21 de maio de 2026

Modelos Históricos de Desenvolvimento Municipal, por Fernando N. da Costa

Os cinco modelos de cidades do interior com funcionamento adequado ao Brasil, revelam um mapa para pensar estratégias municipais.
Santa Rita do Sapucaí - MG - Reprodução

Cinco modelos de desenvolvimento municipal no interior do Brasil são cooperativista, agroindustrial, cluster industrial, universitário e turístico.
Cidades prosperam ao combinar recursos territoriais, instituições locais e cadeias produtivas, formando sistemas econômicos dinâmicos.
Governança local, educação técnica, liderança e capital social são decisivos para transformar recursos naturais em desenvolvimento sustentável.

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Modelos Históricos de Desenvolvimento Municipal

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por Fernando Nogueira da Costa

Os cinco modelos históricos de desenvolvimento de cidades do interior com funcionamento adequado ao Brasil (cooperativista, agroindustrial, industrial-cluster, universitário e turístico) revelam um mapa para pensar estratégias municipais. Surgiram em contextos diferentes, mas todos têm algo em comum: um núcleo organizador local capaz de articular produção, instituições e infraestrutura. Cada modelo mobiliza um tipo específico de recurso territorial.

Apresento a seguir um mapa analítico desses modelos e de como funcionam.

O modelo cooperativista é baseado em organização econômica coletiva dos produtores locais, sobretudo no meio rural. Pequenos produtores se associam para comprar insumos, processar produção, armazenar, comercializar e exportar. Isso permite ganhos de escala e poder de mercado. Exemplos notáveis são Cascavel-PR e Toledo-MG. Têm cooperativas importantes: Coamo Agroindustrial Cooperativa e Copacol. Têm impactos na industrialização rural, renda distribuída e forte reinvestimento local. O cooperativismo funciona como instituição econômica territorial.

No modelo agroindustrial, a agricultura se conecta com indústrias de processamento. Cadeia típica é a seguinte: produção agrícola → processamento industrial → logística → exportação ou mercado interno. Esse modelo gera cadeias produtivas completas no interior como mostram os exemplos de Lucas do Rio Verde-MT e Rio Verde-GO, tendo como atividades comuns a produção de soja, carnes, biocombustíveis e alimentos processados. A característica chave é o município virar polo regional do agronegócio industrializado.

O modelo de cluster industrial está baseado em concentração territorial de empresas do mesmo setor. Empresas competem, mas também compartilham fornecedores, treinam mão de obra e difundem inovação. Esse fenômeno é conhecido como arranjo produtivo local (APL). Exemplos clássicos são Franca-SP e Nova Serrana-MG em calçados e Bento Gonçalves-RS em móveis. Suas características são muitas pequenas empresas, especialização produtiva e alta geração de emprego. Esse modelo se desenvolve muito quando há escolas técnicas, associações empresariais e crédito produtivo.

O modelo universitário ou científico permite algumas cidades crescerem a partir de instituições de ensino e pesquisa. Universidades geram formação de capital humano, inovação tecnológica, serviços especializados e empreendedorismo. Além do caso notável de Campinas com a Unicamp, há outros exemplos, entre os quais, a Universidade Federal de Viçosa-MG, forte na área agrícola, Santa Rita do Sapucaí-MG em eletrônica com o Instituto Nacional de Telecomunicações, Campina Grande-PB em tecnologia. Como resultados constituem polos tecnológicos, startups e indústria baseada em conhecimento.

O modelo turístico é possível em algumas cidades, onde se estruturam economicamente a partir de patrimônio natural ou cultural vários tipos de turismo: histórico, ecológico, gastronômico e religioso. Exemplos são Gramado-RS, Bonito-GO, Tiradentes-MG e Poços de Caldas-MG. Seus impactos acontecem em hotéis, restaurantes, artesanato e outros serviços. Esse modelo gera economia intensiva em serviços.

Uma observação crucial é os modelos frequentemente se combinarem. Os casos mais bem-sucedidos não dependem de um único modelo. Por exemplo, Santa Rita do Sapucaí combina modelo universitário e cluster industrial tecnológico. Bento Gonçalves combina cluster industrial e turismo.

O fator decisivo é governança local. Os casos de sucesso normalmente apresentam liderança local, cooperação entre empresas, instituições educacionais, planejamento municipal e identidade territorial, ou seja, desenvolvimento municipal depende de coordenação social e institucional.

