Interferindo nas eleições brasileiras, por Jota Barreto

Por Jota Barreto

O governo dos Estados Unidos teme interferências nas eleições brasileiras de 2018. Nada melhor para interferir indevidamente numa eleição do que denunciar outras interferências alheias.

São tempos maravilhosos os que vivemos. Poder ver o Império no começo de seus estertores, atacando tudo o que se move, tudo que está vivo.

Um recente artigo na página do Instituto de Estudos Estratégicos do Exercito dos Estados Unidos sugere que poderá haver interferências dos russos – a maldade russa como na eleição estadunidense, e interferências do crime organizado, especialmente no Rio de Janeiro.

Segundo o autor do artigo, José de Arimatéia da Cruz, citando outro artigo de sua autoria e de colaboradores, “organizações criminosas estão ativamente envolvidas no processo eleitoral do Brasil, que ocorrerá em outubro de 2018, numa tentativa de se colocar em posições estratégicas ou para eleger candidatos favoráveis”. 

 

Arimatéia da Cruz e os outros autores desse artigo se baseiam nas opiniões de Walter Maierovitchdiz que disse em entrevista a BBC em janeiro passado que “o fortalecimento da maior facção brasileira o Primeiro Comando da Capital (PCC), e o acirramento de conflitos entre gangues nos Estados podem impactar as eleições deste ano”, em declarações recentes de Gilmar Mendes e de Torquato Jardim, em entrevista de Marcinho VP que admite ter contribuído para a campanha municipal em 1996 de Sergio Cabral no Rio de Janeiro, a quem chama de “maior criminoso do brasil”  e que afirma que “o trafico de drogas não acaba porque ele financia campanhas políticas no Brasil”.

Em resumo são especulações sem qualquer base fatual que podem Ter uma base real mas da forma em que são apresentadas parecem funcionar mais como uma forma de pressão politica e podem eventualmente, se houver necessidade, basear campanha para adiamento das eleições. Novamente as “fakenews” têm mil utilidades.

Será que os russos se intrometerão nas eleições latino-americanas?

Mas as ameaças de interferência nas eleições brasileiras não param por aí. Segundo Arimatéia da Cruz, em nota ao pé da página de seu artigo, a recente divulgação de documentos sobre a pretensa interferência russa nas eleições dos EUA em 2016 “criou algumas preocupações entre os oficiais militares da América latina, de acordo com conversas pessoais deste autor com lideres militares”. Ele não cita nominalmente oficiais brasileiros, mas dos poucos países que ele cita no seu artigo, apenas o Brasil vai ter eleições neste ano.

Como se sabe muito bem, a grande novidade da nova estratégia imperial de segurança é o deslocamento da ênfase na desgastada guerra ao terrorismo para a ameaça apresentada pelas grandes potencias, especialmente a Rússia e a China. Uma das utilidades de uma fakenews é essa possibilidade de ser empregada de muitas formas e em muitas situações. O tema agora é, portanto, a interferência russa nas eleições latino-americanas deste ano.

O Center for Strategic and International Studies realizou em 26 de março passado um seminário (ele realiza muitos seminários semanalmente) para discutir “Será que os russos se intrometerão nas eleições latino-americanas?” A discussão, que está online em vídeo, foi feita por acadêmicos ligados ao complexo militar-acadêmico: Javier Lesaca, espanhol visitante na George Washington University que especulou sobre a interferência russas na independência da Catalunha; David Salvo, da Alliance for Securing Democracy que administra o desmoralizado site Hamilton 38 que acompanha os trends da interferência russa no Twitter e Richard Miles do Americas Program da CSIS.

O CSIS é um poderoso thinktank dos Estados Unidos de interferência na política externa e ligado á Georgetown University, mas o seminário foi um expressivo não acontecimento. Lesaca encontro interferência de venezuelanos, que como em toda a América latina discutiram o plebiscito pela Catalunha e índices tênues de interferência russa que ele não conseguiu apurar se eram “eficazes”. Salvo argumentou que os russos têm capacidades para essa intervenção política e, de modo surpreendente, que se os Estados Unidos interferem nas eleições alheias segundo os seus interesses é provável que os russos façam o mesmo.

Evan Ellis, filiado ao U.S. Army War College, que deveria falar mais especificamente na interferência russa nas eleições, principalmente sobre o brasil que ele visita sempre, não apresentou nada conclusivo se limitando a dar conselhos para o governo americano de como tratar os países no seu quintal.

