Mudar nossa casa, por Caio Henrique Lopes Ramiro e Thayse Edith Coimbra Sampaio

Precisamos repensar nossos modos de estudar, é preciso estar aberto a outros saberes, aqui, empreendemos uma ligeira tentativa de aprender com os povos originários e suas práticas, sobretudo suas capacidades de transformação da dor em caminhos, em alternativas.

Foto Sebastião Salgado

Mudar nossa casa

por Caio Henrique Lopes Ramiro[1]

e Thayse Edith Coimbra Sampaio[2]

Todas las voces, todas
Todas las manos, todas
Toda la sangre puede
Ser cancion en el viento.

Canta conmigo, canta
Hermano americano
Libera tu esperanza
Con un grito en la voz.

Mercedes Sosa

Este texto foi construído a partir de inúmeras trocas de conhecimento entre dois amigos, que a Pesquisa Científica e a Universidade Pública se encarregaram de aproximar. Depois de muita leitura, áudios e escuta, via Whastapp, percebemos que o distanciamento físico das Universidades, ocasionado pela pandemia de Covid-19, não foi suficiente para desativar o espírito acadêmico que resiste em nós. Nestas nossas trocas, aprendemos que o estado de ânimo crítico não pode se insular nos ambientes universitários. Entendemos que o momento oferece a possibilidade de tornar visível a relação, que sempre existiu, entre Universidade e Sociedade; basta conferir os esforços dessas instituições de ensino superior para desenvolver soluções criativas, eficientes e econômicas diante de vários desafios empreendidos pelo coronavírus. Logo, a partilha de um intenso câmbio intelectual se impôs como um dever, buscar converter o saber científico em um lugar comum.

Nossa ferramenta de permuta corresponde à linguagem, mas em função das nossas modestas habilidades diante das suas variantes, recorremos ao uso de apenas um dos seus símbolos, a palavra. Davi Kopenawa[3], destacada liderança indígena do Povo Yanomami, nos fornece uma diagnose interessante acerca do uso e sentido que nós, brancos, atribuímos a esse sinal da linguagem. Kopenawa (Povo Yanomami) coloca em evidência o nosso estranho costume de desenhar palavras com a finalidade de que elas não escapem jamais de nós. O registro atua como um ato impeditivo do esquecimento, uma frágil tentativa de evitar que as vivências desapareçam em nossas mentes. A necessidade pela palavra escrita denota a perda de valor, da palavra, para as sociedades que se consideram “civilizadas”. A incapacidade da nossa sociedade em preservar a memória, mostra péssimas conseqüências ao presente. Talvez, com ela (memória), pudéssemos, hoje, evitar uma das crises que assolam o país, a peste do pensamento autoritário de linhagem fascista e sua política, nos dizeres de Vladimir Safatle, suicidária.

Retomando a discussão sobre a palavra, Durval M. de Albuquerque Júnior – no texto intitulado “a palavra como luto e como luta”- comunica uma hipótese para o aparecimento pioneiro da palavra, uma forma de manifestar a trágica experiência de assistir a uma morte. Vivemos não só a ameaça do retorno aos tempos sombrios e ao horizonte autoritário e totalitário de que nos falavam Bertolt Brecht e Hannah Arendt, ou mesmo o Estado de Fazenda, com o seu aumento no número de escravos, denunciado pelo nosso Lima Barreto, mas, sim, estamos lançados diante de uma situação em que se recoloca sem cessar a pergunta pelo sentido da vida, uma vez que no caminho se descortina a real experiência da morte, inclusive antecipada. A questão de estar diante da fronteira última traz, para alguns, o incômodo do ter de se colocar em pensamento. Contudo, para outros, a reflexão e a vida contemplativa são imagem e experiência da boa vida e de verdadeira alegria, dado que o agir filosófico nasce do espanto e esse último pode se ocasionado pelo destino e a certeza incontornável da morte.  Curiosamente, a palavra é o recurso usado para informar os óbitos causados pela COVID-19. E existe a triste possibilidade no Brasil de que esses dados possam vir a ser associados à desigualdade social. Sabemos que não é possível compreender desigualdade sem considerar a pobreza. Walter Benjamin identifica nesta última categoria um conceito cambiante. Benjamin está inserido na quadra da história dos anos de 1914-1918 e, desse modo, vai observar os dramas de uma geração que viveu, em sua percepção, uma das mais terríveis experiências da história, a saber, a Primeira Guerra Mundial.

