Lula e o desejo puro de Antígona, por Rita Almeida

Lula sabe pensar com os pés. Por isso, psicanaliticamente falando, é um sujeito livre da pior prisão de todas: da neurose. Lula, apesar de preso, está livre.

Foto Ricardo Stuckert

Lula e o desejo puro de Antígona, por Rita Almeida

A Grécia Antiga é famosa por suas tragédias, com seus heróis e heroínas. Escrita por Sófocles, a tragédia de Antígona conta o seguinte: Como punição para os famosos crimes de Édipo (matar o próprio pai e desposar a mãe), Creonte, o rei, determinou que nem Édipo, nem seus descendentes, teriam direito a um enterro tradicional. Seus corpos deveriam ser simplesmente abandonados na floresta, a fim de servirem de alimento aos animais, e qualquer um que ousasse desobedecê-lo seria condenado à morte. Antígona é uma das filhas de Édipo que, diante da morte do irmão, escolhe desobedecer a lei de Creonte e enterrá-lo, mesmo sabendo que pagaria por seu ato com a própria vida. O ato heroico de Antígona, portanto, foi escolher colocar em causa seu desejo (de enterrar dignamente o irmão), e assumir as consequências do mesmo.

Lacan, psicanalista francês, usa a tragédia de Antígona para tratar da ética da psicanálise; que é a ética do desejo. Antígona nos ensina, na leitura de Lacan, que assumir o próprio desejo, pode significar uma transgressão solitária a uma norma, lei ou bem universais, e que isso sempre implica em uma perda. Por isso, ao contrário do que se pensa, seguir o próprio desejo não implica em gozar, não é uma espécie de caminho garantido para a felicidade ou sucesso, mas, por outro lado, é o único meio pelo qual o sujeito pode assumir a condição de protagonista da própria existência. Movido pelo desejo, o sujeito não faz da expectativa do outro (social) um álibi para suas decisões, ele age em nome próprio, de modo autêntico e singular, tomando as rédeas da própria vida, e responsabilizando-se pelos efeitos do seu ato. Assim sendo, a coragem é característica de tal posição ética.

Antígona leva até o limite a efetivação do próprio desejo. Ao preço da própria vida, nossa heroína toma o destino em suas mãos, torna-se uma vítima voluntária, já que escolhe a determinação que a causa. A escolha desejante é, desse modo, um tipo de escolha forçada, da qual o sujeito não recua e nem paralisa, ele dá seu passo. Podendo fazê-lo até mesmo a despeito da lei, das regras ou da moral instituída.

Ao contrário disso, temos a posição neurótica, na qual o sujeito prefere recalcar o próprio desejo, por medo de assumir as possíveis perdas e consequências de suas escolhas. O neurótico é o sujeito que “não anda”, porque está paralisado nos seus pensamentos, sintomas, fobias e culpas. Desse modo, o desejo coloca responsabilidade e culpa como dimensões mutuamente excludentes. Enquanto o desejo move o sujeito em direção a assumir responsabilidades, a culpa paralisa ainda mais o sujeito no seu sintoma.

Resumindo, o sujeito que escapou da neurose e tomou as rédeas da própria existência é aquele que, tal como Antígona, é capaz de fazer valer seu desejo, responsabilizando-se por tudo que poderá vir como consequência desse ato. O sujeito movido pelo desejo é aquele que, como dirá Lacan, “pensa com os pés”.

Leia também:  Jean-Luc Mélenchon: "Defendo a ideia de um novo humanismo"

Fiz todo esse preambulo para tratar da entrevista do (ex) presidente Lula dada à Folha de São Paulo e ao El País, na sexta-feira do dia 26 de abril. Quem supunha ver um velho alquebrado, abatido e emocionalmente fragilizado, assistiu a um homem altivo, motivado, de discurso firme e forte, esbanjando lucidez, conhecimento a respeito dos temas da atualidade, e capacidade de articulação. Um homem transbordando desejo e vitalidade, se dizendo capaz de viver 120 anos, para sair da prisão e continuar na missão que se impôs dentro da política brasileira.

