O deslumbramento dos economistas do Plano Cruzado lembrou-me, um pouco, a sensação que me passou Roberto Frankel, um dos pais do Plano Primavera, na Argentina, quando o visitei pouco depois do Plano Primavera, que precedeu o Cruzado.

Ele contava a satisfação de se ver,  depois de um passado enfrentando o regime militar, à frente da economia do seu país.

Em uma ida a Brasilia, fui convidado a uma festa de paulistas na casa de um dos membros da equipe. Ao longe, se via Brasilia, iluminada. Um dos companheiros olhava e se regozijava:

– Pensar que somos em 50 pessoas decidindo o destino do país!

Era compreensível, mas algo assustador. Lembro-me claramente que um dos poucos não deslumbrados era Guilherme da Silva Dias, da FIPE, especializado em economia agrícola. E fiquei aliviado de ter recusado o convite de João Sayad, indicado Ministro do Planejamento, para ser seu assessor de comunicação. Sayad convidou, então, Carlos Alberto Sardenberg.

E foi Sardenberg que me contou uma cena hilária, reveladora do deslumbramento que acometia a todos com a convivência com o mundo irreal de Brasilia. No Aeroporto ele tinha urgência em embarcar para São Paulo e havia enorme fila. Ele pediu para chamar o gerente da companhia e exibiu sua carteirinha de assessor especial do Ministério do Planejamento. O gerente deu uma risada irônica e pediu para ele acompanha-lo até a sala. Lá, mostrou uma pilha de papéis, todos de pedidos para furar a fila de pessoas com a tal carteirinha de assessor especial.

Durou pouco o sonho.

Em pouco tempo começaram as pressões inflacionárias e a sobressair o  salvacionismo do Ministro Dilson Funaro, ótima pessoa, mas, após superar por algum tempo um câncer, se achando dotado da missão de salvar o país.

Houve o episódio de caçar boi no pasto, a tentativa de implementar um estado de exceção contra os especuladores, a campanha dos “fiscais de Sarney”, que assustavam pelo voluntarismo.

Antes do Cruzado começar a fazer água, certo dia Luiz Carlos Mendonça de Barros, então diretor do Banco Central, me convida para um almoço no Maksoud. Mendonça já era um operador vitorioso do mercado, tendo enriquecido ao fazer a aposta correta em uma maxidesvalorização decretada anos antes por Delfim Netto.

No almoço, ele me fez a revelação grave:

– O Saulo publicou um decreto que permite sacanagens nas liquidações extrajudiciais.

Tratava-se de um dos grandes escândalos do período militar. A instituição financeira quebrava, o Banco Central aportava recursos do FGLI (FGDLI. Fundo de Garantia dos Depósitos e Letras Imobiliárias). Vinha a intervenção, o FGDLI se mantinha congelado enquanto os ativos da instituição – em geral imóveis – eram corrigidos pelos preços de mercado. Em seu tempo de Ministro, Mário Henrique Simonsen jamais cuidou de corrigir a distorção, que permitia a todo banqueiro quebrado sair da liquidação com patrimônio intocado.

Sai do almoço aturdido e rumei para um evento em que estava Fernão Bracher, presidente do BC.

Eu tinha uma boa relação com Bracher. Ainda nos tempos de Figueiredo, Mauro Ribeiro, assessor de Mário Garnero, me procurara no Jornal da Tarde para divulgar o almoço anual que Garnero organizava em nada reunião do FMI. Perguntou se desejava algo de lá. Disse-lhe que ficaria muito grato se pudesse passar uma pesquisa entre os presentes, especialmente credores brasileiros. O país tentava a todo custo sair da moratória herdada de Delfim.

Encaminhei um questionário no qual indagava a avaliação dos banqueiros em relação aos diretores do BC, e perguntava quem seria o mais preparado para conduzir as negociações. Deu Fernão Bracher, então Diretor da Área Internacional do BC. A pesquisa deu boa repercussão, melhorou o cacife de Bracher e aumentou a implicância de Delfim com Garnero.

Depois, já no inícios do governo Sarney, quando caiu o Ministro da Fazenda Francisco Dornelles, adiantei no meu programa da TV Gazeta o nome de Bracher como futuro presidente do BC. Era um mero palpite levando em conta as correlações de força na equipe e as relações de Bracher com Funaro. Bracher me ligou agradecendo. E, de fato, pouco depois foi indicado.

