26 de junho de 2026

Moro, a marcha para o estado de exceção, por Luis Nassif

Com Moro no poder, haveria a volta do aparelhamento da Polícia Federal pelos delegados da Lava Jato; um retorno dos abusos do Ministério Público Federal; a intimidação dos críticos com uso ampliado do poder de Estado, com funcionários cooptamos do COAF, da Receita e a militância política extremada do Judiciário.

As grandes transformações ocorrem após grandes tragédias. Foi assim no pós-Segunda Guerra, que fez o mundo acordar da financeirização selvagem do período anterior e propor pactos globais que trouxeram um suspiro de civilização ao Ocidente.

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No Brasil, imaginava-se que a tragédia Bolsonaro tivesse sido uma lição para uma elite institucional provinciana, atrasada que nos últimos dez anos destruiu todos os resquícios de democracia e de direitos sociais. O apagão administrativo, os negócios com vacinas, provocando a morte de centenas de milhares de pessoas, os riscos que a democracia correu, não soçobrando exclusivamente devido aos terraplanistas que cercam Bolsonaro – e que contribuíram para sua desmoralização – nada disso adiantou. O país tem uma elite historicamente autoritária. E, nos preparativos para as próximas eleições, ela terá papel na definição da terceira via.

Daqui para frente, há algumas tendências começando a ganhar corpo:

1. Um esvaziamento lento de Jair Bolsonaro, com a direita migrando para Sérgio Moro. É um processo inicial, mas que poderá ganhar uma dinâmica maior, com a queda de popularidade de Bolsonaro.

2. O esvaziamento das candidaturas de Ciro Gomes e João Dória Jr e dos demais candidato da terceira via. É mais uma eleição em que Ciro se auto-destrói pela absoluto paradoxo de dispor dos melhores diagnósticos para o país, e das piores estratégias políticas. Quis o cetro de anti-Lula, sem sequer avaliar de quem seria o trono, quando Moro entrasse no jogo.

3. O arco de apoio a Moro está sendo montado com o Partido Militar, mercado e grupos empresariais. Provavelmente seu porta-estandarte será o ex-procurador Deltan Dallagnol, mais articulado e desinibido que Moro. 

Nas próximas semanas se verá melhor os movimentos da mídia. A semana de lançamento de candidatura é, normalmente, a de maior impacto. Serão necessárias algumas semanas a mais para se avaliar melhor a dimensão da candidatura Moro.

De um lado, haverá a mediocridade explícita de Moro. De outro, a falta de alternativas para a terceira via. Finalmente, a falta absoluta de visão política prospectiva da parte da mídia. Uma eventual vitória de Moro significaria o golpe final na democracia.

Ao contrário de Bolsonaro, Moro tem relações umbilicais com o Partido Militar. Bolsonaro era aceito de forma algo envergonhada pelos militares, ao preço de abrir 8 mil cargos no governo. Já Moro é apoiado desde a Lava Jato. Os modos discreto, a perversidade fria de Moro é mais adequada aos protocolos militares do que o histrionismo de Bolsonaro.

Moro foi o Ministro que perseguiu adversários recorrendo à Lei de Segurança Nacional; que tentou criar uma versão falsa da Vazajato para prender e expulsar do país o jornalista Glenn Greenwald. É o Ministro que colocou a Polícia Federal para intimidar um simples porteiro de condomínio que depôs sobre Bolsonaro no episódio da reunião prévia dos assassinos de Marielle Franco, no condomínio onde mora o presidente.

É o Ministro que organizou a Operação Garantia de Lei e Ordem no Ceará e estimulou o motim da Polícia Militar, episódio só contido pela coragem imprudente do senador Cid Gomes.

Com Moro no poder, haveria a volta do aparelhamento da Polícia Federal pelos delegados da Lava Jato; um retorno dos abusos do Ministério Público Federal; a intimidação dos críticos com uso ampliado do poder de Estado, com funcionários cooptamos do COAF, da Receita e a militância política extremada do Judiciário.

