21 de maio de 2026

Migrar: um direito humano sob ataque, por Márcia de Oliveira e Tácio Raposo

As migrações de retorno são marcadas por deportações sumárias. Em 2025, já somam 2.230 brasileiros deportados somente dos Estados Unidos.
Reprodução Acnur

ONU instituiu 18 de dezembro como Dia Internacional dos Migrantes em 1990 para proteger direitos dos trabalhadores migrantes.
Conflitos, crises econômicas, mudanças climáticas e políticas restritivas elevam recorde de 281 milhões de migrantes em 2024.
Brasil registrou 194 mil novos migrantes em 2024 e avançou com decreto que orienta políticas de acolhida e proteção.

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Migrar: um direito humano sob ataque

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por Márcia Maria de Oliveira e Tácio José Natal Raposo

Em 18 de dezembro de 1990, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou uma resolução sobre a Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e Membros de Suas Famílias. Desde então, a data passou a ser celebrada como Dia Internacional dos Migrantes.

A atual conjuntura migratória mundial tem sido caracterizada por um crescimento contínuo e pela crescente complexidade de fatores que impulsionam os deslocamentos humanos. Segundo relatórios recentes da Organização Internacional para as Migrações (OIM), o número de pessoas em movimento atingiu níveis recordes, impulsionado principalmente por conflitos, crises econômicas, instabilidade política e a crise climática.

A fragilidade estatal, a intensificação de conflitos e guerras e a crescente desigualdade social produzida pelo capitalismo neoliberal continuam sendo os principais impulsionadores dos deslocamentos forçados no mundo inteiro. As desigualdades de renda, a falta de emprego e as condições econômicas instáveis em países de origem continuam provocando a migração por oportunidades de trabalho e renda, ou as migrações por sobrevivência[1]. Os migrantes por razões econômicas buscam melhores oportunidades de trabalho e perspectivas de vida. O reordenamento internacional do trabalho, a uberização e, mais recentemente a pejotização tem transformado a busca por trabalho e emprego em um verdadeiro calvário.

Eventos geopolíticos como eleições e mudanças de regime podem redefinir normas e políticas migratórias globais. O avanço da extrema-direita em nível global tem gerado deslocamentos e atuado como um fator que influencia a intensidade e as características das migrações com discursos anti migratórios que sustentam e garantem eleições (como o caso dos Estados Unidos e de Portugal). A extrema-direita utiliza a questão migratória como parte de sua plataforma, explorando temores e incertezas para ganhar apoio político e expulsar/deportar dos países os migrantes indesejáveis.

Os eventos climáticos extremos, resultantes das intervenções do modelo capitalista de exploração dos recursos naturais, têm causado secas prolongadas, inundações e elevação do nível do mar, diminuição da produção de alimentos e forçado milhões de pessoas a deixar suas casas em busca de segurança e condições de vida sustentáveis. A migração por motivos ambientais é uma tendência crescente que interage com outros fatores migratórios.

A perseguição, a violência e as violações dos direitos humanos continuam a forçar milhares de pessoas a buscar proteção em outros países. O Relatório Mundial sobre as Migrações publicado no final de 2024 pela OIM, aponta que há um número recorde de pessoas deslocadas globalmente e um significativo aumento da economia das remessas internacionais. Em 2022, havia 281 milhões de migrantes internacionais. O número de pessoas deslocadas à força atingiu a cifra de 123,2 milhões em meados de 2024. Isso inclui 42,7 milhões de refugiados, 73,5 milhões de deslocados internos (DIs) e 8,4 milhões de solicitantes de asilo[2].

Com o acirramento das restrições migratórias nos países mais ricos, houve considerável aumento de novas rotas migratórias controladas por grupos especializados na exploração dos migrantes e no tráfico de pessoas. As políticas anti migratórias apresentadas na forma de restrições resultaram em novas e complexas rotas migratórias. Em resposta, muitos países de destino estão implementando políticas mais restritivas, dificultando os sistemas de proteção e impulsionando o debate sobre migração[3].

No contexto regional, o Brasil reflete as tendências globais e regionais. O país registrou mais de 194 mil novos migrantes em 2024. Venezuelanos, cubanos, haitianos e angolanos compõem os maiores grupos de refugiados e migrantes no Brasil. O país inseriu-se definitivamente nas novas tendências das migrações transfronteiriças e nas chamadas migrações sul-sul[4].

