10 de junho de 2026

M. Hadjab: Da ‘steinização (Weinstein e Epstein) do mundo’

Eles são produtos de um sistema onde: capital econômico, capital simbólico, patriarcado, hierarquias raciais e sociais se entrecruzam.
Epstein e Weinstein - Reprodução

Casos Weinstein e Epstein expõem relação entre capitalismo, patriarcado e hierarquias sociais, segundo análise feminista.
Corpos femininos são espaços de poder biopolítico e vulnerabilidade em contextos de elite e exclusão social.
Interseccionalidade mostra que violência sexual atinge corpos na interseção de gênero, classe e raça, reforçando desigualdades.

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Da “steinização ( Weinstein e Epstein) do mundo”: capital, patriarcado e interseccionalidade das dominações.

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por Mohammed Hadjab

Os casos envolvendo Harvey Weinstein e Jeffrey Epstein não se limitam ao escândalo penal. Eles revelam uma articulação profunda entre capitalismo, patriarcado e hierarquias sociais. Para compreender seu alcance, é necessário mobilizar as análises feministas e interseccionais.

1 – O feminismo materialista: a sexualidade como relação de poder

A jurista feminista Catharine MacKinnon demonstrou que o assédio sexual não é um desvio individual, mas um mecanismo de manutenção da dominação masculina nas estruturas profissionais.

Nessa perspectiva :

  • O estupro e o assédio não são excessos de desejo.
  • São instrumentos de hierarquização.
  • Consolidam a posição dominante de quem controla os recursos.

Weinstein utilizava o acesso aos papéis como alavanca. Epstein utilizava o dinheiro, presentes e a promessa de ascensão social. Em ambos os casos, a sexualidade estava inserida em uma relação estrutural de desigualdade.

O feminismo materialista insiste: quando o poder econômico e simbólico está concentrado nas mãos de homens em posições dominantes, a violência sexual torna-se um instrumento de reprodução do sistema.

  1. Foucault, o corpo e a biopolítica

Na linha de Michel Foucault, o corpo é o lugar de inscrição das relações de poder. O poder moderno não se limita a proibir; ele produz normas, dependências e vulnerabilidades.

Em Hollywood, a norma do sucesso feminino passa pela validação masculina.
Em Wall Street, o acesso às redes de elite depende de códigos relacionais excludentes.

O corpo das mulheres — e, no caso Epstein, ainda mais o de meninas e adolescentes — torna-se um espaço onde se exerce um poder biopolítico: seleção, controle, uso.

  1. Interseccionalidade: gênero, classe e raça

O conceito de interseccionalidade, desenvolvido especialmente por Kimberlé Crenshaw, permite compreender que as dominações não simplesmente se somam; elas se entrecruzam.

Nos sistemas escravistas, mulheres negras escravizadas sofriam simultaneamente:

  • dominação racial,
  • dominação econômica,
  • dominação patriarcal.
  • Seus corpos eram juridicamente considerados propriedade. A violência sexual era estruturalmente impune.

Hoje, embora os marcos jurídicos tenham mudado, as lógicas interseccionais persistem:

  • Vítimas de origem social modesta dispõem de menos recursos jurídicos.
  • Mulheres racializadas são estatisticamente menos acreditadas.
  • Jovens mulheres que buscam mobilidade social tornam-se particularmente vulneráveis a figuras de poder.

A interseccionalidade mostra que a predação não é aleatória: ela atinge corpos situados na encruzilhada das vulnerabilidades.

  1. Dominação simbólica e silêncio

Pierre Bourdieu descreveu a dominação simbólica como uma violência suave, invisível e interiorizada.

Nos casos Weinstein e Epstein:

  • O prestígio social desencorajava a denúncia.
  • A reputação intimidava.
  • Acordos de confidencialidade neutralizavam a palavra.
  • O silêncio não era apenas uma escolha; era produzido por uma estrutura.
  1. Capitalismo patriarcal e continuidades históricas

O capitalismo não se desenvolveu de forma independente do patriarcado e do racismo. A acumulação primitiva apoiou-se na escravidão, na colonização e na exploração dos corpos.

A dominação sexual de mulheres escravizadas fazia parte da ordem econômica.
Hoje, a mercantilização das imagens e das carreiras pode recriar formas de dependência estrutural.
A continuidade não é jurídica, mas lógica:
quando o poder econômico é massivo e pouco regulado, ele tende a se exercer para além do domínio estritamente econômico.

  1. Sequelas e resistência feminista

Os movimentos feministas contemporâneos romperam a ilusão da excepcionalidade.

Eles mostraram que:

  • A violência sexual atravessa todas as classes sociais.
  • As elites não estão imunes às lógicas patriarcais.
  • A denúncia coletiva pode fissurar a impunidade.

Mas também revelaram que a transformação estrutural exige:

  • redistribuição de poder,
  • fortalecimento da proteção jurídica,
  • transformação das culturas institucionais.

Conclusão: da crítica moral à crítica sistêmica

O enfoque feminista e interseccional permite ir além da personalização dos escândalos. Weinstein e Epstein não são apenas indivíduos desviantes; são produtos e reveladores de um sistema onde: capital econômico, capital simbólico, patriarcado, hierarquias raciais e sociais se entrecruzam.

A “steinização do mundo” pode então ser compreendida como a manifestação contemporânea de uma velha estrutura: a de um poder concentrado que, quando não é contido, tende a converter desigualdade em dominação dos corpos.

Mohammed Hadjab, analista em geopolítica e Relações Internacionais

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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1 Comentário
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  1. Gaspar Alencar

    23 de fevereiro de 2026 3:44 pm

    E aí Nassif, conforme Vida Social Verdade e Transformação de Mario Duayer, perdemos a oportunidade lá no feudalismo. O que ainda será possível fazer? Para mudar a mentalidade das pessoas? Além de resistir? O caos é a única ou última alternativa?

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