JN: a longa noite de 50 anos, por Túlio Muniz

Os desencontros entre telejornalismo da Globo e a democracia ficam evidentes a partir de 1983, com a cobertura do movimento pelas Diretas Já – as primeiras eleições diretas aconteceram somente em 1989.

JN: a longa noite de 50 anos

por Túlio Muniz

A propósito dos 50 anos do Jornal Nacional, este artigo se debruça no percurso da Rede Globo de Televisão em manipulação da História. Para tanto, busco historicisar a prática deletária do jornalismo da Rede Globo, focando no período da redemocratização à reeleição de Lula em 2006. É uma colaboração para  compreensão de como funciona o dispositivo que, por ora, obtém certo êxito na invisibilisação do jornalismo on line como o praticado por “The Intercept Brasil”. Este, no escândalo da Vaza Jato, ainda que estenda relações com imprensa ‘tradicional’ (jornal Folha de S. Paulo e revista Veja), rádio (BandNwes) e outros meios eletrônicos, não demove a Globo de seus interesses em poupar o governo de Jair Bolsonaro e omitir escândalo que envolve o ministro da Justiça Sérgio Moro.

Quiçá como a que aqui proponho (considerando um apanhado de reflexões atuais com apontamentos que elaboro na última década) aponte para possibilidades de ruptura com o ‘padrão global de jornalismo’.

O papel dos meios de comunicação de massa, os media, tem sido uma constante em diferentes contextos nacionais ao longo do século XX, e os primórdios do XXI não anunciaram mudanças significativas no campo da linguagem televisiva, que será objecto privilegiado de reflexão deste artigo. Se as novas tecnologias da comunicação, nomeadamente a internet, trazem possibilidades e alternativas, o telejornalismo produzido ao nível mundial não tem ofertado grandes novidades em sua abordagem. Seja qual for o país, seja qual for a emissora de TV, o padrão estético e linguístico adotado é semelhante demais, senão o mesmo. O que o telejornalismo pratica hoje – e sempre praticou – é a modelização de realidades locais e a simplificação de contextos outros para manter sob controle o que Chomsky (em “A Manipulação dos Media. Os efeitos extraordinários da propaganda” , Lisboa, Editorial Inquérito, 2002)  chamou de “rebanho tolo”, seja por indução de padrões de consumo e de comportamento em esferas pública e privadas, seja por incutir o medo e o terror nas populações.

Antes de prosseguir: uma relevante e pertinenente análise de Eliara Santana acerca dos posicionamentos deletérios atuais e recentes do JN foi publicada em 06 de Setembro (em https://www.viomundo.com.br/desnudandoamidia/eliara-santana-parceria-jn-lava-jato-redefiniu-os-rumos-do-pais-e-para-pior.html. Creio que é possível perceber um diálogo entre este  texto e o da pesquisadora.

Media televisiva e poder

As emissoras de TV em todo o mundo têm outro ponto em comum além da linguagem jornalística: são controladas ou por grupos empresariais capitalistas ou pelo Estado – da RTP a Al Jazira. Se o jornalismo, “essa invenção fundamental do século XIX”, nas palavras de Foucault (em “Microfísica do Poder”, Rio de Janeiro, Edições Graal,1996, pg 224), possibilita aos movimentos sociais organizados um acesso, ainda que restrito, às midias impressas, radiofónicas e à internet, ele é uma impossibilidade na teletransmissão. Noam Chomsky é um dos autores que nos da uma explicação para tal. Em “A Manipulação dos Media. Os efeitos extraordinários da propaganda”, Chomsky reflete sobre o papel dos media na política e anunciando duas concepções de democracia: uma com meios de comunicação abertos e livres e que propiciem às pessoas participarem da condução de seus assuntos, e outra na qual os meios de informação são controlados e onde as pessoas são impedidas de conduzirem seus interesses. Esta última concepção é a que prevalece no cenário global. Um grande exemplo é o filme-documenário “Un poquito de tanta verdad” (CLACSO, 2007), que narra com detalhes o levante da população da província de Oxaca, a mais pobre do México, contra o governo regional de Ulises Ruiz.