Os cinco modelos podem ser resumidos assim:

ModeloMotor EconômicoTipo de Emprego
cooperativistaorganização ruralagroindústria
agroindustrialcadeia agrícolaindústria alimentar
cluster industrialpequenas empresasmanufatura
universitárioconhecimentotecnologia
turísticopatrimônio territorialserviços

Uma observação interessante para políticas públicas é quase todas as cidades médias brasileiras transformadas em polos regionais combinaram educação técnica,  produção local e identidade territorial.

Quanto à razão de algumas cidades do interior prosperarem rapidamente, enquanto outras permanecerem estagnadas, mesmo tendo recursos naturais semelhantes, isso envolve um mecanismo pouco discutido na economia regional brasileira.

A diferença entre cidades do interior, quando umas prosperam rapidamente e outras permanecem estagnadas, mesmo possuindo recursos naturais semelhantes, geralmente não está nos recursos em si. O fator decisivo costuma ser a capacidade de organização econômica e institucional do território.

Esse mecanismo pode ser entendido como a formação — ou ausência — de ecossistemas produtivos locais. Recursos naturais raramente explicam o desenvolvimento

A literatura de Economia Regional mostra os recursos naturais serem apenas condições iniciais. Regiões com terra fértil, água, minerais e localização geográfica favorável podem ter trajetórias completamente diferentes. Isso ocorre porque o desenvolvimento depende de instituições e redes sociais locais capazes de transformarem recursos naturais em atividade econômica complexa porque interativa.

Cidades prosperam ao criarem concentração de atividades interdependentes. Isso gera fornecedores especializados, mão de obra treinada, difusão rápida de conhecimento e redução de custos logísticos. Na economia regional, isso é chamado de Economias de Aglomeração. Quando esse processo começa, forma-se um círculo cumulativo de crescimento.

Em um círculo virtuoso, cumulativo de desenvolvimento, a dinâmica típica ocorre na seguinte sequência: produção inicial → surgimento de fornecedores locais → especialização produtiva → aumento de produtividade → atração de novas empresas → mais empregos e renda → expansão urbana e serviços. Isso gera um processo auto reforçado.

Em um círculo vicioso da estagnação, cidades não conseguem iniciar esse processo  e ocorre o contrário: produção primária isolada → baixa agregação de valor → poucas empresas locais → fuga de mão de obra qualificada → baixa arrecadação municipal → infraestrutura limitada. O resultado é um equilíbrio de baixa complexidade econômica.

Há papel decisivo das instituições locais em cidades capazes de prosperarem. Normalmente, possuem instituições coordenadoras dos interesses econômicos. Essas instituições incluem cooperativas, associações empresariais, escolas técnicas, universidades e agências de desenvolvimento. Exemplos brasileiros ilustrativos são Santa Rita do Sapucaí, polo tecnológico surgido no sul de Minas Gerais com escolas técnicas e institutos de eletrônica, Cascavel no Paraná com desenvolvimento articulado por cooperativas agrícolas e Bento Gonçalves no Rio grande do Sul com cluster industrial e identidade regional produtiva.

Outro fator pouco discutido para a emergência dessa cultura econômica é o capital social local. Isso inclui confiança entre agentes econômicos, cultura de cooperação empresarial, redes familiares e comunitárias e tradição associativa Regiões com forte capital social conseguem criar cooperativas, compartilhar tecnologia e coordenar investimentos. Sem isso, cada empresa atua isoladamente e o território não se desenvolve como sistema.

O papel da liderança territorial também se destaca porque muitas cidades prósperas tiveram lideranças locais articuladoras como prefeitos empreendedores, professores e reitores, empresários locais e dirigentes cooperativistas. Esses atores funcionam como empreendedores institucionais, conectando Estado, empresas e comunidade.

O fator Educação Técnica é um padrão recorrente é sua presença, voltada à economia local. Por exemplo, escolas agrícolas, institutos tecnológicos e cursos técnicos industriais formam mão de obra adaptada ao sistema produtivo regional.

Infraestrutura é uma condição necessária, mas não suficiente. Estradas, energia e internet são fundamentais, mas não criam desenvolvimento sozinhas. Há muitos casos de municípios com boa infraestrutura, mas eles permanecem estagnados porque não existe base produtiva diversificada, instituições locais e coordenação econômica.

Em uma síntese sistêmica, o desenvolvimento territorial pode ser resumido em três níveis interligados: recursos territoriais → instituições locais → cadeias produtivas e inovação. Quando esses três níveis se conectam, surge um sistema econômico local dinâmico.

Em síntese, cidades do interior prosperam quando conseguem transformar recursos naturais em sistemas produtivos complexos. Isto depende de cooperação social, instituições locais, educação técnica, redes empresariais e liderança territorial. Sem esses elementos, os recursos naturais permanecem subaproveitados ou explorados de forma primária, gerando pouca prosperidade local.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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