Jornada abusiva é sintoma de mundo do trabalho desorganizado
por Miguel Eduardo Torres, Ricardo Patah, Antonio Neto, João Carlos Gonçalves (Juruna), Francisco Canindé Pegado e Álvaro Egea.
A bandeira pelo fim da escala 6×1 surge como mais uma tentativa de resistência frente a ampla retirada de direitos e opressão ao trabalhador, típicas do mundo capitalista.
Impulsionada pelo questionamento de um comerciário que conseguiu furar a bolha das redes sociais, surge sob plena vigência da reforma de 2017, que consistiu em um expressivo retrocesso[1] nas leis e nas relações de trabalho.
O movimento sindical recebe com admiração e apoio este clamor, mas, alerta para as especificidades que o tema abrange e, sobretudo, para as artimanhas do mercado. É preciso contextualizar o debate em meio às perdas ocorridas – especialmente desde 2017. E mostrar que o mundo do trabalho deve ser compreendido de forma global.
Uma bandeira histórica
O tempo livre é uma das reivindicações mais antigas do sindicalismo. No Brasil, por exemplo, foi uma das principais reivindicações da Greve Geral de 1917. O jornalista José Luiz Del Roio, ao ser perguntado sobre as motivações daquela greve, afirmou ao Centro de Memória Sindical[2]:
“Redução do horário de trabalho era a primeira, porque, se deixasse, aqueles homens matavam o pessoal de tanto trabalhar na fábrica. Você trabalhava 14 horas, inclusive aos sábados e, às vezes, se tivesse necessidade, também no domingo de manhã. Claro, o ser humano não resiste a isso. Então, redução no horário de trabalho era a principal”.
Inserido em um sistema rígido, do qual depende e que, ao mesmo tempo, não controla, o trabalhador submetido a longas jornadas dificilmente rompe sua condição social e econômica. Ele perde oportunidades de desenvolvimento, é desgastado fisicamente, mantido alheio ao processo de produção e impedido de buscar aprimoramento.
O nacional-desenvolvimentismo
O período que vai da década de 1930 à de 1950 é crucial para debater sobre os direitos conquistados, as perdas sofridas, a atualidade do mundo do trabalho bem como a construção da ideia de desenvolvimento nacional. Naquele momento foram criadas as leis do trabalho, além de grandes indústrias, instituições de formação profissional — como o Senai e Sistema S — e órgãos de pesquisa e desenvolvimento — como o IBGE e o BNDES.
Ao moldar o trabalho urbano, o governo de Getúlio Vargas investiu na formação de trabalhadores, em um mercado consumidor e, sobretudo, na transformação do povo trabalhador em cidadãos.
Mas, apesar de muitas dessas transformações seguirem como base estrutural do país, a legislação trabalhista desde sua origem foi continuamente atacada. Ataques que se intensificaram com a ditadura militar e que, paradoxalmente, não cessaram com o advento da redemocratização.
Tanto a ditadura quanto partidos que lutaram contra ela e que ascenderam ao poder na Nova República, tinham um ponto em comum: eram antivarguistas e condenavam a política responsável pela criação das grandes empresas nacionais e da legislação trabalhista.
Inserido em um cenário internacional de crise econômica e guiado por essa mentalidade, que associava as conquistas das décadas de 1930 a 1950 à “velharia” e ao atraso, o Brasil ingressou em um processo de desindustrialização, desinstitucionalização e desregulamentação — do qual nunca se recuperou completamente.
A experiência de 1985
Na década de 1980, ainda no fim da ditadura militar, as empresas começaram a introduzir novos sistemas de produção e tecnologias. E, neste ponto podemos falar sobre nossa própria experiência.
O desemprego gerado naquele processo nos motivou a lutar pela redução da jornada, afinal, percebemos que a medida poderia manter empregos. Desta forma, como sindicalistas, lutamos, em 1985, e conquistamos a redução de 48 para 44 horas.
Para falar sobre aquela luta, e do papel fundamental das convenções coletivas, voltamos às greves de 1978 e 1979, quando os trabalhadores se insurgiram contra as perdas salariais denunciadas pelo Dieese (em 1977) e obtiveram, como uma das principais conquistas, a retomada dos acordos e das convenções e das coletivas.
Além da campanha salarial e de reivindicações especificas que as convenções passaram a permitir, a luta pela redução da jornada foi uma bandeira de extrema importância e que uniu trabalhadores de vários sindicatos.
E, em 1985, mesmo sob pressão da ditadura, a mobilização unificada encorajou os trabalhadores e conseguimos fazer uma greve com diferentes categorias, garantindo a redução de jornada nas convenções coletivas.
No contexto da formulação da nova constituinte, os trabalhadores puderam eleger um grande número de deputados e, através desse movimento, a redução da jornada conquistada pelos em 1985 foi debatida no Congresso e incorporada à Constituição Federal de 1988.
A partir de então, diversas categorias – bancários, químicos, petroleiros, metalúrgicos, alimentação, conseguiram reduzir ainda mais a jornada em seus acordos coletivos.
Recessão e resistência
Na década de 1990, porém, a recessão, o desemprego e o avanço da terceirização e da informalidade colocaram o movimento sindical em uma posição defensiva. O país começava a sentir os efeitos da desindustrialização e da desorganização do trabalho — fenômenos que se aprofundariam nas três décadas seguintes.
Com o enfraquecimento das organizações de esquerda no mundo pós-Guerra Fria, as crises sistêmicas — que deveriam provocar uma reação progressista —, ao contrário, fortaleceram uma direita extremista e golpista.
Os governos petistas de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, mesmo em meio à crise do capitalismo, ainda promoveram avanços para a classe trabalhadora e para o povo através de políticas públicas e programas sociais. Sofrendo, entretanto, contínuos golpes que limitaram sua ação.
A realidade atual — baixos salários, alta informalidade, longas jornadas, a falsa ideia de empreendedorismo e a explosão do trabalho de aplicativos — decorre dessa sequência histórica, fundamentada na noção de que o Brasil está condenado à dependência e de que o mercado deve regular a sociedade. É uma trajetória que rompeu com o processo de formação cidadã do trabalhador, oprimindo-o e desorganizando-o.
A luta pelo fim da escala 6×1
A pertinência da luta pelo fim da escala 6×1 surge como um grito de desespero frente a exploração desenfreada, a exemplo de 1917.
Por trás dela, porém, reside não apenas um amplo desmonte da legislação trabalhista, como também um modelo de desenvolvimento – aprofundado nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro – que condena o Brasil ao atraso.
Por isso ela deve se inserir em um projeto de fortalecimento da soberania que promova emancipação popular ao invés de ser instrumentalizada pelas forças dominantes como mais uma manobra para dividir e enfraquecer as organizações de trabalhadores – os sindicatos[3].
Neste sentido, é preciso considerar que:
A lei que rege a escala demanda a formalização do trabalho. É preciso lutar pela ampliação da CLT. O desmonte da legislação empurra trabalhadores para a informalidade gerando um aumento de trabalhos do tipo “plataformizados”.
É preciso pontuar a diferença entre escala e jornada e reforçar as negociações e convenções coletivas como essenciais para contemplar as nuances de cada trabalho e as necessidades de cada trabalhador. Segundo o consultor jurídico César Augusto Mello[4]:
“É preciso analisar as diferenças entre os diversos setores econômicos. Não é razoável impor a redução da jornada de forma uniforme sobre, por exemplo, o setor de transportes e o setor de supermercados, visto que as condições de trabalho e as demandas correspondentes são muito variadas”.
E, muito importante, é preciso pensar que a efetivação de uma conquista de mais tempo livre para o trabalhador deve passar pelo Congresso Nacional e, sobretudo, deve contar com o sindicato de cada categoria tanto para ser formulada quanto para ser implementada.