Ellis provavelmente é uma das fontes das colocações de Arimatéia da Cruz sobre os militares brasileiros temerem a intervenção russa. Ele participou em outubro passado do seminário na Escola naval do Rio de Janeiro sobre a marinha chinesa e em dezembro ministrou um curso no Centro de Estudos Estratégicos do Exercito brasileiro, num intercâmbio de estudos com o Strategic Studies Instituto (SSI – de Arimatéia da Cruz) que foi representado também pelo coronel Todd Key, Diretor do Departamento de Pesquisa e Análises Estratégicas.

Para o CIEEX o encontro, além da discussão sobre “a oportunidades de possíveis esforços conjuntos, o encontro serviu também para debater temas estratégicos, dentre esses temas, merece destaque a palestra sobre tendências e desafios à Segurança na América Latina e Caribe, proferida pelo Dr. EVAN ELLIS”,

Ellis escreve bastante sobre o Brasil, tendo plena consciência do que representa a usurpação de Temer como oportunidade para o governo dos Estados Unidos em todos os sentidos, especialmente na venda de armas. “Os Estados Unidos têm uma extraordinária oportunidade com o atual governo do Brasil de Michael Temer; e é no Interesse estratégico dos EUA trabalhar em conjunto com o Brasil, onde nossos interesses coincidem, fortalecer a democracia, a boa governança e a segurança hemisférica”.

Ele lamenta que o Brasil tenha comprado 12 helicópteros de ataque Mi-35 e centenas de munições para defesa aérea Sa-24 (IGLA-S) “ainda em abril de 2017”, ele diz que a compra do sistema de defesa aérea Pantsir S-1 (que acabou de fazer grande sucesso na defesa da Síria) estagnou e os russos não foram considerados na modernização dos  aviões F-35. Ele argumenta que brasileiros não têm participado de instrução militar na Rússia, mas que esse intercambio tem acontecido com a China.

Ellis se mostra equilibrado na questão da interferência militar na segurança; segundo ele, os militares brasileiros com quem conversou (antes da intervenção militar no Rio) consideram essa situação como “episódica”. Em geral “as operações GLO não são populares entre os militares brasileiros” que as consideram uma “diversão em relação á sua missão junto às fronteiras, em operações de paz ou na defesa nacional”.

O artigo inicial de Arimatéia da Cruz – que é professor no U.S. Army War College – Strategic Studies Institute, e também associado ao Brazil Research Unit no muito influente Conselho de Relações Exteriores, teve a intenção de mostrar a importância da Estratégia Nacional de Segurança, recém promulgada por Trump, para a América latina. Segundo ele o objetivo final da doutrina de Trump no hemisfério é militar e de segurança, assim os Estados Unidos, “vão encorajar culturas de cumprimento da lei para reduzir o crime e a corrupção, incluindo o apoio a esforços locais de profissionalização da polícia e das forças de segurança, e fortalecimento do domínio da lei e a reforma judiciaria e a melhoria da troca de informação visando descobrir criminosos e lideres corruptos e a disrupção do tráfico ilícito”.

Mas eu acredito que a verdadeira intenção do artigo era de mostrar a questão da segurança no rio de Janeiro – um tema frequente em seus artigos  na página Smal Wars – uma página sem oficial dos fuzileiros navais e das forças especiais dos Estados Unidos.

Para o autor “organizações criminosas transnacionais e gangues locais estão combatendo diariamente a policia, as Forças armadas e outras gangues nas favelas e subúrbios do Rio  de Janeiro, na Rocinha, Morro do Alemão, Complexo da Maré, Nova Holanda e Jacarezinho. E o governo dos Estados Unidos e o Exército [americano] não podem baixar a guarda quando forem chamados para exercer e cumprir sua missão”. E ele cita o chefe do Army Strategic Studies Group, que diz “o Exército dos EUA tem muito a aprender com os desafios impostos pela gangues do Rio de Janeiro. A utilização de uma manobra combinada de forças contra uma ameaça híbrida em uma megacidade é um desafio que o Brasil está enfrentando agora. O tipo de conflito é parte do que os estudiosos chamam de guerra de quarta geração (4W).”

