As sementes de ferro
por Felipe Bueno
Ironweed é um filme feito em 1987 que conta a história de duas almas perdidas num frio inverno na cidade de Albany, nos Estados Unidos, no fim dos anos 1930. É uma adaptação do livro de William Kennedy, escrito poucos anos antes, peça derradeira de uma trilogia sobre a América Profunda.
Pelo menos em 90% da duração, acompanhamos a história de Francis Phelan e Helen Archer, vividos por Jack Nicholson e Meryl Streep: são sem-teto, são miseráveis, são alcoólatras excluídos do sonho americano.
Mas é sobre os outros 10% do filme que nós falaremos aqui.
Ignore o spoiler; nos últimos momentos, quando parece que tudo se encaminha para a manutenção do fracasso e do abandono, as coisas, de repente… pioram.
A cena mostra um grupo de hobos olhando para o teto de estrelas, conversando sobre a vida. De repente, uma milícia local ataca, espancando os miseráveis que tentam fugir.
A América é para os americanos, desde que não sejam fracassados e não incomodem.
Phelan e Archer são sobrenomes estrangeiros, como são todas as pessoas que desembarcaram no território hoje demarcado como Estados Unidos da América ao longo dos últimos cinco séculos. A nação nasceu e cresceu assimilando sabedorias e conhecimentos múltiplos que vieram se somar aos originários.
Assim foi, assim será.
Não obstante, existe o ICE.
Poucas siglas representam com tanta precisão a frieza com que um Estado pode agir contra seres humanos, independentemente de sua origem. O nome era desconhecido no noticiário até poucas semanas atrás. Era um mero departamento, o US Immigration and Customs Enforcement. De repente, é personificado não apenas pelo presidente Donald Trump, mas principalmente pelo ítalo-americano (!) Gregory Bovino e suas fardas, trejeitos e atos fascistas.
Dois cidadãos americanos indefesos morreram recentemente protestando contra ações da força liderada por Greg Bovino, que foi obrigado, posteriormente, a sair de cena.
O ICE é um órgão de Estado, mas se identifica plenamente com as políticas do atual governo. Nasceu em 2003, depois do 11 de setembro e no mesmo ano da polêmica ação em busca de armas químicas no Iraque de Saddam Hussein. Você se lembra: liberdade para eles, petróleo para nós.
Filme, livro, ICE, Iraque, Bush, Blair, Trump etc. Podemos incluir a Venezuela e a Groenlândia também. A interminável cornucópia pode ser resumida em um simples contraponto. Eu sou o poder; os outros são simplesmente os outros, pequenos obstáculos que no máximo têm direito de existir.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
grevista
14 de fevereiro de 2026 11:17 amFelipe Bueno se esqueceu de dizer que Ironweed, o filme, é dirigido por Hector Babenco, e deu indicações ao Oscar a Meryl Streep e Jack Nicholson como melhores atores em 1988. Na minha humilde opinião, é o melhor desempenho de Meryl como atriz, completamente fora da caixinha em que se colocou na sua carreira. Além disso, tem Tom Waits. Imperdível! Foi lançado no auge da Era Reagan, a União Soviética sendo destruída pelo traidor Gorba e após o acordo do Plaza Hotel, que coloca fim ao poder econômico ascendente do Japão. Fala dos perdedores, dos que fazem qualquer coisa por um prato de comida, um lugar quente para dormir. Os estadunidenses detestaram.