Heleno, o Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional. Notabilizou-se por arroubos políticos grosseiros, como o ataque ao Presidente Lula numa reunião de trabalho em que, visivelmente fora de si, esmurrou a mesa a exigir que seu suposto desafeto tomasse prisão perpétua.

O mesmo Heleno foi comandante do pilar militar da MINUSTAH, a missão das Nações Unidas para estabilização do Haiti. Nessa condição, conduziu suas tropas ao ataque à Cité du Soleil, bairro de extrema pobreza em Porto Príncipe, promovendo verdadeiro massacre contra a população civil. Nunca foi oficialmente cobrado por isso. Não, voltou ao Brasil e tornou-se Comandante da Amazônia, quando fez uma série de declarações politicamente motivadas, voltando-se contra a proteção das populações indígenas.

Mas, isso não foi tudo. Foi para a reserva e esteve à frente, como adjunto do Sr. Nuzman, do Comitê Olímpico Brasileiro, o que dispensa comentários sobre as lambanças na gestão de recursos públicos ali constatadas.

O General Heleno está longe de sobressair em competência de governação. É um fracasso profissional, ainda que não veja assim as coisas. Ignora seus erros e não assume responsabilidade por nada. Assim é difícil ele se corrigir.

Agora, como chefe do GSI, falhou na segurança da comitiva presidencial, permitindo – espera-se que desavisadamente – que um taifeiro carregasse consigo, no avião da Presidência, 39 quilos de cocaína. A muamba foi descoberta por simples raio-x pelas autoridades espanholas, quando de uma escala técnica em Sevilha. Vexame maior para a imagem do país no mundo é difícil. Doravante aviões presidenciais brasileiros talvez tenham que passar por humilhante rotina de controle no exterior, pouco adiantando os salamaleques da diplomacia terraplanista.

Leia também:  Para pensar sobre o futuro, depois do senhor Guedes e seu capitão, por José Luís Fiori

Vejamos bem: não se trata do tráfico promovido num avião de carreira, que partisse de um aeroporto frequentado por milhares de passageiros controlados por método de amostragem. Não, o embarque no avião da comitiva presidencial se deu na Base Aérea de Brasília, em pleno território militar, com número limitadíssimo de acessos à estação de passageiros. Tudo perfeitamente controlável e escrutinizável. Menos para o General Heleno.

Indagado sobre as rotinas preventivas sob sua responsabilidade, saiu-se com essa: “não tenho bola de cristal”! Isso é tudo que nossa inteligência tem a dizer? Segurança presidencial passou a ser exercício de adivinhação?

Não compartilho opinião com aqueles que apontam uma conspiração no tráfico de cocaína por meio do avião oficial da mais alta autoridade do país. Ainda que Jair Bolsonaro seja um grosseiro incontido, truculento e autoritário até a medula, isso não o transforma num narcotraficante. Mas, tanto não significa que não tenha nada a ver com isso. Exigir punição para o taifeiro apenas não resolve o imbróglio.

Bolsonaro não pode lavar as mãos diante desse escândalo internacional provocado pelo desgoverno de seu governo. A si são constitucionalmente atribuídas a política externa e as relações com estados estrangeiros. A imagem de incompetente, ou pior, de conivente com o crime praticado no seio de sua comitiva a um encontro estratégico do G-20, carimbada no Brasil foi provocada por inépcia de ministro seu, de sua livre escolha. Há, no mínimo, culpa in eligendo do Presidente da República. É o total descalabro.

Leia também:  A política externa bolsonarista, o multilateralismo e a sociedade internacional, por Cesar Calejon

Errar é humano, mas assumir responsabilidade pelo erro é sinal de caráter. Alguns têm, outros não têm. Pescam em área de proteção ambiental e põem a culpa no fiscal do Ibama. Só que desta vez as consequências são desastrosas para o Brasil e sua posição no concerto das Nações. Só há uma saída: General Heleno peça para sair ou seja exonerado por aquele que tem culpa por sua indicação ao cargo, para o qual demonstrou não ter qualquer vocação!

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

18 comentários

  1. É justamente por não ter bola de cristal que se deve ter decência. Segurança Institucional tem a única finalidade de cuidar da presidência e se permite que um componente da comitiva presidencial, com rumo ao principal encontro mundial com chefes de estados das grandes nações e VERGONHOSAMENTE, há o “descuido” de permitir o TRÁFICO DE DROGAS DE GRANDE PORTE.

    Olha a definição do órgão e vejam se o general que não é bidu, mas recebe dinheiro público para cumprir a função:
    O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI/PR) é o órgão do governo brasileiro responsável pela assistência direta e imediata ao Presidente da República no assessoramento pessoal em assuntos militares e de segurança.