A partir de uma greve de professores da universidade local, amparada nas emissões de uma rádio comunitária e reprimida pelo governo, o sentimento de revolta dissemina-se na população de Oxaca que toma, primeiro, as emissoras de rádio e televisão estatais e, depois, as emissoras privadas, nas quais o levante popular era abordado como “selvageria”, “irracionalidade” e não como o que era de fato: revolta e incorformismo. Apesar de o conflito ter durado meses a fio, os meios de comunicação privados e estatais somente passam a divulga-lo quando um cinegrafista norte-americano foi morto pelo exército na cobertura de um dos confrontos. O que “Un poquito de tanta verdad” demonstra, sobretudo, é o potencial da população em controlar e utilizar a televisão como meio de expressão, fora dos clichés dos “especialistas” e quase sempre prescindindo da mediação dos jornalistas.

São os “especialistas” que compõem o que Chomsky chama de “classes educadas” e algum círculo de intelectuais que apoiam o discurso do poder presente nos media. Trata-se da mesma categoria de intelectuais que Natrajan aponta como forjadores de “consentimentos espontâneos” do grande público, com o propósito de atender aos interesses dominantes (em Natrajan,  Balmurli, “Masking and Veiling Protests. Culture and Ideology in Representing Globalization”, Cultural Dynamics, Vol. 15, 2004). São eles os responsáveis pela “fabricação de consentimentos” (Chomsky) a serem veiculados pelos media para determinar a maneira de agir  do “rebanho tolo”.

Aos especialistas cabe a fabricação de entretenimento, de “ilusões necessárias e ultrassimplistas” para distrair o “rebanho” no entre-ato das eleições, quando o “rebanho” não tem que “dar a sua opinião”. Aqui cabe lembrar da perspicácia de Muniz Sodré, que já em 1972, discorria sobre a fórmula da imbecilização do público adotada por programas de auditório, fórmula mantida em programas do género nas TV´s  de todo o mundo ocidental  nas últimas décadas  (em “A Comunicação do Grotesco”, Rio de Janeiro, Editora Vozes).

Na mídia, campo privilegiado da propaganda, os “especialistas” tomam o lugar dos intelectuais. Estes defrontam-se com o desafio de  nem se transmutar em “especialistas” e nem se omitir de ocupar espaço nos media pois. Said (em “Representações do Intelectual. As palestras de Reith de 1993”, Lisboa, Ediçoes Colibri). As citações são das páginas 16, 25 e 28nos leva a uma melhor compreensão do que afirmo. A citação é longa, mas pertinente:

“Devem ser os intelectuais a questionar o nacionalismo patriótico, o pensamento corporativo e um sentido de privilegio de classe, de raça ou de género. A universalidade significa correr o risco de ir para além das certezas fáceis que nos são fornecidas pelas nossas circunstâncias , pela língua e pela nacionalidade, que tão frequentemente nos protegem da realidade dos outros. (…) Segundo Brenda , o problema do actual grupo de intelectuais reside no facto de eles terem emprestado a sua autoridade moral àquilo que ele, numa expressão premonitória, chama ‘a organização de paixões colectivas’, tais como o sectarismo, o sentimento das massas, a beligerância nacionalista, os interesses de classe. Embora Brenda estivesse a escrever em 1927, bem antes da época dos meios de comunicação de massas, ele pressentiu quão importante era para os governos terem como servidores aqueles intelectuais que podiam ser chamados, não a conduzir, mas a consolidar a politica do governo, a debitar a propaganda contra inimigos oficiais. (…) Há o perigo de a figura ou imagem do intelectual desaparecer num mar de pormenores, e de o intelectual se transformar em apenas mais um profissional ou num numero de uma tendência social, (…) mas quero também insistir que o intelectual é um indivíduo com um papel público específico na sociedade, que não pode ser reduzido simplesmente a um profissional sem rosto, um membro competente de uma classe que apenas trata da sua vida”.

