Igreja Católica e Mercado Religioso. Quem ganha esta disputa?, por Marcos Vinicius de Freitas Reis

No pontificado do Papa João Paulo II, incentivou-se a expansão mundial de movimentos criados por leigos que tivessem alinhamento com a hierarquia católica, com o intuito de trazer novos fiéis para o catolicismo.

Religião e Politica em Debate

Igreja Católica e Mercado Religioso. Quem ganha esta disputa?

por Marcos Vinicius de Freitas Reis

A cada ano que passa, mais denominações religiosas se fazem presentes no interior da sociedade com o objetivo da expansão de suas atividades e da conquista de novos membros. Isto é, a cada década, percebemos a perda gradativa da supremacia católica e o surgimento da pluralidade religiosa, com destaque para o crescimento dos pentecostais e sem religião.

De acordo com Oro (2003), as autoridades católicas, preocupadas com a perda de milhares de adeptos para outros credos religiosos, a partir do final do século XX, iniciaram uma série de pesquisas, elaboração de seminários, debates e reuniões entre os bispos para terem um maior entendimento do fenômeno da diversidade religiosa, das razões que levaram à perda de fiéis e para traçar metas para reter a saída de outras pessoas da Igreja Católica. A partir desses estudos, três estratégias foram adotadas: o retorno à devoção, o incentivo ao uso dos meios de comunicação e o apoio à Renovação Carismática Católica.

O retorno às devoções implica incentivo às venerações aos santos e a Maria, romarias, festas populares, novenas, rituais de bênçãos de objetos, peregrinações, turismo religioso, terços em famílias, procissões, missas campais realizadas em ginásios e estádios, realização de projetos sociais, valorização de símbolos e ampliação da participação dos leigos nas atividades católicas. Houve renovação dos rituais católicos, as liturgias tornaram-se mais dinâmicas – com a inserção de cânticos animados de diversos ritmos e a adoção de uma linguagem mais simples e objetiva pelo episcopado.

A investida aos meios de comunicação tem sido muito corriqueira no dia a dia das paróquias católicas. No final da década de 1990, surgem emissoras de sintonia aberta para todos os Estados do país, a exemplo da TV Canção Nova e TV Século XXI (ligadas ao movimento carismático), Rede Vida de Televisão e TV Aparecida, além de outras emissoras de alcance regional. Centenas de emissoras de rádio AM e FM foram criadas e emissoras seculares abriram espaço em sua programação para programas católicos. Cabe destacar o programa diário do Padre Marcelo Rossi, veiculado pela Rádio Globo e líder de audiência em várias localidades do país. Além disso, surgem jornais, revistas, sites, editoras e gravadoras. Segundo Souza (2005), muitas dioceses investiram em marketing e atividades empresariais em suas regiões com o intuito de aumentarem suas receitas, garantir presença católica nos diversos espaços midiáticos e na conquista de novos adeptos.

Muitos bispos apoiaram as atividades da Renovação Carismática Católica, pois viam neste movimento o desenvolvimento de ações que poderiam atrair novamente as pessoas para as atividades Católicas. No entanto, muitos clérigos progressistas e conservadores se posicionaram contra os carismáticos, argumentando que estes se aproximavam da doutrina dos protestantes e poderiam criar uma nova Igreja. Como resultado desse embate, em 1994, foi lançado, pela CNBB, um documento que regulamentou a ação da RCC e de todas as dioceses do Brasil.

Paralelamente a essa reação católica frente à expansão dos outros grupos religiosos, ocorriam, no interior da Igreja Católica, mudanças significativas que se acentuaram após o fim do Concílio Vaticano II (1962-1965). Na década de 1960, a Igreja Católica enfrentava várias dificuldades com a expansão do secularismo, do comunismo, do modernismo, do ateísmo e com o crescimento de outras instituições religiosas. Nesse contexto de fortes transformações nos valores e cultura política das sociedades, a Igreja Católica convocou o concilio e promoveu algumas reformas. Dentre as transformações ocorridas, temos a valorização da atuação do leigo nas atividades da Igreja e a reforma litúrgica. O clero passa a celebrar as missas na língua do país no qual estão vivendo (não mais em latim) e de frente para as pessoas (não mais de costas). Incentivou- se a prática do ecumenismo, a preocupação com os direitos humanos, os projetos sociais voltados para os pobres (visando a diminuir a desigualdade social), a preocupação com a questão ecológica, a globalização, a inserção nos meios de comunicação, a defesa da tradição católica, dentre outros pontos.

