Sociedade israelense: a indústria bélica como ferramenta de sobrevivência
por Heba Ayyad
A produção da guerra e sua constante reformulação fazem com que a sociedade israelense, caracterizada por extremo pluralismo e por contradições étnicas e religiosas, encontre no foco na “ameaça existencial comum” o elo que impede a sua desintegração. O Knesset israelense aprovou, em segunda e terceira votações, um projeto de lei que impõe a pena de morte a prisioneiros palestinos. A lei, elaborada pelo ministro extremista Itamar Ben-Gvir, concede aos tribunais militares a autoridade para condenar à morte qualquer palestino que mate intencionalmente um israelense por motivos “nacionalistas ou hostis”.
Essa lei, juntamente com diversas pesquisas de opinião publicadas em março de 2026 — que indicam um aumento no apoio israelense a uma guerra com o Irã —, é significativa. Uma pesquisa publicada pelo The Guardian, em 26 de março de 2026, revelou que a grande maioria dos israelenses ainda apoia uma guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, ao contrário da maioria dos estadunidenses, que se opõe a tal guerra.
Para analisar esse fenômeno na sociedade israelense, que está rapidamente se inclinando ao extremismo, tolerando a brutalidade e o genocídio e recompensando aqueles que instigam guerras, pode-se argumentar que ela se tornou uma “produtora de guerras e uma transformadora por meio delas”. A militarização da sociedade se consolidou, e a guerra deixou de ser um mero “meio”, como definido por Clausewitz, para tornar-se um “fim” social e existencial em si mesma.
Isso pode ser enquadrado da seguinte forma:
1. A guerra como produtora de identidade
A produção da guerra e sua reformulação por meio dela fazem com que a sociedade israelense, caracterizada por um pluralismo extremo e por contradições étnicas e religiosas (ashkenazim, sefarditas, haredim, religiosos e seculares), encontre no foco em uma “ameaça existencial comum” o elo que impede a sua desintegração.
Assim, a guerra serve para fundir componentes díspares, oriundos de diferentes partes do mundo, em uma única identidade nacional. Dessa forma, o “exército” não é mais apenas uma ferramenta defensiva, mas a instituição que define a “cidadania” e confere legitimidade aos indivíduos dentro da sociedade, o que o torna a instituição que goza de um nível de confiança maior do que os políticos nas pesquisas de opinião.
2. A guerra como necessidade interna
A continuidade de um estado de guerra protege o sistema político e social do enfrentamento de desafios internos há muito adiados. Sem um inimigo externo, questões importantes viriam à tona, como a luta pela identidade, as divisões de classe, a discriminação entre os próprios colonos judeus e os conflitos estruturais que quase levaram a uma guerra civil no verão de 2023, como alertado pelo presidente israelense Isaac Herzog.
Assim, nesse contexto, a guerra serve como um mecanismo de “exportação de crises” para o exterior, em vez de enfrentá-las internamente.
3. A paz como processo de “desmantelamento”
O aspecto mais perigoso para a sociedade e as elites israelenses é que elas veem a paz não como um “ganho” que garante sua segurança e estabilidade, mas como uma “ameaça estrutural”, por vários motivos:
A paz significa a ausência de um inimigo que justifique a renúncia aos direitos individuais em favor da segurança coletiva.
Para as forças de direita e religiosas que dominam a sociedade e a política israelenses, a paz exige concessões territoriais e ideológicas, bem como a concessão de direitos aos palestinos. Isso corroeria a narrativa sionista baseada na expansão dos assentamentos, no confronto contínuo e na promessa divina de um “Grande Israel”.
A paz diminuiria a influência de figuras da segurança e das forças armadas na tomada de decisões, ameaçando os interesses daqueles que derivam seu poder de um estado de emergência perpétuo.
Assim, os acontecimentos entre 2023 e 2026 confirmam a conclusão de que a sociedade israelense se tornou produtora de guerras e é remodelada por elas. Esse processo se baseia em três pilares fundamentais:
A sociedade israelense não escolhe mais a guerra de forma consciente e preferencial, mas sim porque o ambiente político, midiático e legislativo tornou a guerra a única opção disponível. A lei que autoriza a execução de prisioneiros e os altos índices de apoio à guerra nas pesquisas de opinião refletem uma tendência social que vê a força como a única solução, moldada pelo medo existencial.
A mídia israelense contribui para a formação da consciência pública dentro de uma estrutura nacional unificada. A “narrativa da vitória” (promovida por Netanyahu de forma consistente desde 2024) é apresentada como uma forma de tranquilizar uma sociedade ansiosa, suprimindo críticas e, por vezes, levando até mesmo opositores a apoiar guerras.
Desde o início do século XXI, a sociedade tem sido sistematicamente moldada e impulsionada em direção ao extremismo de direita, por meio de escolas em que o ensino religioso substituiu o ensino nacional e por meio do exército, que foi influenciado por um rabinato que se baseia na Torá para justificar o combate e a resiliência dos soldados. Consequentemente, o sistema político transformou-se em uma estrutura que recompensa os partidos mais radicais e militaristas.
Heba Ayyad – Jornalista internacional. Escritora Palestina Brasileira.
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