Além disso, tinha contatos frequentes com Cândido Bracher, seu primogênito, em alguns dos saraus que fazíamos.

Fui ao evento, puxei Bracher de lado e manifestei minha surpresa com a informação. Ele se mostrou surpreso, mas pelo fato de eu ter sido informado da jogada de Saulo. E confirmou que Funaro havia pedido especial atenção para Saulo não dar sobrevida à indústria das liquidações extrajudiciais..

Sai dali, fui para a Folha. Na ocasião, acumulava a coluna Dinheiro Vivo com a Secretaria de Redação. Chegando lá, informei Otávio Frias do furo. E telefonei para alguns advogados, para saber mais detalhes.

Não consegui falar com Fábio Comparato. Tentei Samuel MacDowell Figueiredo – com que tinha boas relações, mas que, anos depois, me abandonaria na defesa das ações que me movia a revista Veja. E acabei ligando para Ives Gandra da Silva Martins.

Ives confirmou minhas suspeitas:

– De fato, esse decreto do Saulo revoga o parecer Brossard.

Não tinha a menor ideia do que se tratava o tal. Explicou-me que era um parecer de Brossard, reinstituindo a correção monetária sobre o FGDLI. A Folha colocou o repórter Salgado para me ajudar no levantamento.

À noite, escrevi a manchete para a matéria principal e fui para casa. Estava sozinho, já que a família tinha ido para a casa do sogro, em Bragança Paulista.

No dia seguinte chego de manhã no jornal e havia um enorme alvoroço. Dilson Funaro tinha telefonado para lá, atrás de Frias, que não estava. Me passaram o telefone.

Funaro me disse que a reportagem tinha provocado enorme alvoroço no governo, porque poderia trincar a mística dos Cruzado e colocar tudo a perder. Sarney havia convocado uma reunião com Gabinete Civil, Militar, Ministro da Fazenda. E incumbira Saulo de me passar as explicações.

Peguei um carro da Folha e fui até a chácara de Saulo, nas imediações de São Paulo. Ele me recebeu com simpatia, aliás sabia ser simpático quando queria, e me passou uma série de explicações. Disse-lhe que iria checar as informações com minhas fontes, já que não dominava o assunto.

Quando volto para a redação, Salgado veio esbaforido:

– O Ives mijou para trás.

– Como assim?, espantei-me.

– Ele disse que você não entendeu direito as explicações.

Não tinha lógica. Se fosse alguma explicação econômica, poderia supor que eu tirasse outras conclusões, por conhecer a matéria. Mas não em um tema do qual não tinha a menor intimidade. Até então nunca tinha ouvido falar em parecer Brossard. Não poderia ter tirado da minha cabeça.

Liguei para Ives que veio com as explicações estapafúrdias.

Fiquei atarantado. Desliguei o telefone, logo depois me ligou Rubens Approbato Machado, com quem eu tinha montado uma parceria na campanha da OAB contra os reajustes do BNH. Disse-me que Ives tinha ligado para ele, pedindo para me telefonar.

Percebi que Ives tentava me ajudar a encontrar uma saída. Recusei as explicações de Approbato. Se havia errado, assumiria meu erro. E redigi pessoalmente a manchete que praticamente líquidava com a minha carreira.

Fui para casa. Chegando lá, recebi telefonema de Ives.

Me explicou que Mathias MacLine, dono da Sharp e do círculo íntimo de amigos de Sarney, havia telefonado e pedido que ele, na condição de presidente do Instituto dos Advogados do Brasil, desse um parecer em defesa do governo, caso eu não fosse convencido pelas explicações de Saulo.

Era coincidência. Nem sabia que Ives tinha sido a minha fonte.

Mas, ali, caiu a primeira ficha sobre a mudança de posição de Ives.

Na manhã seguinte sou acordado por um telefonema de José Carlos de Assis, ex-repórter da Folha. Anos atrás, Assis havia denunciado a Capemi (Caixa de Pecúlios, Pensões e Montepios Beneficente), ligado aos militares, com um conjunto de reportagens que marcou o fim do regime militar, porque desmontava a tese da honestidade dos militares sobre os civis.

– Por que você voltou atrás?

Expliquei o recuo de Ives.

– Mas sua primeira matéria estava correta.

