14 de junho de 2026

Memórias de Abril: o ponto que selou o destino de Juarez e Maria do Carmo na ditadura, por Fernando Pimentel

A história pouco conhecida por trás da emboscada que vitimou o dirigente Juarez de Brito e levou à megaoperação contra Carlos Lamarca
Juarez Guimarães ao lado da mulher, Maria do Carmo, se matou ao cair em emboscada (FOTO: Arquivo/O Cruzeiro)

Por Fernando Pimentel

Na data de hoje, 18 de abril, no ano de 1970, dois dirigentes nacionais da VPR –Vanguarda Popular Revolucionária – (Juarez de Brito e sua mulher, Maria do Carmo Brito), mais ou menos no horário em que escrevo essa nota (13 horas), se encaminhavam para uma rua do bairro Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, onde iriam cobrir um ponto com outro companheiro da VPR. 

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Tratava-se de Wellington Moreira Diniz, que tinha sido preso dias antes. Os dirigentes obviamente não sabiam disso, mas aquele era um “ponto de segurança”, vale dizer, um encontro que ocorre quando o militante, tendo deixado de comparecer a pontos anteriores, tem essa alternativa que, se utilizada, sinaliza uma provável prisão. O ponto de segurança pode então ser utilizado para uma operação de resgate, caso as circunstâncias permitam.

Por uma infeliz coincidência, naquela manhã a edição do Jornal do Brasil trazia a notícia da prisão, em Porto Alegre, dos militantes da VPR no Sul, que dias antes tinham tentado sequestrar o cônsul norte-americano naquela cidade. A notícia era manchete, com fotos dos presos tiradas na apresentação à imprensa do dia anterior. 

Mas a prisão de Wellington nada tinha a ver com as quedas do Sul. Anos depois apurou-se que contatos dele com outra organização guerrilheira, a FLN (Frente de Libertação Nacional), liderada pelo ex-major Joaquim Pires Cerveira, teriam originado a informação que levou à queda.

De todo modo, certamente Juarez e Maria do Carmo tinham lido o jornal, e redobrado a cautela no ponto. Mesmo assim, ao se depararem, ainda de longe, com Wellington no volante do jipe que ele utilizava normalmente, mas com o rosto marcado pelos hematomas das pancadas e com visíveis sinais de abatimento devido às torturas sofridas, os dois companheiros decidiram improvisar um resgate, com os meios possíveis.

Na rua em questão ocorria uma feirinha, evento muito habitual na época. Maria do Carmo comprou um pacote de alface e outras folhas, colocou dentro desse embrulho uma arma curta (possivelmente um .38) e pediu a um menino, atendente de alguma barraca, que levasse até o jipe e entregasse ao motorista.

Ocorre que toda a região estava cercada pela repressão. O ponto era, de fato, uma armadilha. O menino foi interceptado, o embrulho não chegou ao destinatário. Wellington estava algemado pelos pés ao banco do jipe, seria impossível fugir.  Maria do Carmo correu para o Volks onde Juarez aguardava ao volante. Mal conseguiram dar a partida e o carro foi alvejado por disparos dos agentes. Baleado num dos braços, Juarez toma a pistola que a esposa empunhava e dispara contra a própria cabeça. Maria do Carmo é imediatamente dominada pelos policiais. Em menos de um minuto, tudo estava consumado. 

No “aparelho” em que moravam Juarez e Maria do Carmo foi encontrado material abundante, com mapas do Vale da Ribeira (área onde se encontrava o comandante Carlos Lamarca e toda a base da futura guerrilha rural da VPR), bem como mapas e fotos da região de Três Passos, no Rio Grande do Sul, nas barrancas do rio Uruguai, fronteira com aquele país, onde estava sendo organizada uma área tática de guerrilha, pela VPR gaúcha.

A gigantesca operação montada no Vale da Ribeira para capturar Lamarca, quando cinco mil soldados foram mobilizados e não conseguiram êxito contra os guerrilheiros, teve origem neste episódio.

Mas o 18 de abril é dia de saudar a memória do companheiro Juarez de Brito, o “Juvenal” da VPR, heroico combatente da resistência naqueles terríveis anos da ditadura militar. E também da companheira Maria do Carmo, a nossa “Lia”, barbaramente torturada, que sobreviveu e foi libertada em troca do embaixador alemão (capturado em junho do mesmo ano), e que nos deixou recentemente. 

Jornal do Brasil de 18-04-1970: notícia da apresentação à imprensa dos acusados pela tentativa de sequestro do cônsul norte-americano. Da esquerda para a direita, Frank, Jorge e Zé.

Por Fernando Pimentel

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