 Mas a missão dos Estados Unidos não se encerra aqui.  Segundo Arimatéia da Cruz, “as organizações criminosas transnacionais também são uma grande preocupação em relação às democracias da região” porque “como foi apontado por vários estudiosos, organizações criminosas transnacionais não são apenas destrutivas para a consolidação da democracia na América Latina, mas eles também destroem o tecido social da sociedade, corrompem as instituições sociais, como o judiciário, poderes legislativo e executivo de um governo; e destroem economias. Corrupção e coerção são as principais fontes de decadência institucional e marginalização dos cidadãos, uma vez que não podem confiar nas várias instituições são supostamente responsáveis por sua segurança”.

 O remédio são governos fortes porque, segundo a nova Estratégia de Segurança Nacional, “terroristas e criminosos prosperam onde os governos estão fracos, a corrupção é desenfreada e a fé nas instituições governamentais é baixa”.

 Rio de Janeiro: um laboratório para quem?

 A declaração do general de que a ocupação militar da Vila Kenedy durante a intervenção federal no Rio de Janeiro era um laboratório para as atividades das Forças Armadas criou polêmica na imprensa brasileira. Arimatéia da Cruz usa a mesma imagem, mas para dizer, falando do Brasil, “as grandes cidades latino-americanas são, também, um laboratório para o Exército dos EUA tratar com seus parceiros outra importantes questão (…) como travar uma guerra convencional em um ambiente não convencional”.

Ele não esconde a intenção do governo americano de se enfiar nessa questão da segurança brasileira, que é uma intenção que ele expressa há já muito tempo. Mas os Estados Unidos poderiam começar a frear o tráfico de armas que alimentam a violência no Rio de Janeiro e nas grandes cidades brasileiras.

Um fato totalmente aceito é que são armas que vêm dos Estados Unidos que, através do Paraguai, alcançam nossa cidades. Mas a recente apreensão de armas escondidas em aquecedores para piscinas no Aeroporto internacional do Galeão trazem uma nova perspectiva para a questão.

O governos dos Estados Unidos poderia começar explicando como que um brasileiro acusado de tráfico de armas em 2010, foge para os Estados Unidos, consegue a nacionalidade americana e continua, tranquilamente, de Miami, a traficar armas para cá. Pois foi o que aconteceu com Frederik Barbieri, que foi preso em Port Saint Lucie, Florida, onde mora pelo menos desde 2012 com sua esposa Claudia. Entre 2012 e 2018 quando foi preso a pedido da Polícia do Rio de Janeiro quantas armas terá contrabandeado para as cidades brasileiras e quantas mortes isso causou?

Uma teoria da conspiração

É um fato conhecido que os Estados Unidos investigam longamente qualquer pessoa que solicite sua cidadania, principalmente depois de 2001. Outro fato sabido é que ele costuma abrigar os estrangeiros que servem aos seus projetos intervencionistas e guerreiros no mundo inteiro. Uma investigação recente, por exemplo, mostrou ue que estrangeiros que receberam abrigo de isenção pela Imigração eram vinculados a integrantes de grupos armados de interesse dos EUA.

No caso citado, foi apurado que as armas apreendidas despachadas de Miami por Barbieri destinavam-se a luta pelo poder sobre o tráfico na Rocinha, uma luta que surpreendeu os observadores da cena criminosa pois havia antiga estabilidade na dominação da comunidade que foi quebrada pela ação do PCC.

Os Estados Unidos desenvolveram, em sua luta contra as organizações de resistência no Afeganistão e Iraque, uma teoria de que só uma rede pode destruir outra rede. Eles estão fazendo isso extensamente na Síria, criando organizações e jogando contra o governo e uma contra a outra. O DEA faz isso habitualmente no México, aonde ele chegou a criar uma quadrilha de traficantes, com instalações, laboratórios e tudo mais.

Na minha opinião Barbieri, provavelmente depois de ser preso nos Estados Unidos nos idos de 2010, depois de entregar tudo, passou a trabalhar para os seus mestres e recebeu a incumbência de alimentar com armas o PCC para sua investida contra o Comando Vermelho e contra os Amigos dos Amigos. Eu acredito que isso aconteceu também no Amazonas, na rebelião nas prisões, pela disputa do tráfico colombiano depois da destruição das FARC.

Essa teoria, se não é verdadeira é ao menos uma boa “fakenews”. Mas nós voltaremos a esse assunto.

Agradeço a você que chegou até aqui. Gostaria de ouvir as opiniões e comentários de todos. Jota Barreto é jornalista (PJ, desocupado no momento) e pode ser encontrado no endereço [email protected]

 

 

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