Método na loucura?
por Paulo Nogueira Batista Jr.
Como interpretar os movimentos dos Estados Unidos sob Trump? Há muito de estranho, muito de inesperado nesses movimentos. É loucura pura e simples ou há algum método nessa loucura?
À primeira vista, há aspectos difíceis de reconciliar com a racionalidade. A começar pelo fato de terem os Estados Unidos comprado briga com China, Rússia e Irã ao mesmo tempo. Abriram três frentes de batalha e não estão conseguindo prevalecer em nenhuma delas. Essa guerra em três frentes antecede Trump e foi se configurando desde os tempos de Obama. Trump dá sequência e intensifica essa estratégia (ou falta de). Parece claro que os EUA superestimaram o seu poder e subestimaram os seus adversários. Subestimaram a Rússia, subestimaram a China, subestimaram o Irã. Os três países vinham se fortalecendo e se preparando há tempos para embates com os EUA. Sob ataque imperial, esses três países se aproximaram como nunca, tornando-se ipso facto ainda mais fortes.
É verdade que Trump, desde 2025, tentou se desvencilhar dessa sinuca de bico em que os EUA haviam se metido. Buscou encerrar a guerra na Ucrânia; tentou evitar a guerra contra o Irã. Os europeus garantiram a continuação da guerra na Ucrânia e arrastaram os EUA de volta para o conflito. Israel e o poderoso lobby sionista impediram a paz no Oriente Médio e empurraram Trump para o ataque ao Irã. O que Trump pretendia, ao que parece, era pacificar ou pelo menos reduzir a intensidade das conflitos no Leste da Europa e na Ásia Ocidental para concentrar esforços na contenção do principal rival – a China. Os chineses são os grandes beneficiários do fracasso de Trump em se desvencilhar dessa herança geopolítica problemática.
Mas existe um outro aspecto talvez ainda mais estranho da estratégia de política externa estadunidense sob Trump, este não herdado por ele de governos anteriores. Depois de abrir três frentes de luta, em 2025 os EUA passaram a minar os próprios aliados de forma agressiva. O lema parece ser: unir os inimigos e distanciar-se dos amigos.
Não é exatamente o contrário do que se deveria esperar? Se a ideia é enfrentar Rússia, China e Irã ao mesmo tempo, não seria lógico buscar estreitamento dos laços com nações aliadas? Em outras palavras, reforçar a coesão do assim chamado Ocidente coletivo?
Duvidoso que ainda se possa falar em “Ocidente coletivo”. O que antes de Trump parecia um bloco razoavelmente coeso foi fragmentado, talvez irreversivelmente. O governo americano vem se valendo de uma combinação de ameaças e medidas hostis contra países amigos ou neutros de todos os continentes. A repentina guinada da superpotência deixou esses países desorientados. Vale mais do que nunca a advertência de Henry Kissinger: é perigoso ser inimigo dos Estados Unidos e mais perigoso ainda ser amigo.
Mas volto à pergunta original: há método nessa loucura? No meu entender, a chave é reconhecer dois pontos: 1) O Império deseja manter a sua hegemonia global; mas 2) percebe que o custo econômico de mantê-la tornou-se proibitivo. Como conciliar 1 e 2? Tentando compartilhar a carga com os aliados, à força se necessário. Há indicações de que essa é nova estratégia sob Trump. O custo econômico da hegemonia global se manifesta, de um lado, em graves desequilíbrios fiscais e de balanço de pagamentos e, de outro, em desindustrialização da economia. Esta última, por sua vez, mina a capacidade de defesa do Império. Vejamos como os EUA tentam administrar essa situação problemática.
Como vem sendo tratados os europeus, os aliados antes preferenciais? A Europa está sendo pressionada como nunca a aumentar seus gastos militares e assumir uma parcela maior do orçamento da OTAN. Isso está sendo feito de forma aberta, com ameaças públicas. Se bem-sucedida, a pressão sobre os europeus permitiria economia de despesas, favorecendo o equilíbrio das contas públicas. Além disso, os americanos esperam que a Europa se abasteça de equipamentos nos EUA, contribuindo para o fortalecimento da sua base industrial de defesa. Como se isso não bastasse, Trump ainda ameaça, volta e meia, tomar a Groenlândia à força. Os europeus, intimidados, parecem não saber o que fazer.
No que diz respeito à política econômica, o governo dos EUA passou a usar tarifas de importação de maneira generalizada e inédita. Como instrumento, as tarifas sobre importações têm a vantagem potencial de atingir três objetivos ao mesmo tempo: aumentam a arrecadação federal, diminuem o desequilíbrio externo e favorecem a substituição de importações por produção industrial doméstica. A vantagem é potencial porque esses objetivos só podem ser alcançados simultaneamente se a elasticidade-preço das importações é relativamente baixa. Nesse caso, o volume importado não cai na proporção do aumento da tarifa, resultando em maior receita para os cofres públicos. Ao mesmo tempo, porém, os efeitos sobre contas externas e substituição de importações são necessariamente mais limitados, uma vez que a queda dos volumes importados é menor do que seria se a demanda fosse mais elástica a preço. De qualquer modo, dentro de certos limites, a tarifa pode matar três coelhos com uma cajadada, algo raro em matéria de política econômica.