O que Said afirma cabe para se compreender como há, na TV brasileira, diversos professores que, convocados a opinarem em telejornais, ratificam discursos oficiais e hegemónicos em vez de combatê-los e, quando o fazem é porque o Estado se voltou contra o intelectual. Um exemplo recente é o do historiador Marco Antonio Villa, anti-esquerdista notório, demitido de uma emissora de rádio de São Paulo em 2019, por pressão do governo de Jair Bolsonaro, a quem passou a criticar.

Mesmo antes do surgimento das emissões em massa do rádio e da televisão, a propaganda é concebida no âmbito do estado como método de coerção das populações. Chomsky faz uma breve genealogia da propaganda politica, remontando a criação da Comissão Governamental de Propaganda no governo Wilson, eleito presidente dos EUA em 1916 (portanto antes da propaganda soviética e ainda mais da nazistas, geralmente apresentadas como precursoras de um tipo de propaganda coercitiva e de controle das massas).  À Comissão de Propaganda cabia convencer a população pacífica a apoiar a ida dos EUA à I Guerra, fomentando o ódio a tudo o que fosse alemão, estratégia que mais tarde seria repetida sobre o “Terror Vermelho” na repressão ao movimento sindical, recurso usado, por exemplo, por George W. Bush para ‘justificar’ a ocupação do Afeganistão e, sobretudo, a do Iraque.

A estratégia não é datada do século XX, remete a Kant, na introdução de “Crítica da Razão Pura”  afirma: “no conhecimento humano existem realmente juízos de um valor necessário, e na mais rigorosa significação universal; por conseguinte, juízos puros, apriori”. Kant, no século XVIII, e Hobbes, no XVII, refletiram sobre a melhor maneira de manter uma população sob jugo e controle: provocar-lhe terror e medo. Mais de 350 anos depois do Leviatã (1651) de Hobbes, cabe perguntar: não é exatamente o que fazem os Estados e os media hoje? É preciso mais uma vez concordar com Chomsky: “A propaganda está para democracia como o cacete está para um Estado totalitário”.

Entre os “especialistas” estão os relações públicas, designados por Chomsky como operadores a mando do “partido dos negócios”, a serviço da “comunidade de negócios” que tem suas facções nos partidos Democrata e Republicano norte-americanos. Os relações públicas fabricam consentimentos a tal ponto que as pessoas sequer se incomodam de ir votar, diz Chomsky. Segundo ele, cabe aos relações públicas “afastar a atenção das pessoas de qualquer pergunta que signifique alguma coisa”, isolando as convicções pessoais para que se minimize a importância de seus anseios e esses  não sejam compartilhados,  induzindo as pessoas à introspecção egocêntrica, levando-as a  considerar que ninguém mais compartilha de seus  sentimento, anseios e temores.

Outra intenção da comunidade de negócios na manipulação dos media é desviar atenção para os problemas internos. Chomsky cita como exemplo o aumento da pobreza nos dois primeiros anos de governo de George Bush, (pai, 1989-1993), ao passo em que a população estava “distraída” com a Guerra do Golfo (1990), os narco-traficantes, as discussões sobre violação de direitos humanos em Cuba etc. Ele reforça a hipótese evidenciando o papel coercivo dos media na manipulação da opinião publica norte-americana, angariando apoio campanhas no estrangeiro, promovendo narrativas distorcidas da História e, sobretudo, evidenciando como os media sufocam o que ele chama de Cultura Dissidente, que tende a se preocupar com o “outro” – aqui não concebido como o “outro” subalterno, mas o “outro” enquanto sujeito da alteridade.

Esse desinteresse pelo “outro” advém do “cansaço” pré-fabricado pelos media apontado por Susan Moeller (em  Compassion Fatigue, How the Media Sell Disease, Famine, War and Death. London: Routledge, 1999). A repetição das imagens de massacres e catástrofes banaliza o terror perante a “opinião pública”, que mantém uma relação distanciada com a tragédia que será sempre do “outro”, sem relação com a sua própria existência.