No ano de 1933, o filósofo alemão publica o interessante texto Experiência e Pobreza, escrito em que problematiza nossa aptidão narrativa das experiências. Para Benjamin há um empobrecimento da capacidade de narrar e, por conseguinte, uma diminuição das possibilidades ligadas ao contar histórias, uma forma de transmitir experiências, em especial aos mais jovens. O ponto de observação de Benjamin era o silencioso retorno dos combatentes da geração que viveu os anos de 1914-1918 e, fundamentalmente, dirá Benjamin, que o mercado literário inaugurado pelas novelas de guerra ─ gênero literário que surge mais ou menos dez anos após o fim do primeiro conflito planetário ─, não pode transmitir experiências no “boca a boca”, pois as vivências ali contadas são desmoralizadas pelas estratégias da guerra de trincheiras, da inflação econômica e da fome, implicando o aparecimento de uma nova forma de miséria que assola o corpo e a existência humana, promovida pelo monstruoso desenvolvimento da técnica.

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Nesse horizonte de perspectiva, a questão que se coloca para Benjamin é a do real valor de nosso patrimônio cultural, uma vez que não podemos mais vinculá-lo a nossa experiência.  Há aqui elementos para uma forte crítica cultural na justa medida em que a guerra deve ser observada como um componente de nossas relações sociais e políticas, contudo, a sua narrativa ─ orgulhosa, por exemplo, nos cantos homéricos aos hérois gregos ─, enquanto experiência cultural do combate não pode mais ser compartilhada. A guerra permitiria, em alguma medida, o tomar consciência de algumas das virtudes que constituem o significado político da existência, bem como meditar sobre a vida quando essa última está diante da morte no campo de batalha, esteja este último localizado nas Termópilas, nas trincheiras de calcário da Champagne ou no cerco a Cuzco. Assim, as vivências do conflito no século XX tornariam visíveis os interesses econômicos de aquisição e, quando mediadas pela técnica, possibilitaram que suas experiências fossem estrategicamente retiradas de nós, o que para o filósofo berlinense nos permite confessar nossa pobreza de experiência, que não se vincula à esfera privada do indíviduo ─ combatente ou não ─, mas a toda humanidade. De tal modo, afirma Benjamin que nesse momento surge uma nova barbárie, que deve ser compreendida como um novo conceito e possui um sentido positivo, que possibilita ao barbáro começar de novo, a “contentar-se com pouco”, a “construir com pouco”, ou seja, a recuperar o sentido da existência e da luta, essa última, inclusive, toma o significado de uma transformação da realidade pela linguagem, significa dizer pela possibilidade de mobilização.

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Talvez, a par desta leitura ou não, Eduardo Viveiros de Castro – no artigo “Os Involuntários da Pátria: elogios do subdesenvolvimento”- denuncia que a assimilação suportada pelos povos originários, e estimulada por aqueles tempos históricos em que nossa memória falha, buscou transformar o índio em cidadão pobre. Porém, os riscos oferecidos pela miséria e pela epidemia de coronavírus colocam toda a humanidade em ameaça, não apenas as “subhumanidades”, “as vidas nuas”, os excluídos, etc. E justamente a guerra será o elemento conceitual e o instrumental linguístico de mobilização. Ontem, como guerra colonial-imperialista européia, subjulgou os povos originários e seus saberes, que foram taticamente reconhecidos como barbáros por um discurso colonizador que os acusava de viverem em permanente conflito, uma vez que não possuiam fé, rei e lei nos padrões conhecidos pela belicosa “civilização”. Deveriam, portanto, ser silenciados, apagados, para que não deixassem vestígios. Hoje, a guerra é contra um “inimigo invisível”, o novo vírus corona e a COVID-19, que desafia a orgulhosa sabedoria dos povos colonizadores e sua técnica.