Aliás, a entrevista de Dallagnol, ontem, à CNN, foi de um deslumbramento constrangedor da parte dos jornalistas, mostrando que o jornalismo será mais uma vez sacrificado em nome dos interesses políticos dos grupos empresariais.

Na esquerda, o jogo também é complicado. Lula já se firmou definitivamente como o candidato do arco de esquerda. Mas terá que fazer um movimento forte em direção ao centro. No momento, fala-se em dobradinha com o ex-presidenciável Geraldo Alckmin. Há ainda a possibilidade de uma liderança empresarial influente.

A montagem do grande arco de esquerda demandará concessões de lado a loa, com o PT abrindo mão de algumas candidaturas em favor dos partidos da aliança. Trata-se de uma estratégia que Lula domina amplamente, ao contrário das dificuldades que Bolsonaro e Moro encontrarão para amarrar as alianças regionais.

De qualquer modo, ainda se está na preliminar do jogo principal.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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  1. Priscila Kuperman

    1 de dezembro de 2021 7:23 am

    Excelente análise, Luís. Era o que precisávamos ler, para ter clareza do que rola em campo. Muito obrigada!!!

  2. EDUARDO PEREIRA

    1 de dezembro de 2021 7:33 am

    “A montagem do grande arco de esquerda demandará concessões de lado a loa, com o PT abrindo mão de algumas candidaturas em favor dos partidos da aliança. Trata-se de uma estratégia que Lula domina amplamente, ao contrário das dificuldades que Bolsonaro e Moro encontrarão para amarrar as alianças regionais.”

    Começando pelo fim a nossa “sorte” é que quem negocia e o Lula e nõ a Direção do PT que e muito fraca.

    O Campo social-democrático devia por no fim da ultima gaveta todas as divergenias ideólicas, e as vezes oportunistas, r e se concentra em discutir um programa de salvação nacional.

    Andar nas ruas do Rio significa ser transportado ao sec XVII e isso e falta daquilo que o capitalismo tanto privilegia que é dinheiro.

    Logo, ta na hora de tirar as ciranças da sala e os adultos conversarem pra valer, como fizeram o Lula com a Maarta e o Haddad

  3. Fabiana Prado

    1 de dezembro de 2021 11:07 am

    Muito cedo pra avaliar ou palpitar sobre o possível vice do Lula…mas muito me agrada a Luiza Trajano. Mulher, empresária forte e respeitada no ramo, tem visão e consciência social…um bom nome a se cogitar.

  4. Luis Fernando

    1 de dezembro de 2021 11:58 am

    Bom dia Luis, a guerra híbrida que começou em 2010 e chegou ao poder em 2018 através do partido militar com franco apoio do imperialismo americano e a piore leite do mundo, não vai abrir mão numa simples eleição para presidente. Ainda teremos muitas novidades pela frente. Isso significa que pode variar de simplesmente eliminar Lula fisicamente à não termos eleição. Vamos aguardas os próximos capítulos.
    Grande abraço

  5. AMBAR

    1 de dezembro de 2021 4:41 pm

    “Os modos discretos, a perversidade fria de Moro é mais adequada aos protocolos militares do que o histrionismo de Bolsonaro.”
    Acho a sua, a descrição mais fiel e concisa da personalidade do moro. Modos discretos e perversidade fria.
    Há mais ou menos 4 anos, vi de uma cartomante bolsonarista, um vídeo em que ela “tirou uma cartas”, digamos assim, sobre as atividades do moro e seu eventual futuro. Dizia ela, na época, que moro tinha amigos tão poderosos, banqueiros e proteção internacional, que poderia até vir a ser presidente.
    Com a vontade que estávamos todos de ver o moro largar da veia do Lula, não dei muito crédito. Com o passar do tempo, entretanto, tem sido provado que os tentáculos do moro ultrapassam as nossas fronteiras.
    A única fraqueza do moro é a “conja”. Ela, sua fã e admiradora é também o moleque que empina o balão de sua vaidade. Moro agora desempregado, sustentado pelo partido e pelas grandes riquezas amealhadas pelo escritório da conja, terá tempo de, enfim, dedicar-se a torna-la primeira dama.
    Quem puder que balance esse andor para derrubar o santo moro.

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