Trago  para este ponto do debate as reflexões da esquizoanalista e filósofa Suely Rolnik. Em “Toxicômanos de Identidade”( em Lins, Daniel(org), Cultura e Subjetividade. Saberes Nômades, Campinas, Editora Papirus,1997), Rolnik discorre sobre as diferentes drogas às quais as populações recorrem na modernidade globalizada para forjar próteses identitárias, e inclui a TV ao lado as drogas farmacológicas e a literatura de auto-ajuda como produtores de “identidades  prêt-à-porter”:

“A droga oferecida pela TV (que os canais a cabo só fazem multiplicar), pela publicidade, o cinema comercial e outras mídias mais. Identidades prêt-à-porter, figuras glamurizadas imunes aos estremecimentos das forças. Mas quando estas são consumidas como próteses de identidade, seu efeito dura pouco, pois os indivíduos-clones que então se produzem, com seus falsos-self estereotipados, são vulneráveis a qualquer ventania de forças um pouco mais intensa. Os viciados nesta droga vivem dispostos a mitificar e consumir toda imagem que se apresente de uma forma minimamente sedutora, na esperança de assegurar seu reconhecimento em alguma órbita do mercado”.

Para Rolnik, o potencial anestesiador da linguagem televisiva é uma estratégia  que visa  tanto a volta às identidades locais quanto a sustentação das identidades globais, um movimento perigoso, não-espontâneo, cuja origem visa “domesticar as forças”. Rolink questiona o sucesso total do intuito domesticador, porém adverte: “Mas o estrago está feito: neutraliza-se a tensão contínua entre figura e forças, despotencializa-se o poder disruptivo e criador desta tensão, brecam-se os processos de subjetivação. Quando isto acontece, vence a resistência ao contemporâneo”.

Segundo ela, a intenção de buscar um padrão identitário é a busca de “conforto”. Em outro artigo, “Inconsciente Antropofágico”, a autora faz referência às novelas da Rede Globo de Televisão (maior emissora privada brasileira) para explicar como se constrói deliberadamente a coerção da linguagem televisiva:

“Sua linguagem incorpora as mais avançadas tecnologias e sua temática, as questões políticas, econômicas, sociais, comportamentais, etc. que agitam a vida nacional a cada momento. O tratamento dado a essas questões é sempre o mesmo: seu poder disruptivo, envolto pelo glamour dos personagens, se esfumaça. Tais personagens se oferecem como atraentes figuras-padrão para todos os gostos, participando da vida cotidiana de uma média de cinquenta milhões de brasileiros – a audiência chega a atingir setenta milhões, perto da metade da população do país – que os consomemcomo sua ração diária de identidade. Eles formam uma espécie de família-prótese cujo equilíbrio e mesmice nada tem o poder de abalar. Verdadeiro laboratório high tech de imagens prêt-à-porter, idealizadas de acordo com cada nova situação do mercado, as telenovelas brasileiras são exportadas com expressivo sucesso para mais de cem países” (Rolnik, em “ Inconsciente antropofágico”, in  Inconsciente antropofágico. Ensaios sobre a subjetividade contemporânea, São Paulo, Estação Liberdade, 1998).

Os media são fortes, mas não são imbatíveis, sua força coercitiva e seu poder intoxicante pode ser onipresente, mas não é eterno. O caso de Oxaca brevemente citado acima é um exemplo, mas há um outro, no Brasil, sobre o qual que passo a tratar: o telejornalismo da Rede Globo de Televisão nos últimos 50 anos, cujo palco principal é o Jornal Nacional.

  Uma noite de 50 anos

A 1º de setembro de 1969 vai ao ar a primeira edição do Jornal Nacional (JN), da Rede Globo de Televisão. Foi a primeira transmissão em rede nacional de TV no Brasil, consolidando o poderio da até hoje maior emissora de televisão brasileira e uma das maiores do mundo, cuja origem é envolta em controvérsias, conforme demonstrado no vídeo documentário “Muito além do cidadão Kane (1993) de Simon Hartog, produzido pela BBC sobre a Rede Globo. Naquela noite, há cinco décadas, ecoou pela primeira vez o jargão: “É o Brasil ao vivo aí na sua casa. Boa noite”, o mesmo “Boa Noite” que hoje encerra todas as transmissões do JN. Até então o jornalismo eletrônico brasileiro somente havia sido tansmitido em rede nacional via rádio: o “Repórter Esso”, de 1941 a 1968, e “A Voz do Brasil”, noticioso estatal, no ar desde 1935.