Retomei Antígona, porque foi impossível não vê-la no discurso do (ex)presidente. Eu nunca escondi minha admiração por Lula, por isso, assisti a entrevista imaginando que sentiria pena por vê-lo na condição de prisioneiro. Mas, ao encontrá-lo com o desejo na “ponta da língua” e na “sola do pé”, foi impossível enxergar ali uma vítima passiva, digna da minha piedade. Eu vi Antígona, a heroína de Sófocles, tomada por desejo puro.

A seguir vou destacar, entre aspas, alguns recortes da fala do (ex) presidente, a fim de colocá-lo em “meu divã”. Também estarei eu, “antigonamente”, assumindo os riscos de tal empreitada.

“Tinha muita gente que achava que eu deveria sair do Brasil, ir para uma embaixada, muita gente achava que eu deveria fugir. Eu tomei como decisão que meu lugar é aqui. Eu tenho tanta obsessão de desmascarar o Moro, desmascarar o Dallagnol e a sua turma e desmascarar aqueles que me condenaram, que eu ficarei preso cem anos, mas eu não trocarei a minha dignidade pela minha liberdade.” Já nessa abertura impactante, Lula coloca seu desejo em causa, um desejo que vai na contramão do que ele, supostamente, deveria fazer, ou do que os outros achavam que ele deveria fazer, ou do que ele poderia ter feito para se resguardar, se proteger ou escapar da prisão. Lula escolhe tomar sua decisão solitária e singular, a única que responde ao seu desejo. E ele sabe que essa escolha não é garantia de sucesso ou felicidade. Sabe que ela envolve perdas e riscos, mas, não recua dela, por ser a única que lhe move em direção ao que deseja: sair livre e com sua dignidade restaurada.

“Eu tenho uma obsessão, você sabe que eu não tenho ódio, não guardo mágoa, porque, na minha idade, quando a gente fica com ódio a gente morre antes. Como eu quero viver até os 120 anos, porque acho que sou um ser humano que nasceu para ir até os 120, eu vou trabalhar muito para mostrar a minha inocência e a farsa que foi montada.” Nesse momento, o (ex) presidente anuncia, também, sua rejeição ao sintoma como estratégia para recuar do desejo. Ele sabe que poderia adoecer e morrer, caso não desse esse passo; seria consumido pelo ódio e pela culpa. Lula sabe que seu ato é o único capaz de mantê-lo vivo, ao menos subjetivamente.

Leia também:  OAS culpa Lula por assumir obra deficitária na Bolívia, mas embaixador desmonta delação

“Por isso eu vim para cá com muita tranquilidade. Havia uma briga no sindicato aquele dia entre os que queriam que eu viesse e os que não queriam. E eu tomei a decisão. Eu falei: eu vou, eu vou lá. Eu não vou esperar que eles venham até mim, eu vou até eles…” Aqui temos, novamente, Lula dando, corajosamente, seu passo em direção aos seus carcereiros, por saber que é somente diante deles que poderá cumprir o desejo que lhe concerne, que é o de desvelar a farsa de sua prisão. Ele sabe que, de outro modo, se tornaria apenas um fugitivo, e não um homem em busca de reparação na justiça.

Quando questionado se já pensou que pode ficar preso para sempre, Lula responde: “Não tem problema. Eu tenho certeza que eu durmo todo dia com a minha consciência tranquila.” Lula dorme tranquilo porque não lhe cabe culpa, a verdadeira culpa, (que não é a culpa cristã), a culpa por ceder ao próprio desejo. Ele decide, ao contrário, responsabilizar-se pelo seu ato e, nesse momento, exclui a culpa. Culpa e responsabilidade são afetos disjuntos.

“Então eles sabem que tem aqui um pernambucano teimoso. Eu digo sempre, quem nasceu em Pernambuco e não morreu de fome até os cinco anos de idade, não se curva mais a nada. Você pensa que eu não gostaria de estar em casa? Eu adoraria estar em casa com a minha mulher, com o meus filhos, meus netos, com meus companheiros. Mas não faço nenhuma questão. Porque eu quero sair daqui com a cabeça erguida como eu entrei. Inocente. E eu só posso fazer isso se eu tiver coragem e lutar por isso.” Tal como Antígona, Lula sabe que assumir o próprio desejo não é caminho garantido para felicidade ou sucesso, ao contrário. Encontrar o próprio desejo é uma escolha trágica, que inclui perdas e demanda coragem.