Isso nos leva à conclusão de que a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 são demandas justas e urgentes, que só podem avançar articuladas à revalorização dos sindicatos, dos acordos e das convenções coletivas, por meio de um esforço político e social orientado ao desenvolvimento nacional e ao investimento contínuo na classe trabalhadora.
O debate sobre a escala 6×1 deve, portanto, ser recolocado sob tal perspectiva: a de que se trata de um reflexo da perda de direitos, da precariedade produtiva de um modelo dependente, do rebaixamento das condições de trabalho, do avanço da informalidade e, sobretudo, da necessidade não só de recuperar o que foi perdido em 2017, como de avançar mais.
Miguel Eduardo Torres é presidente da Força Sindical;
Ricardo Patah é presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT);
Antonio Neto é presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB);
João Carlos Gonçalves (Juruna) é secretário-geral da Força Sindical;
Francisco Canindé Pegado é secretário-geral da União Geral dos Trabalhadores (UGT);
Álvaro Egea é secretário-geral Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB).
[1] MELO, Raimundo Simão de. Sete anos depois, reforma trabalhista é reconhecida como precarizante. Consultor Jurídico, 27 set. 2024, 8h.
[2] DEL ROIO, José Luiz. José Luiz Del Roio comenta e contextualiza a Greve Geral de 1917. Entrevista concedida a André Cintra. Edição de Carolina Maria Ruy. Memória Sindical Entrevistas (YouTube), 29 nov. 2017. Gravado no CEDEM, São Paulo, em 14 abr. 2017.
[3] XAVIER, Bruno; ROCHA, Isabela. Sindicatos perdem espaço para redes sociais em reivindicações trabalhistas. Folha de S.Paulo, São Paulo, 6 jul. 2024, 23h00. Acesso em: 19 dez. 2025.
[4] MELLO, Cesar Augusto de. A necessária negociação coletiva (excluída) na implementação da jornada 6 x 1. Rádio Peão Brasil, 5 dez. 2025. Disponível em: <URL do artigo>. Acesso em: 19 dez. 2025.
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Rui Ribeiro
7 de abril de 2026 12:41 pmA sua afirmação segundo a qual o aumento da produtividade é resultado de desemprego ao mesmo tempo em que resulta em mais desemprego, caso ela não seja utilizada para reduzir a jornada de trabalho e/ou para elevar os salários, está correta em grande parte, especialmente no curto prazo e sob a ótica da redução de custos operacionais. Aumentar a produtividade significa, por definição, produzir mais com menos (menos tempo, menos recursos ou menos trabalho humano).
Aqui estão os pontos que confirmam a sua análise, fundamentados em estudos sobre o tema:
Menos trabalhadores, mesma produção: Quando uma empresa implementa novas tecnologias ou métodos mais eficientes, ela consegue produzir a mesma quantidade de produtos (ou até mais) com menos funcionários.
A “massa salarial menor”: Como a produtividade permite manter a produção com um número menor de trabalhadores, a empresa reduz seu custo com salários (massa salarial) ou, no mínimo, evita aumentar o salário médio proporcionalmente ao aumento da produtividade.
Desemprego estrutural: A substituição de trabalho humano por máquinas ou processos eficientes gera, em um primeiro momento, desemprego direto e precarização das relações de trabalho.
Porém, há nuance:
Longo Prazo/Reinvestimento: Economistas argumentam que o aumento de produtividade diminui os custos, o que pode baixar os preços. Isso estimula a demanda, permitindo que a empresa cresça e, eventualmente, recontrate ou contrate em outras áreas (efeito compensação).
Produtividade não é só demissão: A produtividade também pode aumentar com melhores condições de trabalho, qualificação profissional e treinamento, não apenas por “downsizing” (redução de pessoal).
Portanto, a sua lógica está correta ao apontar que o aumento de produtividade, visto como ferramenta de redução de custos, leva à diminuição da necessidade de mão de obra e a uma menor massa salarial.
– Mas é possível elevar a produtividade e reduzir preços sem necessariamente recorrer a demissões. Você não acha?