As migrações de retorno são marcadas por deportações sumárias. Em 2025, já somam 2.230 brasileiros deportados somente dos Estados Unidos. Entre 2019 e 2025 já somam 11.310 brasileiros deportados dos Estados Unidos (Dados da Polícia Federal). A procura (caça) aos migrantes, a prisão e a deportação virou um negócio lucrativo nos Estados Unidos. A violência tem sido recorrente nos processos de deportação que ferem o direito humano de migrar. A deportação representa grave violação dos tratados internacionais de Direitos Humanos. Os migrantes retornados enfrentam dificuldades de readaptação e crises financeiras no processo de recomeço.

A OIM e o Banco Mundial estimam que a migração continuará a ser moldada por fatores como mudanças climáticas, conflitos socioambientais e políticos, tendências demográficas e desigualdade de renda. Da mesma forma, o debate sobre políticas de regulação migratória deve se intensificar por uma série de razões complexas e interconectadas. Fatores como as crises climáticas, os conflitos globais, as disparidades econômicas e a ascensão de movimentos nacionalistas e antimigração estão impulsionando o tema para o centro dos debates políticos em todo o mundo. Por outro lado, a migração laboral, muitas vezes silenciosa, continuará a desempenhar um papel crescente, especialmente em contextos de envelhecimento populacional em países mais ricos.

No Brasil, tem crescido o entendimento da migração como um direito humano e o reconhecimento do migrante como um sujeito de direitos graças à Nova Lei de Migração  (Lei 13.445/2017), que garante acesso a direitos sociais fundamentais como educação, saúde, trabalho, moradia e previdência, além de proteção contra a xenofobia e a discriminação.

Mais recentemente o Decreto 12.657, de 7 de outubro de 2025, institui a Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia, de que trata o art. 120 da Lei nº 13.445, de 24 de maio de 2017, e altera o Decreto nº 9.199, de 20 de novembro de 2017 com importantes avanços. O novo Decreto tem como objetivo orientar as ações do poder público relacionadas à acolhida e à proteção de migrantes e refugiados; à prevenção da apatridia e garantia de direitos a pessoas apátridas, inclusão social, econômica e cultural; e à coordenação entre órgãos federais, estaduais e municipais, além da sociedade civil. O novo decreto detalha como essa política deve ser implementada na prática.

Assim, o Dia Internacional dos Migrantes é um convite à reflexão sobre direitos, acolhimento e inclusão. No Brasil, a data reforça um princípio fundamental do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) que garante acesso aos direitos fundamentais independente do país de nascimento, nacionalidade ou status migratório.

Por fim, a celebração do Dia Internacional dos Migrantes é uma data importante para reconhecer a migração como oportunidade e não como um problema. É um dia para protestar contra todas as formas de xenofobia e discriminação dos migrantes. É um dia de luta por dignidade e políticas inclusivas para todos os migrantes que movem o mundo.

Marcia Maria de Oliveira é Doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia (UFAM), com pós-doutorado em Sociedade e Fronteiras (UFRR); pesquisadora do Grupo de Estudos Migratórios da Amazônia (UFAM); Pesquisadora do Grupo de Estudo Interdisciplinar sobre Fronteiras: Processos Sociais e Simbólicos (UFRR); Professora da Universidade Federal de Roraima (UFRR); pesquisadora do Observatório das Migrações em Rondônia (OBMIRO/UNIR). Assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM/CNBB e da Cáritas Brasileira. Membro do Núcleo de Roraima da Rede BrCidades.

Tácio José Natal Raposo é Doutor em Geografia (UNICAMP), pós-doutorado em Geografia (UFRR); Professor da do Programa de Pós Graduação em Agroecologia Ambiente Socida e Amazônia (PPGAASA) da Universidade Estadual de Rorairma (UERR) e Membro do Núcleo de Roraima da Rede BrCidades.


[1] BETTS, Alexander. Survival Migration: A New Protection Framework. Global Governance, v. 16, 2010, p. 361–382.

[2]  Relatório Mundial sobre Migração de 2024 disponível em: https://brazil.iom.int/sites/g/files/tmzbdl1496/files/documents/2024-05/world-migration-report-2024.pdf

[3] Políticas antimigratórias não contribuem para a luta contra o tráfico de pessoas e o contrabando de migrantes. No caso do Brasil, a falta de uma Política Nacional não só enfraquece o sistema de acolhimento, como também coloca em risco a vida e a dignidade de migrantes, refugiados e vítimas do tráfico de pessoas. Disponível em: https://migramundo.com/politicas-antimigratorias-nao-contribuem-para-a-luta-contra-o-trafico-de-pessoas-e-o-contrabando-de-migrantes-entenda-o-porque/#google_vignette

[4] Estudos realizados no Observatório das Migrações da Unicamp e nos trabalhos de BAENINGER, Rosana, et al (Organizadores.).Migrações Sul-Sul. Campinas, SP: Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” – Nepo/Unicamp, 2018 (2ª edição).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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