  2. Ontem, ao comentarmos em família sobre a bola de cristal de Heleno, minha filha saiu-se com essa, ‘o Brasil virou a quinta-série. Não sei quem foi, profe, pergunta pro Pedrinho’.

    4
    1
  3. como diria o barão de itararé, há algo além dos avioes de carreira…
    pode ser um avião presidencial…
    já apelidado de aeroína, palavra criada
    pelo leandro fortes,acho….

    3
    1
  4. Quero fazer uma correção: há dias confundi esse “Helena de Tróia” com outro general de basófia, falastrão, o Villas-Boas. O incompetente que não deu conta do Comando Militar da Amazônia e tentou esconder a sua incapacidade de cumprir missão culpando a falta de recursos foi esse Heleno, não o seu colega falastrão. O erro da Dilma foi não tê-lo enquadrado no RDE e deixado claro para os brasileiros que se houvesse fartura de recursos no Brasil não precisaria de um especialista para comandar determinadas áreas, até o Zé da Padaria daria conta do recado. O problema do Brasil não é a corrupção, que existe em todo o mundo e só o que precisa é ser enfrentada; o X do problema nacional está na incompetência e na ineficiência que grassam no país e que não são exclusividade apenas de agentes públicos e políticos (como dão prova esses generais de carreiras medíocres, embora incensados pela mídia reverente), mas também de agentes do setor privado. São a nossa incompetência e ineficiência em todas as áreas – com raríssimas e honrosas exceções como a de um Miguel Nicolelis – as razões do nosso atraso atávico.

    3
    1
  5. A Nova Estatal Brasileira. “AEROPÓBRAS “. Algumas Diretorias já foram solicitadas por Aécio e Perrella. Entregas Ponto a Ponto. ‘Just in time’. Não haverá trânsito ou congestionamentos que atrapalhem. Grande frota estatal de Helicópteros e Aviões !!!!! Parece que o atual Governo já pensa em Privatização. O Tucanato de João Dória fala que em SP já existe um Grande Grupo Organizado, parceiro de décadas das Políticas de Segurança Pública Paulista, com Milhões de Reais bem lavados, que interessam no Negócio. Dinheiro à Vista. P rivatiza C onforme C ombinado. É o País da Surrealidade e da Bipolaridade !!! Se não existisse, seria preciso inventar. 40 anos de Redemocracia.

    1
    1
  6. Como é possível imaginar que a instituição das forças armadas assista passivamente, sem se manifestar, com a degradação que o exército está sofrendo, desde que retornou ao contaminado mundo político?
    Será que não percebe que a contaminação está respingando nas outras forças militares?
    Depois de experimentar uma espécie de depuração e recuperação, em relação aos horrores praticados durante os 21 anos da ditadura militar no Brasil, as recaídas de autoritarismo, imprudência, arrogância e intimação volta a ganhar corpo.
    O pavio curto de alguns desequilibrados militares destoa com o dificil trabalho de recuperação da imagem que estava sendo condizido pela maioria do alto comando militar.
    Se houvesse a competência e a extrema atenção que a segurança presidencial requer, além ao próprio exército a aeronáutica não precisaria passar pelo constrangimento de assistir a divulgação do nome de um de seus militares associado ao tráfico de drogas.
    Depois do escândalo dos contratos suspeitos na olimpíada e do fiasco na intervenção no Rio de Janeiro entendo que as forças armadas deveria criar um grupo de excelência para avaliar com imparcialidade, transparência e sem interferência todas as missões que envolva controle de segurança e participação aos chamados governamentais.

  7. Militar que vai para a reserva precisa continuar sendo nominado pela patente? Entendo pior do que chamar alguém de vossa excelência. Reservou-se, aposentou-se, acabou a titularidade. Pois, então, o Heleno Augusto, que tanto gosta de diatribes e outros excessos (maiores e menores), deverá abrir licitação para a compra de “bolas de cristal” para o gabinete institucional de informação, ainda, edital concurseiro (sim, sei que o Bolso afirmou que tão cedo não haverá concursos) para magos, fadas, ciganas, orixás, santidades e apastadosvangélicos, pois, alguém há de operar as bolinhas (bolitas de cristal não pode). Mas, com certeza, sua (dele) demissão seria bem vinda ao país, mesmo que, ainda, de merrecas (como os toffolóides criadores de pa(c)tos com o que deixaria de julgar atos dos demais despudores. Haja saco.

