21 de maio de 2026

Brasil, Venezuela e o BRICS+, por Angelita Souza e Vinícius de Oliveira

O veto brasileiro à entrada da Venezuela no BRICS+ foi o corolário de uma relação já deteriorada.
Reprodução Senado Federal

Presidente Lula afirma que foco do Brasil é fortalecer democracia e bem-estar na Venezuela, não retorno de Maduro.
Brasil vetou entrada da Venezuela no BRICS+ em 2024, gerando tensões e críticas de Maduro e aliados.
Disputa territorial por Essequibo e denúncias eleitorais agravam relação entre Brasil e Venezuela.

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Brasil, Venezuela e o BRICS+

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por Angelita Matos Souza e Vinícius Amaro de Oliveira

Em entrevista concedida a Daniela Lima (5/2/26), disponível no canal UOL, o presidente Lula disse que um eventual retorno de Nicolás Maduro e de sua esposa à Venezuela não constitui a preocupação principal do governo brasileiro com relação ao país vizinho. Segundo ele, o foco está no fortalecimento da democracia, no bem-estar da população venezuelana, no retorno daqueles que foram obrigados a deixar o país e no aumento da produção de petróleo pela PDVSA.

No início de janeiro, o presidente Lula manifestou forte indignação diante da intervenção dos Estados Unidos, defendendo a soberania das nações e condenando a ingerência estrangeira. Era crucial que assim o fizesse: trata-se do maior líder político da região e, certamente, os EUA esperavam uma reação negativa do governo brasileiro.

No entanto, a relação entre os governos do Brasil e da Venezuela já se encontrava desgastada. Em 2024, o Brasil vetou a entrada do vizinho no denominado BRICS+, decisão duramente criticada por representantes venezuelanos e pelo próprio presidente Maduro, que acusaram o Brasil de submissão aos interesses norte-americanos.

A Venezuela contava com o apoio da China e da Rússia, mas ainda assim foi impedida pelo governo Lula de ingressar no grupo. O gesto pareceu uma espécie de recado: politicamente, no BRICS, é o Brasil “quem manda” quando o assunto for América do Sul.

A decisão aumentou as tensões com Caracas, uma vez que, além do veto ao BRICS+, o Brasil não reconheceu a última eleição presidencial de Maduro e se posicionou contra a invasão e eventual anexação de Essequibo, afirmando que o território brasileiro não seria usado para essa finalidade.

A irritação do governo Lula com Maduro se intensificou justamente em função da disputa por Essequibo, na Guiana, diante do temor de que o conflito pudesse atrair forças militares externas poderosas para a região. De forma assertiva, o governo afirmou que o exército venezuelano seria impedido de passar pelo território brasileiro caso a ameaça de anexação não fosse mera bravata.

Somaram-se a esse quadro as denúncias de fraude nas últimas eleições venezuelanas, a cobrança das Atas eleitorais pelo Brasil e a caracterização de Maduro como ditador pela mídia nacional e internacional dominante.

O veto brasileiro à entrada da Venezuela no BRICS+ foi o corolário de uma relação já deteriorada, marcada, inclusive, por manifestações ofensivas do presidente Maduro contra o governo Lula; e devido a cálculos políticos que dizem respeito a vida política no Brasil.

Setores mais à esquerda condenaram a posição do governo, chegando a defender que, caso a Venezuela tivesse sido admitida no BRICS+, a intervenção dos EUA não teria ocorrido (existem várias maneiras de se acreditar que a terra é plana).

Do nosso ponto de vista, o que realmente pesou foram os chamados “fatores internos”. Considerando as eleições este ano no Brasil, parece mais prudente manter distância do (ex-)presidente da Venezuela, que, como mencionado, ofendeu o governo brasileiro.

Nem é preciso ter lido Hobbes para saber que não é inteligente hostilizar quem pode te ajudar ou prejudicar, entra no pacote as “gracinhas” com relação às ameaças do governo Trump, talvez acreditando contar com China e Rússia para algo além de condenações protocolares. Essas, até mesmo o Brasil, que não dispõe de “poder de bala”, as propiciou, apesar do tratamento desrespeitoso da parte do presidente venezuelano.

Também não se deve descartar que, diante da derrota iminente (a tentativa de negociação com Washington havia malogrado), o presidente Maduro estivesse “chutando o balde”.

Agora, conforme o presidente Lula, cabe ao povo venezuelano decidir o destino do país. E não parece que o retorno do (ex-)mandatário seja a preocupação principal da população, pois, se fosse, estaríamos assistindo a manifestações massivas nas ruas. Vida que segue, de preferência, de prosperidade para a Venezuela.

Por fim, como advertiu o presidente na entrevista, seguiremos falando do presidente dos EUA todos os dias. Hoje (06/02) foi bombardeado um barco no Oceano Pacífico e já teve postagem racista no Twitter (abominável). Mas o povo americano vai se livrar dele, por qual “método”, eis o mistério.

Angelita Matos Souza (docente no IGCE-UNESP)

Vinícius Amaro de Oliveira (discente no IGCE-UNESP)

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