O JN em rede nacional seguia uma tendência na expansão do sinal de rádio e TV como estratégia de consolidação das fronteiras nacionais brasileiras. Em 1935, com Getúlio Vargas no poder foram celebradas as múltiplas possibilidades do rádio, com o governo a defender a instalação de rádios receptores em “pequenas aglomerações” do território nacional. Embora saibamos quais os intuitos do ditador (de 1930 a 1945, no “Estado Novo”), observemos suas palavras: “São diversas e distantes as zonas do interior e a maioria delas não dispõe de impressa própria, veiculando apenas notícias de caráter regional. À radiotelefonia está reservado o papel de interessar a todos por tudo quanto se passa no Brasil” (ver Sérgio Caparelli, “Comunicação de Massa Sem Massa”, São Paulo, Summus, 1980).

Posteriormente, a Ditadura Militar (1964-1985) expandiu os sinais de rádio e TV, na década de 70, sob pretexto de “integração e defesa dos valores nacionais”. O aumento da potência e do número das emissoras de TV resultava, já no início dos anos 80, num paradoxo. “Os índios da Amazônia aprendem rock e os uruguaios se inquietam com a trama de uma novela ambientada no Nordeste Brasileiro”, afirmou Caparelli.

A Rede Globo consolidava seu poderio e estabelecia um padrão de telejornalismo que seria reproduzido pelas concorrentes da época e as que surgiriam nas décadas seguintes. Como bem observou Carlos Eduardo Lins e Silva, em “Muito Além do Jardim Botânico. Um estudo sobre a audiência do Jornal Nacional da Globo entre trabalhadores”, (São Paulo, Summus,1985), as redes de TV que fizeram do Brasil televisivo o que ele é seguem o mesmo modelo da Rede Globo.

Trata-se do  “padrão “global”, que endossava a atitude dos governos da ditadura, postura mantidos governos civis seguintes até 2006, quando a Globo passa a atacar abertamente o governo de Luís Inácio Lula da Silva. A Globo faria o mesmo nos ataques sucessivos aos dois governos de Dilma Rousseff (2011-2014 / 2015 2016) e de Michel Temer (2016-2018), obtendo êxito em interromper o segundo mandato de Dilma. Temer e Lula resistiram.

A reeleição de Lula, em 2006, será aqui abordada com mais detalhes porque nela configuram-se muitos dos elementos apontados na introdução e no decorrer deste artigo.

Os desencontros entre telejornalismo da Globo e a democracia ficam evidentes a partir de 1983, com a cobertura do movimento pelas Diretas Já – as primeiras eleições diretas aconteceram somente em 1989. A Globo tenta minimizar a importância do movimento que culmina com um comício onde comparecem cerca de um milhão de pessoas em São Paulo, em 1984. A postura da emissora lhe valeu o slogan “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. A partir de então a Globo endossa e recrudesce o vocabulário governamental que, posterior às Diretas Já (afinal não aprovadas no Congresso), vai designar como “baderna” os movimentos operários no ABC paulista (a região metropolitana de São Paulo onde se concentra o maior parque industrial do país), sobretudo as greves dos metalúrgicos que tinha à sua frente o futuro presidente Lula.

Cabe aqui lembrar que, em 1982, outra polêmica envolveu a Globo e a cobertura das eleições regionais livres. No Rio de Janeiro venceu Leonel Brizola, antiga liderança retornada do exílio com a Anistia de 1979, do Partido Democrático Trabalhista (PDT, centro-esquerda), mas a Globo difundia informações distorcidas, dando conta de que Brizola perdera a disputa, o que não se confirmou. Em 1989, acontece o que talvez tenha sido o mais emblemático caso de manipulação do telejornalismo brasileiro, e, certamente, um dos mais relevantes da televisão mundial.

