Ha-Joon Chang e o recado ao Brasil: sem indústria, não há desenvolvimento
Haroldo da Silva
Sábado, 23 de maio de 2026, enquanto ocorria a “Virada Cutural”, na Cidade de São Paulo, participei de um encontro intelectualmente poderoso com o economista Ha-Joon Chang e o professor Ladislau Dowbor, em um debate sobre desenvolvimento, industrialização e os desafios das economias emergentes, realizado pela Universidade do Livro. Temos que aprender sempre!
A base da exposição de Chang foi seu clássico Chutando a Escada, obra fundamental para compreender como os países hoje desenvolvidos utilizaram políticas industriais, proteção estratégica e forte atuação estatal antes de passarem a defender o livre mercado irrestrito para o restante do mundo. Se não acredita nisso, veja os exemplos dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
Ele disse que não teria a pretensão de ensinar aos brasileiros o que fazer, mas sim, trazer algumas provocações sobre o que tem estudado ao longo desses muitos anos de pesquisa. Uma das mensagens centrais da palestra apareceu logo em seus slides:
“There are many different paths towards developing productive capabilities.” ou: “Há muitos caminhos diferentes para o desenvolvimento de capacidades produtivas.”
A frase resume um dos pontos mais importantes de sua abordagem: não existe um único modelo universal de desenvolvimento. Países ricos utilizaram estratégias muito distintas. Alguns recorreram ao protecionismo intenso; outros à promoção de exportações; alguns utilizaram empresas estatais, enquanto outros fortaleceram grandes conglomerados privados ou pequenas e médias empresas. Em comum, todos buscaram construir capacidade produtiva e densidade industrial.
Chang também destacou algo essencial para o debate brasileiro atual: política industrial não é exceção histórica, mas regra histórica. Entre os instrumentos apresentados por ele estavam:
“Government procurement policies.” ou “Políticas de compras governamentais.”
“State-run venture capital.” ou “Capital de risco administrado pelo Estado.”
“Public-private partnerships to provide infrastructure, R&D, export marketing and other productive inputs.” ou “Parcerias público-privadas para fornecer infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento (P&D), promoção de exportações e outros insumos produtivos.”
Ou seja, compras públicas, crédito, inovação, coordenação estatal e planejamento estratégico não são “desvios” do capitalismo moderno. São parte constitutiva das trajetórias de desenvolvimento das economias centrais.
Ao longo da palestra, Ha-Joon Chang também recuperou a contribuição de Friedrich List, um dos mais importantes formuladores da ideia de proteção à indústria nascente. Autor da obra Sistema Nacional de Economia Política, List criticava a defesa irrestrita do livre comércio para países ainda em processo de industrialização.
Sua tese era direta: nações hoje desenvolvidas utilizaram tarifas, subsídios, planejamento estatal e proteção estratégica para construir suas capacidades produtivas e, apenas depois de consolidadas, passaram a defender o liberalismo econômico como regra universal.
Essa reflexão dialoga profundamente com a própria tese de Chutando a Escada, segundo a qual os países centrais frequentemente “chutam a escada” utilizada em seu próprio desenvolvimento, dificultando que economias periféricas sigam caminhos semelhantes de industrialização e fortalecimento produtivo.
Outro momento marcante foi quando discutiu a tese de que a China teria tornado impossível a industrialização de outros países. Chang respondeu provocativamente:
“China’s dominance in manufacturing is said to make it impossible for other countries to develop industries.” ou “Diz-se que a dominância da China na manufatura torna impossível que outros países desenvolvam suas próprias indústrias.”
Mas logo contrapôs essa visão lembrando que a própria história econômica mostra que grandes potências sempre concentraram vantagens produtivas em determinados momentos. O ponto central não seria desistir da industrialização, mas construir estratégias nacionais capazes de ampliar produtividade, inovação e soberania tecnológica.
Em uma das passagens mais fortes da apresentação, criticou a ideia de “economia pós-industrial”:
“A lot of recent productivity growth in service sectors like finance and retail has been illusory.” ou “Grande parte do crescimento recente da produtividade em setores de serviços, como finanças e varejo, tem sido ilusório.”
A observação dialoga diretamente com o processo de financeirização e desindustrialização observado em diversas economias ocidentais. Chang argumentou que parte relevante desse aumento de produtividade em serviços ocorreu às custas da precarização do trabalho, da redução da qualidade dos serviços e da transferência de custos para consumidores e trabalhadores.
Também chamou atenção sua análise sobre os Estados Unidos. Em um slide impactante, mostrou a perda relativa da participação industrial norte-americana frente à China:
“1950: produced around 60% of world’s manufacturing.” ou “Em 1950, produzia cerca de 60% da manufatura mundial.”
“Today: produces around 16-7%, against around 30% of China.” ou “Hoje, produz cerca de 16% a 17%, contra aproximadamente 30% da China.” [E faz um enorme estrago em alguns segmentos].
A mensagem implícita era clara: nenhuma potência mantém liderança tecnológica, militar ou econômica sem base manufatureira robusta. Outro trecho particularmente relevante foi sua defesa de que industrialização e sustentabilidade não são incompatíveis:
“Renewable energy is now so cheap that industrialisation does not have to mean greater carbon emission.” ou “A energia renovável é hoje tão barata que a industrialização não precisa mais significar maiores emissões de carbono.” [A neoindustrailização, como proposta atualmente, está alinhada com essa premissa].
Essa afirmação dialoga profundamente com os desafios contemporâneos do Brasil. A transição ecológica não precisa significar desindustrialização periférica. Pelo contrário: pode representar oportunidade histórica para reconstrução de cadeias produtivas sofisticadas ligadas à energia limpa, biotecnologia, minerais críticos, economia circular e inovação industrial.
Chang também trouxe uma reflexão muito importante sobre o que chamou de “mental cage”:
“Government officials and other elites in developing countries have ‘internalised’ the neo-liberal norms.” ou “Funcionários do governo e outras elites dos países em desenvolvimento ‘internalizaram’ as normas neoliberais.”
[Faço uma crítica contundente a isso em meu livro: A ilusão neoliberal da indústria, 2024].
Ou seja, mesmo quando existe espaço para políticas industriais, muitos países periféricos continuam presos a paradigmas neoliberais internalizados ao longo das últimas décadas.
Nesse ponto, a intervenção de Ladislau Dowbor também foi extremamente relevante ao enfatizar que desenvolvimento não é apenas crescimento abstrato do PIB, mas construção de capacidades nacionais, melhoria das condições de vida e fortalecimento da capacidade de coordenação social e econômica dos Estados.
O encerramento foi simbólico. Chang projetou uma imagem do musical Hamilton, remetendo diretamente a Alexander Hamilton, primeiro secretário do Tesouro dos Estados Unidos e um dos grandes formuladores históricos da proteção à indústria nascente.
Dica: o musical está disponível no Disney+
A mensagem final parece inequívoca.
Os países hoje ricos não se desenvolveram abandonando sua indústria. Desenvolveram-se justamente porque construíram, protegeram e sofisticaram suas estruturas produtivas.
Para países como o Brasil, diante da reorganização geopolítica, da disputa tecnológica global e da transição energética, não existe caminho consistente para soberania, produtividade elevada, empregos qualificados e redução das desigualdades sem fortalecimento industrial.
Abandonar a indústria não é modernização.
É dependência.
Haroldo da Silva, PhD – Presidente do CORECON-SP | Top Voice | Autor do Livro A Ilusão Neoliberal da Indústria
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