A partir das decisões tomadas no Concílio Vaticano II, várias tendências católicas fundamentaram as suas ações a partir desses pressupostos. Contudo, duas se destacam no interior da Igreja Católica: os conservadores e progressistas. Conforme ressalta Sanchis e Rubens (1998) os progressistas conseguem expressividade na Igreja Católica nas décadas de  1960 e 1970, nos pontificados dos Papas: João XXIII (1958-1963), Paulo VI (1963-1978) e João Paulo I (1978), e são caracterizados pela “opção preferencial pelos pobres”. Os militantes católicos progressistas estão preocupados com a situação social vivenciada pelas camadas pobres do mundo. Influenciados por pressupostos marxistas, propõem ações de transformação social, reinterpretação das passagens bíblicas e reformas estruturais no catolicismo romano. O grande expoente da ala progressista católica foi a Teologia da Libertação e, no Brasil, as Comunidades Eclesiais de Base.

Com a hegemonia da ala progressista sobre os clérigos católicos em 1978, a ala conservadora consegue eleger o Papa João Paulo II (1978-2005). O pontificado desta autoridade foi marcado pela restauração da ala conservadora na direção da Igreja. Uma dessas medidas foi a nomeação do então cardeal Joseph Ratzinger (atual Papa Bento XVI) para presidir a Congregação da Doutrina da Fé (setor que regula assuntos relacionados à doutrina católica), ex-tribunal do Santo Ofício que foi responsável pela Inquisição. Uma das ações dessa Congregação foi a elaboração de documentos contrários à atuação da Teologia da Libertação, culminando no silenciamento de Leonardo Boff, uma das maiores lideranças dos teólogos da libertação. Além disso, as visitas do Papa aos países culminaram com a restauração da unidade da Igreja e contribuíram para o fim dos regimes comunistas. Entre as várias ações, houve a exposição da imagem do Papa na mídia, a ordenação de bispos da ala conservadora, a reforma nos seminários, a redivisão das dioceses. Outro fator fundamental foi o fortalecimento do poder da Cúria Romana acima das confederações nacionais e regionais dos bispos, redundando no reforço da tradição da igreja

No pontificado do Papa João Paulo II, incentivou-se a expansão mundial de movimentos criados por leigos que tivessem alinhamento com a hierarquia católica, com o intuito de trazer novos fiéis para o catolicismo. Dito de outra forma, esses movimentos contariam com maior participação dos leigos nas atividades católicas com a supervisão do Clero. Um exemplo desses movimentos é a Renovação Carismática Católica.

Neste contexto de transformações no interior da Igreja Católica e da sociedade brasileira no final da década de 1980, perante toda a concorrência religiosa na sociedade brasileira, o catolicismo investiu na Renovação Carismática Católica. Este movimento católico pode ser pensando em uma dupla reação: uma delas, para fora do catolicismo, isto é, tendo como principal adversário os evangélicos pentecostais, a RCC seria uma maneira de minar o crescimento destes religiosos e, simultaneamente, evitaria a perda maior de católicos; a outra reação seria para dentro da própria Igreja, tentando enfraquecer os adeptos de posições de esquerda católica, a exemplo da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base.

Marcos Vinicius de Freitas Reis – Professor da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) do Curso de Graduação em Relações Internacionais. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Docente do Curso de Pós-Graduação em História Social pela UNIFAP, Docente do Curso de Pós-Graduação em Ensino de História (PROFHISTORIA). Membro do Observatório da Democracia da Universidade Federal do Amapá. Docente do Curso de Especialização em Estudos Culturais e Politicas Públicas da UNIFAP.  Líder do Centro de Estudos de Religião, Religiosidades e Políticas Públicas (CEPRES-UNIFAP/CNPq). Interesse em temas de pesquisa: Religião e Politicas Públicas. E-mail para contato: [email protected]

 

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