Com certeza. O aumento da produtividade é, teoricamente, o motor que permite que uma economia cresça de forma saudável, reduzindo custos unitários e, consequentemente, os preços finais sem necessariamente recorrer a demissões.
Essa visão é o que muitos economistas chamam de “círculo virtuoso da produtividade”. Funciona assim:
1. Redução de Custos sem Cortes de Pessoal
A produtividade aumenta quando a empresa consegue produzir mais com os mesmos recursos. Isso pode vir de:
Tecnologia e Automação: Ferramentas que ajudam o trabalhador a ser mais rápido ou preciso.
Melhoria de Processos: Eliminação de desperdícios na logística ou na linha de produção.
Capacitação: Funcionários treinados erram menos e produzem com mais qualidade no mesmo intervalo de tempo.
2. O Repasse para os Preços
Quando o custo para produzir cada unidade cai, a empresa ganha uma “folga” financeira. Ela tem três caminhos principais:
Reduzir o preço: Para ganhar mercado e atrair mais clientes (competitividade).
Aumentar salários: Dividir o ganho de eficiência com quem o gerou (teoria do salário eficiência).
Reinvestir: Usar o lucro para crescer, o que pode até gerar novas contratações em vez de demissões.
3. O Fator Demanda
Se a empresa aumenta a produtividade e baixa os preços, a demanda pelo produto tende a subir. Se a demanda subir o suficiente, a empresa precisará manter (ou até aumentar) o quadro de funcionários para dar conta do volume maior, mesmo sendo mais produtiva por pessoa.
O “porém”: Na prática, o repasse da produtividade para a redução de preços depende muito da concorrência. Em mercados com pouca competição (monopólios), a empresa pode preferir manter os preços altos e embolsar todo o ganho de produtividade como lucro acionário. No entanto, em um cenário competitivo, a redução de preços é quase uma obrigação para não perder espaço para os rivais.
– Mas a elevação da produtividade também pode possibiltar a redução da jornada de trabalho sem prejuízo dos salários e do emprego. Você não concorda?
Exatamente! Essa é a quarta via, frequentemente defendida em debates sobre o futuro do trabalho e a economia do bem-estar.
Reduzir a jornada de trabalho mantendo o salário (ou reduzindo-o menos que a jornada) é uma forma de distribuir os ganhos de produtividade diretamente com quem produz: o trabalhador.
Aqui estão os principais pontos dessa opção:
1. Manutenção do Emprego e Renda
Em vez de demitir 20% da força de trabalho porque as máquinas ficaram mais rápidas, a empresa pode reduzir a jornada de todos em 20%. Isso mantém a massa salarial circulando na economia e evita o custo social do desemprego.
2. O Ganho de Qualidade de Vida
A “folga” financeira se transforma em tempo. Historicamente, foi assim que passamos de jornadas de 16 horas diárias na Revolução Industrial para as 40 ou 44 horas semanais de hoje. A tecnologia permitiu produzir o necessário em menos tempo.
3. Aumento Indireto da Produtividade
Estudos recentes (como os testes da “semana de 4 dias”) mostram que trabalhadores que descansam mais e têm mais tempo livre:
Cometem menos erros.
Têm menos problemas de saúde (burnout, estresse).
Produzem com mais foco durante as horas em que estão na empresa.
Ou seja, a redução da jornada pode gerar um novo salto de produtividade.
4. O Desafio da Implementação
Para que isso aconteça em larga escala, geralmente é necessário:
Pressão Sindical ou Leis: Como o objetivo da empresa privada é maximizar o lucro, ela tende a preferir a demissão ou a retenção do lucro, a menos que haja um acordo coletivo ou legislação que incentive a redução da jornada.
Concorrência: Se apenas uma empresa reduz a jornada e as outras demitem para baixar preços drasticamente, a primeira pode perder competitividade no curto prazo (embora ganhe em retenção de talentos).
Em resumo: Reduzir a jornada é a forma mais humanista de lidar com o avanço tecnológico. Em vez de “excesso de braços” virar desemprego, ele vira “abundância de tempo”.