  8. Essa barbaridade de “colheita” (de provas, dados etc.), infelizmente, já se espraiou. Não é somente o Marreco de Maringá e a escumalha do Paraná (e “seu vocabulário jacu”, como li alhures sobre a inconfundível autoria dos diálogos revelados pelo TIB) que comete insistentemente esse absurdo. Dia desses, num documento de uma associação de juízes, apareceu a tal “colheita”. Nesse crime contra o vernáculo, o Camicia Nera do Oeste também não está só.

    2
    1
  9. Eugênio, sempre na mosca.
    Para além destes comentários, alguém explicou sobre as toneladas de maconha em caminhões do exército?

  10. Coleta, colheita, coleção e colação.

    Numa audiência contra o Lula o $érgio Moro disparou:

    “Eu queria deixar claro que, em que pesem alegações nesse sentido, da minha parte não tenho nenhuma desavença pessoal contra o senhor ex-presidente. Certo?

    O que vai determinar o resultado desse processo no final são AS PROVAS QUE VÃO SER COLECIONADAS e a lei. Também vamos deixar claro que quem faz a acusação nesse processo é o Ministério Público, e não o juiz. Eu estou aqui para ouvi-lo e para proferir um julgamento ao final do processo.”

    $érgio Moro cometeu ato falho ao afirmar: Vamos deixar claro que quem faz a acusação nesse processo é o Ministério Público, e não o juiz.

    “Há evidências bem claras, de experimentos, de que o que você está pensando secretamente pode emergir por meio da fala de forma não intencional”.

    Ato falho, lapso freudiano ou parapráxis, ou ainda a expressão latina lapsus linguae, é um erro na fala, na memória, na escrita ou numa ação física que seria supostamente causada pelo inconsciente. Através do ato falho o desejo do inconsciente é realizado. Por isto pode ser inferido que nenhum gesto, pensamento ou palavra acontece acidentalmente. Os atos falhos são diferentes do erro comum.

    Freud evidenciou que o ato falho era como sintoma, constituição de compromisso entre o intuito consciente da pessoa e o reprimido.

    Não se reprima, $érgio Moro. Continue colecionando provas.

    1
    1
  11. Sinceramente, acho esquisito criticar o que não existe. No Brasil não existe governo e menos ainda algum tipo de politica, seja ambiental, educacional, etc, o que observo é um monte de fanfarrão promovendo um caos e uma rede de esgotos, dos quais não nos livraremos tao cedo mesmo que estes incompetentes saiam amanhã.
    Abaixo um exemplo de como tratam questões mundiais importantes para as futuras gerações.

    https://www.jb.com.br/pais/2019/06/1007017–vao-procurar-sua-turma—diz-heleno-sobre-criticas-de-europeus-a-politica-ambiental-de-bolsonaro.html

  12. Será o fim de uma “carreira brilhante”?
    Como diria o bardo da favela:
    “Já abri meu tabuleiro/vendo pra qualquer pessoa/tem da preta, tem da branca/quem prova não enjoa porque…é cocada boa não é…./

  13. Só tenho certeza do seguinte…
    pra ser embarcada numa base aérea militar o dono da muamba não pode ser qualquer um não, tem que ser casca grossa

    os espanhóis vão descobrir

  14. Vou fazer um comentário bem claro e preciso, aos que criticam o General Heleno, pelo o episódio da droga no avião da FAB, não conhece de perto como funciona o mundo do narcotráfico e do que ele é capaz… se os estados unidos não consegue neutralizar o narcotráfico, imagine o Brasil.

  15. Boa tarde.
    Fui ver na internet o perfil do Sr Eugênio. Pois bem. Já imaginava mesmo qual é o meio político dele.
    Quanto ao seu texto discorrendo sobre o Gen Heleno, não estranhei.
    Só sei que escrever é muito fácil, basta ter uma boa escolaridade. Escrever não cansa. Não estressa. Faz bem pro nosso ego. Agora emprestar seu rosto para receber tapas, seu físico para fazer as coisas se moverem, entregar-se em missões difíceis como o Gen Heleno sempre fez é que, talvez, este ilustre colunista colaborador do desgoverno passado não deve ter experimentado. Estou aqui escrevendo. Muito fácil posso ficar horas aqui. Mas tenho coisa mais apropriada para fazer. Quem sabe se pedir para alguém escrever para mim e só assinar depois a autoria. Dá no mesmo.

  16. Caro Eugênio Aragão,parabéns por escrever o que os brasileiros lúcidos pensam e gostariam de cantar aos quatro cantos do paîs!
    Até quando nosso Brasil de todas as cores terá que se submeter à incompetência de despreparados que desejam possuir e governar com bolas de cristal?

  17. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome