Da “steinização ( Weinstein e Epstein) do mundo”: capital, patriarcado e interseccionalidade das dominações.
por Mohammed Hadjab
Os casos envolvendo Harvey Weinstein e Jeffrey Epstein não se limitam ao escândalo penal. Eles revelam uma articulação profunda entre capitalismo, patriarcado e hierarquias sociais. Para compreender seu alcance, é necessário mobilizar as análises feministas e interseccionais.
1 – O feminismo materialista: a sexualidade como relação de poder
A jurista feminista Catharine MacKinnon demonstrou que o assédio sexual não é um desvio individual, mas um mecanismo de manutenção da dominação masculina nas estruturas profissionais.
Nessa perspectiva :
- O estupro e o assédio não são excessos de desejo.
- São instrumentos de hierarquização.
- Consolidam a posição dominante de quem controla os recursos.
Weinstein utilizava o acesso aos papéis como alavanca. Epstein utilizava o dinheiro, presentes e a promessa de ascensão social. Em ambos os casos, a sexualidade estava inserida em uma relação estrutural de desigualdade.
O feminismo materialista insiste: quando o poder econômico e simbólico está concentrado nas mãos de homens em posições dominantes, a violência sexual torna-se um instrumento de reprodução do sistema.
- Foucault, o corpo e a biopolítica
Na linha de Michel Foucault, o corpo é o lugar de inscrição das relações de poder. O poder moderno não se limita a proibir; ele produz normas, dependências e vulnerabilidades.
Em Hollywood, a norma do sucesso feminino passa pela validação masculina.
Em Wall Street, o acesso às redes de elite depende de códigos relacionais excludentes.
O corpo das mulheres — e, no caso Epstein, ainda mais o de meninas e adolescentes — torna-se um espaço onde se exerce um poder biopolítico: seleção, controle, uso.
- Interseccionalidade: gênero, classe e raça
O conceito de interseccionalidade, desenvolvido especialmente por Kimberlé Crenshaw, permite compreender que as dominações não simplesmente se somam; elas se entrecruzam.
Nos sistemas escravistas, mulheres negras escravizadas sofriam simultaneamente:
- dominação racial,
- dominação econômica,
- dominação patriarcal.
- Seus corpos eram juridicamente considerados propriedade. A violência sexual era estruturalmente impune.
Hoje, embora os marcos jurídicos tenham mudado, as lógicas interseccionais persistem:
- Vítimas de origem social modesta dispõem de menos recursos jurídicos.
- Mulheres racializadas são estatisticamente menos acreditadas.
- Jovens mulheres que buscam mobilidade social tornam-se particularmente vulneráveis a figuras de poder.
A interseccionalidade mostra que a predação não é aleatória: ela atinge corpos situados na encruzilhada das vulnerabilidades.
- Dominação simbólica e silêncio
Pierre Bourdieu descreveu a dominação simbólica como uma violência suave, invisível e interiorizada.
Nos casos Weinstein e Epstein:
- O prestígio social desencorajava a denúncia.
- A reputação intimidava.
- Acordos de confidencialidade neutralizavam a palavra.
- O silêncio não era apenas uma escolha; era produzido por uma estrutura.
- Capitalismo patriarcal e continuidades históricas
O capitalismo não se desenvolveu de forma independente do patriarcado e do racismo. A acumulação primitiva apoiou-se na escravidão, na colonização e na exploração dos corpos.
A dominação sexual de mulheres escravizadas fazia parte da ordem econômica.
Hoje, a mercantilização das imagens e das carreiras pode recriar formas de dependência estrutural.
A continuidade não é jurídica, mas lógica:
quando o poder econômico é massivo e pouco regulado, ele tende a se exercer para além do domínio estritamente econômico.
- Sequelas e resistência feminista
Os movimentos feministas contemporâneos romperam a ilusão da excepcionalidade.
Eles mostraram que:
- A violência sexual atravessa todas as classes sociais.
- As elites não estão imunes às lógicas patriarcais.
- A denúncia coletiva pode fissurar a impunidade.
Mas também revelaram que a transformação estrutural exige:
- redistribuição de poder,
- fortalecimento da proteção jurídica,
- transformação das culturas institucionais.
Conclusão: da crítica moral à crítica sistêmica
O enfoque feminista e interseccional permite ir além da personalização dos escândalos. Weinstein e Epstein não são apenas indivíduos desviantes; são produtos e reveladores de um sistema onde: capital econômico, capital simbólico, patriarcado, hierarquias raciais e sociais se entrecruzam.
A “steinização do mundo” pode então ser compreendida como a manifestação contemporânea de uma velha estrutura: a de um poder concentrado que, quando não é contido, tende a converter desigualdade em dominação dos corpos.
Mohammed Hadjab, analista em geopolítica e Relações Internacionais
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Gaspar Alencar
23 de fevereiro de 2026 3:44 pmE aí Nassif, conforme Vida Social Verdade e Transformação de Mario Duayer, perdemos a oportunidade lá no feudalismo. O que ainda será possível fazer? Para mudar a mentalidade das pessoas? Além de resistir? O caos é a única ou última alternativa?