O “Fantástico” ­– programa semanal da Globo, onde quadros de entretenimento alternam-se com matérias jornalísticas – leva ao ar uma edição distorcida do debate entre os dois candidatos à Presidência, Fernando Collor, da direita e com apoio maciço da emissora, e Lula, do Partido dos Trabalhadores. A edição do debate, exibida  às vésperas da votação, demonstrou um Collor audacioso, firme, jovem, robusto, convicto, e um Lula arredio, acuado, hesitante, “feio”, carrancudo, o que não correspondia necessariamente à postura de um ou de outro no debate, transmitido ao vivo dois dias antes do “Fantástico”.

Sobre Lula, foram reificados antigos preconceitos que a própria televisão construíra desde 1979. A matéria foi apontada como um dos fatores que distanciaram a população da candidatura de Lula e que deu a vitória a Collor, derrubado democraticamente pelo povo nas ruas em todo o Brasil e pelo Congresso Nacional três anos mais tarde, por corrupção.

Até as eleições de 2002, quando Lula finalmente vence após três disputas, a Globo manteve-se aquietada com relação aos governos, fossem os das ditaduras e ou dos quatro presidentes civis: José Sarney (1985-1990), Fernando Collor (1990-1992), Itamar Franco (1992 – 1995) e Fernando Henrique Cardoso (1995-1998 e 1999-2002).  E até meados do primeiro mandato de Lula a emissora manteve postura semelhante, talvez devido a dívida com o governo federal que, à época, chegava a 140 milhões de dólares, acumulada ao longo dos anos.

Um parêntese: conforme demonstrado, Collor foi eleito com apoio decissivo da Globo, e poupado por ela enquanto lhe foi conveniente, e descartado na sequência. A perda de apoio da emissora foi decisiva no impeachment de 1992. A Globo repetiu o mesmo com a derrubada de Dilma e ascensão de Michel Temer à Presidência, em 2015, passando a atacá-lo partir de 2016 por conflitos ainda não de todo esclarecidos. Parece adotar a mesma postura nos primeiros meses de governo de Jair Bolsonaro.

Voltando a disputa eleitoral de 2006, quando Lula concorreu a um segundo mandato, a Globo carrega contra ele, embalada por denúncias de corrupção que derrubaram boa parte de próceres do governo ao longo do ano (o escândalo do “mensalão”, no qual o governo estaria a comprar apoio de parlamentares com o pagamento mensal de suborno),  e com o escândalo do “dossiê aloprados”  às vésperas da eleição, envolvendo figuras relevantes do PT em São Paulo. O escândalo do “dossiê aloprados” consistiu na apreensão, pela Polícia Federal, de um 1,7 milhão de doláres que seria utilizado na compra de documentos que supostamente incriminariam membros do PSDB, principal rival do PT.

Diante da superexposição dos dólares nos telejornais, através uma fotografia anónima, exibida no JN, com o dinheiro empilhado e armazenado na Polícia Federal, Lula não venceu a eleição no primeiro turno, ficando com 48,6% (46,6 milhões dos votos válidos) contra 41, 64% (39,9 milhões) dos votos de seu adversário, Geraldo Alckmin (PSDB). O resultado contrariou todas as pesquisas que apontavam uma vantagem para Lula de 53% a 58%, e os escândalos e a carga da Globo foram apontados como os principais responsáveis pelo viés. Mas a exposição dos dólares na grande mídia foi  de um movimento um tanto orquestrado, um “complô da mídia”, como denominou apropriadamente a revista Carta Capital à época (ANEXO 1 (in http://www.une.org.br/home3/politica/m_5711.html)..