“Tenho muita motivação para estar vivo. Estar vivo e não fazer nenhuma loucura é a forma que eu encontrei de ajudar esse país a se reencontrar com a democracia, se reencontrar com o amor, se reencontrar com a paz. Esse povo tem o direito de ser feliz, tem o direito de viver bem. Então é pra isso que eu existo, e pra isso vou lutar até o ultimo dia da minha vida”. Pessoas que escolheram perseguir o próprio desejo são capazes de chegar a uma síntese como essa. Uma que poder ser escrita na própria lápide, e que diga: “é pra isso que eu existo”.

“Diga-me o seguinte: ‘Lula, você está livre, vai morar nas Bahamas, vamos alugar uma casa pra você lá você vai ter água de coco todo dia de manha. O compromisso é você não fazer política’. Eu digo o seguinte: vou ficar aqui, sem água de coco, sem Bahamas na esperança de que eu vou andar por esse país levantando a cabeça do meu povo pra gente conquistar direitos. (…) E é, por isso, que eu vou brigar, e por isso que eu sei que tem muita gente e que não gosta de mim. Por isso, estou aqui de cabeça erguida, estou aqui com orgulho de defender o povo. Mas gostaria de estar fora, com meus netos e meus filhos.” Mais uma vez, o (ex) presidente enuncia o próprio desejo, escolhendo pagar o preço das perdas que isso lhe impõe. Por isso, ele não é vítima de sua condição, é ator, é protagonista. Lula, guiado por sua escolha desejante, está mais livre do que estaria nas Bahamas.

Leia também:  Tantã Dinheirol e o contexto. Gilmar Mendes e o descontexto, por Armando Coelho Neto

“O dia que eu sair daqui, eles sabem: eu estarei com o pé na estrada. (…) quando eu sair daqui quero sair a pé e ir lá no meio deles.” Lula sabe pensar com os pés. Por isso, psicanaliticamente falando, é um sujeito livre da pior prisão de todas: da neurose. Lula, apesar de preso, está livre.

Lula – nossa Antígona – é heroína da sua própria tragédia e, pela sua condição política, uma heroína da tragédia brasileira também. Só lembro a vocês que os heróis e heroínas trágicos, são bem diferentes dos modernos, que sempre vencem e superam seus obstáculos. As tragédias gregas, não são como os filmes de heróis contemporâneos. O herói trágico nem sempre vence, nem sempre supera seus algozes e desafios, mas, ainda assim, é ele o protagonista. Antígona sucumbiu sob a lei de Creonte, mas é ela quem narra a história e lhe dá um nome. E é isso que nos encanta nos heróis trágicos: eles conseguem, perseguindo o próprio desejo, serem autores ativos e vivos de sua própria história.

Só compreendeu este texto quem chegou até aqui e percebeu que o que está em causa nessa análise de Lula à luz de Lacan e Antígona, não tem nada a ver com uma avaliação de certo ou errado, bem ou mal; não se trata de uma análise moral. Trata-se de reconhecer a impertinente e inabalável posição desejante desse grande líder brasileiro, e mundial.

Lula é um sujeito raro. Não chegou aonde chegou, vindo de onde veio, por mero acaso.

Tomara que viva mesmo, 120 anos! E se depender do desejo que o move, eu não duvido.

LulaLivre

Rita Almeida

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

9 comentários

  1. nelíssimo texto –
    belo no sentido corajoso da visão d libersae e política,
    dimensão da virtude humana da resistencia

  2. Que análise maravilhosa. Realmente, Lula é um líder que o mundo tem necessitado na atualidade. E como Antígona, ele não se abateu ao desejo de estar de pé e ver sua dignidade reestabelecida. #lulalivre.

  3. simplesmente fantástico o texto… brilhante e genial a análise de Lula com o desejo de Antígona, parabéns milhões de vezes..

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome