Michel Temer interpretou Frank Underwood, Juan Guaidó interpreta Oliver Queen

No Brasil a dramaturgia política e jurídica inspirada por House of Cards conseguiu esvaziar totalmente o conteúdo da democracia

Michel Temer interpretou Frank Underwood, Juan Guaidó interpreta Oliver Queen

por Fábio de Oliveira Ribeiro

A Lei Internacional só permite operações militares em duas situações: 1- legítima defesa em caso de agressão externa injusta; 2- cumprimento de uma resolução aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU. Guerras motivadas por interesses territoriais, comerciais, financeiros, econômicos ou petrolíferos são proibidas.

Há alguns dias, o Secretário de Estado Mike Pompeo anunciou que uma intervenção militar dos EUA na Venezuela é legal. Ele está errado. Primeiro porque a Venezuela não atacou e não pretende atacar militarmente o território dos EUA. Segundo porque Rússia e China podem vetar no Conselho de Segurança da ONU qualquer proposta resolução que autorize uma agressão norte-americana ao regime de Caracas.

A afirmação de Mike Pompeo, entretanto, funciona como uma declaração formal da pretensão dos EUA de iniciar uma guerra ilegítima com ou sem autorização da ONU. Além disso, desde a invasão do Iraque a comunidade internacional sabe exatamente o que os governantes norte-americanos entendem por “legalidade”. No imaginário deles, a legalidade e a justiça são idênticas à conveniência do mais forte.

Nesse momento, porém, não pretendo debater o conceito de legalidade e justiça dos piratas norte-americanos. Quem quiser saber mais sobre o assunto pode consultar o verbete de Trasímaco na Wikipédia https://pt.wikipedia.org/wiki/Tras%C3%ADmaco. A afirmação de Pompeo me fez refletir um pouco sobre o drama venezuelano e então eu me lembrei de um detalhe importante.

Quando o golpe brasileiro começou a ser esboçado (refiro-me a famosa cartinha de Michel Temer para Dilma Rousseff que vazou para a imprensa), várias pessoas perceberam que o vice-presidente brasileiro poderia estar usando o roteiro da série norte-americana House of Cards https://jornalggn.com.br/televisao/a-carta-de-frank-underwood-para-o-presidente-na-serie-house-of-cards/. A imprensa internacional foi um pouco além. Na Alemanha um jornalista disse ironicamente que a política brasileira era “melhor” que o referido seriado de TV https://www.dw.com/pt-br/jornal-alem%C3%A3o-diz-que-pol%C3%ADtica-brasileira-%C3%A9-melhor-que-house-of-cards/a-19114316.

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Algo semelhante pode estar ocorrendo na Venezuela. O roteiro empregado por Juan Guaidó, entretanto, é outro. O autoproclamado presidente venezuelano está seguindo passo a passo o desenvolvimento da quarta temporada da série Arrow, exibida nos EUA entre outubro/2015 e maio/2016.

No princípio da temporada, o herói Oliver Queen decide disputar a eleição para prefeito. Pressionado por Damien Darhk ele desiste de fazer isso e outra pessoa é eleita (a esposa do vilão). Não vou entrar nos detalhes do que ocorre em todos os capítulos, pois os interessados podem recorrer à Wikipédia https://pt.wikipedia.org/wiki/Arrow_(4.%C2%AA_temporada). Todavia, no último capítulo da temporada ocorre algo muito semelhante ao cenário político que está sendo construído por Guaidó e Mike Pompeo.

Após se revelar um líder capaz de impedir os cidadãos de mergulharem no caos quando a cidade está na iminência de sofrer um ataque, Oliver Queen organiza o povo e combate o poderoso Damien Darhk. Após a derrota do vilão, uma autoridade se apresenta dizendo que observou o que estava ocorrendo e empossa o herói como prefeito de Star City. Uma nova eleição não precisou ser realizada.

Do que foi acima narrado, podemos concluir que na teledramaturgia “made in USA” o respeito às formalidades democráticas pode ser considerado irrelevante. Basta alguém poderoso reconhecer as virtudes da pessoa que merece governar a cidade (ou um país) que tudo está resolvido. Esse é exatamente o roteiro que orienta as ações da dupla Juan Guaidó e Mike Pompeo. Não por acaso Nicolás Maduro e seus apoiadores são retratados pela imprensa corporativa norte-americana como se fossem Damien Darhk e seus pistoleiros.

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No Brasil a dramaturgia política e jurídica inspirada por House of Cards conseguiu esvaziar totalmente o conteúdo da democracia. A eleição de Jair Bolsonaro apenas agravou a doença que começou a destruir o sistema constitucional brasileiro durante o Impeachment fraudulento de Dilma Rousseff. Consolidado o golpe “com o Supremo com tudo”, a soberania popular foi expulsa da arena política para que reformas neoliberais pudessem ser impostas à força. Nesse momento é impossível dizer o estrago que golpe de estado inspirado na quarta temporada de Arrow vai causar na Venezuela.

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