Nas palavras de Kopenawa (Povo Yanomami), a guerra dos brancos costuma ser acionada por poucas “palavras de afronta” ou cobiça por mercadorias.  E, mais uma vez, ele acerta na descrição sobre o nosso mundo, afinal, a guerra exploratória que empreendemos constantemente contra a natureza, agora, com a pandemia, altera a posição de vencedores e vencidos. Enquanto, as populações indígenas empregavam a guerra para vingar a morte injusta de um dos seus, a nossa sociedade não indígena move guerras pela economia. De modo, que esse debate ético entre vida e economia, que ganha destaque na imprensa nacional, revela o princípio vital da beligerância dos brancos, o mercado. Antevendo “a queda do céu”, os indígenas empenharam-se em bloquear/controlar a violência que o mundo natural pode apresentar ao ser dilapidado, refutando o discurso de que as sociedades originárias são sociedades agressivas.

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Nesta semana, pela palavra, presente ao longo de toda a programação do Acampamento Terra Livre – ATL[4], os indígenas compartilham conosco mais um ensinamento. Pela palavra, eles resistem. Por intermédio dela, realizam denúncias, reativam a memória dos brancos ao informarem os impactos sociais, epidemiológicos e ecológicos de suas ações, propõem recomendações, apresentam alternativas à vida exploratória de uma existência cada vez mais sem sentido e adoecida por ser condicionada pelos dispositivos técnicos a ter no horizonte apenas a dimensão social do desempenho e dos desejos, sem nenhuma preocupação para com a vida, a contemplação, o transcedente e as relações reais com a alteridade. Desse modo, os povos indígenas fazem da palavra um instrumento de luta, ressignificam seus usos negativos. Com isso, precisamos repensar nossos modos de estudar, é preciso estar aberto a outros saberes, aqui, empreendemos uma ligeira tentativa de aprender com os povos originários e suas práticas, sobretudo suas capacidades de transformação da dor em caminhos, em alternativas, pelo uso da palavra que busca oferecer sabedoria, respeito e amor por nossa casa, os indígenas nos educam a converter a hostilidade de nossas palavras em diálogo, em comunicação; saberes originários que parecem estar presentes no canto imortal de Mercedes Sosa “luna de los pobres siempre abierta, Yo vengo a ofrecer mi corazón […]. Y hablo de paí­ses y de esperanzas, hablo por la vida, hablo por la nada, Hablo de cambiar ésta nuestra casa, De cambiarla por cambiar, nomás”.

[1] Professor no curso de Direito do Centro Universitário Central Paulista (UNICEP). Mestre em Teoria do Direito e do Estado pelo UNIVEM. Possui especialização em Filosofia Política e Jurídica pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Atualmente cursa Doutorado em Direito na Universidade de Brasília (UnB).

[2] Bacharela em Direito pela Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL). Mestre em Direito pela Universidade Federal do Sergipe (UFS). Atualmente cursa Doutorado em Direito na Universidade de Brasília (UnB).

[3] Todas as referências usadas neste texto foram retiradas da obra “A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert (2015).

[4] A 16ª edição do Acampamento Terra Livre – ATL aconteceu, de forma remota (virtual), entre os dias 27 – 30 de abril de 2020, reuniu representantes de diversas etnias e foi transmitido por veículos independentes de informação, como: @apiboficial; @midianinja e @midiaindiaoficial. Foram responsáveis pela organização do evento a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB e a Mobilização Nacional Indígena – MNI.

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