Um delegado da Polícia Federal, simpatizante do candidato da oposição, fez e divulgou a tal fotografia. O delegado Edmilson Pereira Bruno manteve um encontro com jornalistas ligado a veículos como a TV Globo e os jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo, os três maiores do país, e propôs a eles o ‘vazamento’ da fotografia, mas frisou: “Tem de sair hoje à noite na TV. Tem de sair no Jornal Nacional” [grifo meu]. Sua atitude veio à publico no blog pessoal do jornalista, Luiz Carlos Azenha, que tinha a gravação da conversa do delegado com jornalistas e a veiculou na íntegra na internet. Paradoxalmente, à época Azenha era repórter da Globo, e seu ato demonstrou que não necessariamente os jornalistas que atuam no âmbito da grande mídia têm de endossar a postura de seus editores.

A Globo teve de recuar parcialmente com a divulgação de detalhes da fotografia dos dólares, e Lula venceu com mais de 60% (ou 58 milhões) dos votos validos. Seu adversário conseguiu um feito inédito na história de eleições do Brasil: obteve menos votos do que os que alcançara no primeiro turno (39,9 milhões), terminando a disputa com 37,5 milhões.

Aqui está a questão principal: o desempenho aquém do esperado de Geraldo Alkimin se deu mesmo contando com apoio e a simpatia dos media. Uma pesquisa da revista Carta Capital, veículo pró-Lula, publicada logo após a eleição, demonstrou um fato ainda mais curioso: a audiência do Jornal Nacional não caiu durante o segundo turno. A assistência manteve-se e mesmo aumentou nas mesma “classes sociais” que consolidaram a vitória de Lula (C, D e E). Como explicar isso?

Ora, em 2002 Lula vencera as eleições, um “acontecimento” que, para Suely Rolnik, demonstrou o deslocamento da maioria da população, que ate então via Lula e a si mesma como “subjetividade-lixo”, para outro campo, a de “subjetividade-luxo”. Devemos à filósofa outra brilhante análise das subjetividade do “acontecimento Lula” em 2002 que possibilita compreender o fracasso da manipulação dos media em 2006.

“Desde a primeira candidatara de Lula (…) ate sua terceira candidatura para presidência da República (1998), (…) para grande maioria ele era visto com desprezo: ‘ sapo barbudo’ é o nome que lhe deram na época. Vigora naquele momento a aceitação passiva e naturalizada do lugar de lixo e, portanto, o auto-desprezo, que tornam impensável a quebra da hierarquia segundo a qual os habitantes da cloaca não têm competência para ocupar um lugar de comando do país. (…) No segundo turno [em 2002], a força de contaminação do modo de presença de Lula desloca mais rapidamente a cena. O sentimento da maioria dá mais um passo na ruptura, ‘ ele é como nós’ e, apesar disso, conseguiu perdr o medo de ser humilhado como subjetividadelixo; ele se autoriza uma fala imanente às sensações que se produzem no encontro vivo com a alteridade e sabe de seu valor. Esta política de subjetivaçao propaga-se por todo o campo social: dissolve-se o medo, uma fala viva começa a circular e uma inteligência coletiva se põe em movimento. (…) Um momento histórico significativo não só pela alegria de uma vitoria da esquerda, especialmente por se tratar de um candidato que reúne várias categorias de subjetividade-lixo: de operário metalúrgico a rtirante nordestino, imigrante, morador da periferia de São Paulo, passando por deficiente físico a quem falta um dedo (…) e para completar, fala português ‘errado’. Este é apenas o aspecto mais visível e obvio desta alegria, para não dizer ingénuo e, pior do que isso, perigoso, pois pode confundir-se com esperança, afeto triste que alimenta messianismos, populismo e toda espécie de ideal de um mundo fusional sem diferença e, portanto, sem crueldade sem resistência, sem criação, sem vida. Vital mesmo é a alegria pelo esvaziamento do inconsciente colonial-escravocrata-ditatorial-capitalístico que mantém os brasileiros reféns de uma hierarquia que os fixa na posição de subjetividade-lixo, vítimas de um suposto destino transcedental” ( Rolnik em “O ocaso da vitima para além da cafetinagem da criação e de sua separação da resistência”, in Lins, Daniel e Pelbart, Peter Pál, orgs., Nietzche e Deleuze.Barbáros, Civilizados, São Paulo, Anna Blume,2004).