Há um agravante do ponto de vista dos aliados europeus e outros. Os EUA querem maximizar o impacto positivo do aumento tarifário em detrimento dos parceiros comerciais. Pressionam os países europeus e outros aliados a encaixarem o aumento tarifário sem reciprocidade, isto é, a suportar as tarifas aumentadas sem aumentar as suas tarifas sobre exportações dos EUA, pelo menos não na mesma proporção. O aumento das tarifas deve ser obrigatoriamente assimétrico. Em caso de resistência dos parceiros, os EUA ameaçam elevar ainda mais as tarifas.
Os europeus espernearam um pouco, mas acabaram se submetendo. A assimetria tarifária que se instalou reflete a assimetria de poder. De poder militar e de poder econômico. Desde a Segunda Guerra Mundial, os europeus dependem para sua defesa do guarda-chuva americano. Essa dependência militar agora cobra seu preço. E do ângulo econômico, os EUA se valem do tamanho do seu mercado nacional. Insistir na confrontação cobraria o preço de perder ainda mais acesso a esse mercado, algo que pode ser altamente custoso para aqueles países que exportam grande parte da sua produção para os EUA.
Do ponto de vista dos europeus e outros países do Ocidente, nunca os americanos se mostraram tão pouco confiáveis, tão traiçoeiros.
Tratamento semelhante, com efeitos semelhantes, tem sido aplicado a outros aliados tradicionais – Canadá, Japão, Coreia do Sul, notadamente – e também a países que mantêm ou mantinham boas relações com os EUA, a exemplo do Brasil. Há uma padrão geral que se repete, sugerindo que existe, sim, algum método no que parece simples loucura. Os mesmos métodos ou semelhantes acima resumidos foram aplicados a todos ou quase todos os aliados. As reações foram quase sempre tímidas.
Apesar da passividade dos aliados, a estratégia dos EUA apresenta problemas intrínsecos e talvez não esteja à altura dos objetivos perseguidos, isto é, a preservação do Império global e a partilha dos custos imperiais com aliados e outros países. Os desequilíbrios das contas externas e, em especial, das contas públicas são enormes. Não existe uma coligação política capaz de sustentar o ajustamento fiscal requerido. Por outro lado, a desindustrialização da economia avançou muito e não é nada fácil revertê-la. O principal instrumento com que conta o governo Trump tem limites claros, como já indiquei. As tarifas estão sendo sobrecarregadas sem apoio de outras dimensões da política econômica. A recuperação da indústria depende de uma política industrial mais ampla e não será alcançada apenas com tarifas sobre importações. O reequilíbrio das contas públicas, dada a sua extensão e persistência, também não poderá ser alcançado apenas com aumentos de tarifas de importação, requer disciplina nos gastos e o recurso a outros tributos.
Em suma, há alguma lógica nos movimentos dos EUA. Mas é uma lógica imperfeita para dizer o mínimo. O tempo dirá, mas é duvidoso que a estratégia seguida seja bem-sucedida.
Seria surpresa se o fosse. Unir inimigos e distanciar aliados só poderia dar certo se o poder do Império fosse bem maior do que os americanos imaginam.
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Paulo Nogueira Batista Jr. é economista e escritor. Foi vice-presidente e fundador do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais 10 países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou pela Editora Contracorrente o livro Estilhaços, em 2024.
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Fábio de Oliveira Ribeiro
24 de julho de 2026 10:28 amOs norte-americanos fazem guerras por motivos geopolíticos e econômicos. A motivação econômica é diversificada: acesso a mercados, petróleo e atualmente a terras raras, mas também a venda de armamentos convencionais e sistemas de armas sofisticados “made in USA” que foram utilizados nos conflitos militares. Todavia, os negócios da guerra nem sempre resultam em benefício apenas para os fabricantes de armamentos norte-americanos.
A guerra da Coréia também serviu para promover os tanques T-34-85s e caças MIG-15 da URSS. A guerra do Vietnan foi lutada com diversos sistemas de armas, mas o que predominou na selva foi o AK-47, um fuzil robusto, fácil de manuear e de reparar. Essa arma superiu o fuzil M-16 dos EUA. O AK-47 seria utilizado em diversos outros teatros de operação militar, causando danos às tropas dos EUA e dos seus aliados no Iraque e principalmente no Afeganistão.
A guerra do Irá virou uma vitrine para os mísseis e drones iranianos, armas eficazes e em alguns casos muito mais baratas do que qualquer coisa utilizada inutilmente pelos norte-americanos e aliados para se defender. O que o governo dos EUA fará quando esses produtos iranianos começarem a ser exportados: taxar o Irã, taxar o país destino dos drones e mísseis iranianos?
O negócio da guerra é uma lamina de dois gumes com duas pontas, algumas vezes ela fere mais quem a começou e parece mais poderoso. No Irã os norte-americanos foram feridos não apenas em seu orgulho, eles não tiveram apenas prejuízos bilionários resultantes da destruição de bases militares, radares, aviões e outros equipamentos militaes caros. A saúde futura das fábricas de armamentos “made in USA” pode acabar sendo comprometida, quer porque o Irã surge como um concorrente capaz de produzir e exportar sistemas de armas eficazes e mais baratos quer porque os observadores já notaram que os armamentos “made in USA” não protegeram realmente seus maiores compradores no Oriente Médio.
Algum especialista precisará estudar de perto os efeitos econômicos da guerra do Irã levando em conta não apenas a questão do petróleo e da navegação no Estreito de Ormuz.
Antonio Uchoa Neto
24 de julho de 2026 10:49 amCreio que os ganhos da especulação financeira também fazem parte do método da loucura do Trumptelho.
AMBAR
24 de julho de 2026 5:18 pmSe os americanos estão se atrapalhando, seus inimigos não devem interrompe-los.