E me explicou as jogadas que se davam em torno das liquidações, e o fato de Saulo ser um dos advogados que mais se beneficiava com as ações.

Corri de novo para a Folha e telefonei para Frias. Mas, depois da reportagem desmentido do domingo, não havia condições de um novo desmentido.

Iniciei a semana derrubado. Retomei minhas antigas fontes, Comparato e McDowell, que confirmaram o acerto da reportagem inicial. Mas Frias estava inflexível em não retomar o tema.

Cada nova fonte que eu trazia, ele submetia a Walter Ceneviva, seu conselheiro jurídico, que levantava uma pena qualquer para desqualificar a fonte. McDowelll passou a ser “aquele advogado que tivera um caso com a cantora”. De fato, foi o último namorado de Elis Regina.

Recorri a um deputado gaúcho, estreitamente ligado a Brossard, que confirmou minha versão, mas pediu off. Em vão. A Folha não queria voltar ao tema. No início, supus que fora em função das idas e vindas iniciais.

Centro dia, eu estava na sala do Boris Casoy, Frias chegou. Insisti com ele no tema e, mais uma vez ele minimizou minhas fontes. Só que, àquela altura, eu tinha conseguido uma fonte sobre a qual não se poderia lançar nenhuma desconfiança política: o Ministro Sidney Sanches, do Supremo Tribunal Federal.

Dias antes havia ligado para ele e pedido para analisar as explicações q que Saulo havia me passado. Sanches foi direto:

– Quem quer legislar direito, escreve direito.

E me mostrou as nuances jurídicas que abriam brechas para a manutençao da indúsria da liquidação.

Desafiei Frias, então:

– Seu Frias, vou telefonar agora para o Sidney Sanches e lhe passo o telefone para confirmar.

Ele disse que não seria necessário, mas abriu-se uma brecha então para voltar ao tema.

Nos dias seguintes, recebi uma enxurrada de informações sobre Saulo. A mais dramática foi do então deputado Herbert Levy, contando as estripulias de Saulo no mercado de café, no governo Jânio. Houve uma operação que acabou explodindo já no governo Jango, com Carvalho Pinto no Ministério da Fazenda. Nela, incriminaram um diretor do Banco do Brasil que atuara exclusivamente em defesa do banco. Na operações iniciais, o BB havia entrado como avalista dos pagamentos. Se não pagasse, corria o risco de se indispor com parceiros internacionais e de ter afetada sua imagem internacionalmente. Por este motivo, o diretor pagou.

Toda a gana da justiça recaiu sobre ele, que acabou se matando. Conseguiu o telefone da viuva, liguei para ela, julgando que seria a oportunidade de ela limpar o nome do marido. Mas sua reação foi triste:

– Por favor, esse episódio já custou demais para nós. Depois da morte do meu marido, não tivemos direito sequer à aposentadoria., Tive que tirar meus filhos da escola.

Segurei e não dei a matéria.

Tempos depois, fui a Brasília e sou convidado para uma reunião com os cruzados na casa de Fernão Bracher. Estavam todos lá, menos Luiz Gonzaga Belluzzo. Bracher iniciou a conversa dizendo que Saulo resolvera me processar e exigira uma carta dos Cruzados, atestando seu bom comportamento. E eles não tiveram alternativa senão entregar a carta.

– Como assim? Vocês sabem que minha fonte saiu daqui da sala.

Além disso, e quem me contava era um Bracher constrangido, Funaro havia dado espontaneamente uma carta de apoio a Saulo. Surpreendi-me. Tinha preparado um livro sobre o Plano Cruzado e Funaro se comprometera a escrever o prefácio. Bracher ficou atrapalhado e tentou consertar:

– Vou conversar co o Dilson amanhã mesmo e ele vai convencer Saulo a retirar a ação.

Era hipócrita:

– Quer dizer que se o Saulo retirar a ação ele me entrega o prefácio para o livro. E se Saulo não retirar, ele dá a carta para me processar?

O clima na sala era de franco constrangimento. Brinquei com João Manuel Cardoso de Mello, tipo solene e muito irônico.

– Imaginou, João Manuel? No futuro ser conhecido como o professor que apoiou o Saulo?

Saí de lá sabendo que tinha uma guerra pesada pela frente

De fato, nos meses seguintes ingressaria na mais pesada batalha de minha carreira jornalística.

Mas fica para o próximo capítulo.

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