Ao contrário do que pensa o atual editor e apresentador do Jornal Nacional, William Bonner, o público geral não tem a mesma capacidade de discernimento que Homer Simpson. Em 2005, Bonner foi observado por uma turma de estudantes de jornalismo enquanto editava o Jornal daquela noite. Segundo ele, o critério para descartar a veiculação de determinada notícia era porque “Essa o Homer não vai entender”, comparando o telespectador brasileiro ao patriarca, um tanto estúpido, de “Os Simpsons”, serie de desenho animado americana muito popular no Brasil e em outros países (a polémica consta em “De Bonner Para Homer”, http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=358ASP010)

Se ao longo dos anos e das eleições pouco mudou a grande mídia eletrônica, mudou o que Chomsky chama de “rebanho tolo”, que mais de uma vez demonstrou que não se deixar levar totalmente pela manipulação televisiva. Hoje o problema parece se deslocar para a disseminação das chamadas ‘fake news’ por novos meios de comunicação (sobretudo internet e aplicativos de telefonia com interface na rede web), apontados com grandes responsáveis, por exemplo, pela eleição de Jair Bolsonaro dem 2018.

CONCLUSÃO

A relação incestuosa da política com os media é e sempre foi  uma realidade. Podemos ler Chomsky tanto pelo viés da importância de seu pensamento para o contexto norte-americano quanto para importância que tem no contexto mundial, mais amplo. A mesma ‘democracia televisiva’ elegeu pelo menos um presidente no Brasil (Collor, 1989) e sempre influencia a eleição e a governação, direta ou indiretamente.

Cabe ao pensamento contemporâneo contra-hegemónico buscar alternativas práticas, pois, como afirma Rolink,em “Toxicômanos de Identidade”:  “o que preocupa não é a perda de um lugar, mas de uma ética” que sucumbem diante das “drogas da ilusão e vencem “as forças de resistência à emergência do novo”.

Coloquemos em questão, pois, o poder nos media e o poder dos medias. A internet é uma alternativa em expansão aos monopólios de transmissão de informações “ao vivo” (ou “em directo”, como se diz em Portugal). Mas o mais importante a se considerar, e que está um tanto invisibilizado, é o sentimento das populações de que o novo pode emergir, e ele não passa mais pela manipulação de corações e mentes, pelo menos não exclusivamente no campo do telejornalismo. Este, embora forte no Brasil, não é mais hegmónico, disputa espaço com as chamadas redes sociais, talvez daí o que se conceitua como ‘guerra híbrida’ nesse campo – da internet – exiga cada ve mais atenção, e combate., para fortalecer o que Morris e Braine  chamam de “consciência oposicionista”, que escapa à análises sociais calcadas em antigos modelos estruturais:

“Muito frequentemente essas análises assumem um mecanismo relacional no qual a desigualdade estrutural ou outra condição social tem consequencias diretamente na ação coletiva. As análises clássicas feitas por Weber, Gramsci e Thompson, focam em como as estruturas objetivas de dominação interagem com as experiências subjetivas de dominação para produzir ações coletivas. A cultura funcionaria como ora inibindo ora facilitando a ação coletiva”[1].

Os auto-celebrados 50 anos do JN são também oportunidade de considerar essas novas configurações como importantes para compreender a longevidade do manipulação telejornalística e da difusão de mentiras (para o que ‘fake news’ é eufemismo) na contemporaneidade. E, talvez, para fortalecer atenção e respaldo para a Vaza Jato e a atuação jornalística on line progressista, que  vão de encontro com a manipulação da Globo.

Túlio Muniz. Jornalista, historiador e doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra

[1]Morris, Aldon; Braine, Naomi (2001), “Social Movements and Oppositional Consciousness” in Jane Mansbridge e Aldon Morris, Oppositional Consciousness. The Subjective Roots of Social Protest. Chicago: The University of Chicago Press (pp. 20-37).

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