Na ilusão da Copa, meu escorpião agoniza, enquanto Temer conspira, por Armando Coelho Neto

Na ilusão da Copa, meu escorpião agoniza, enquanto Temer conspira

por Armando Rodrigues Coelho Neto

Que a FIFA era um antro de corrupção todos suspeitavam. Há anos sofre sofreu acusações de corrupção. Mais recentemente, não emergiu toda a sujeira da escolha do Catar para sede da Copa em 2022. Em 2015, sete dirigentes da entidade foram presos na Suíça, por suspeitas de corrupção sobre um montante de até US$ 150 milhões. As negociatas da Rede Globo, de outro giro, enriquecem os anais do submundo que envolve os mundiais de futebol, fato aliás, que a desqualifica na cruzada moral contra a corrupção. A propósito, não só ela, mas todos a quem a Globo tenta içar à condição de expoentes morais, como a Farsa Jato – a maior maracutaia político-jurídica da história: Fora Temer!

Minha ilusão de Copa é cheia de mistérios, pois só a história vai explicar a derrota por 7 a 1 para Alemanha (2014), da mesma forma que explicou, tardiamente, a derrota do Peru por 6 a 0 para a Argentina, durante a ditadura militar (Jorge Videla). Segundo denúncia do ex-goleiro Ramón Quiroga, membros da Junta Militar argentina visitaram os vestiários da equipe peruana, levando o denunciante a crer em suborno, já que fatos estranhos aconteceram na escalação e atuação do time. Atletas que nunca jogaram entraram em campo e o atleta Manzo, marcador de Tarantini, no segundo gol da Argentina, “se agachou e o deixou sozinho”… Quem se lembra do jogador Roberto Carlos se abaixando para arrumar o meião no lance que originou o gol francês, jogada que tirou o Brasil da Copa da Alemanha (2006)?

O meião de Roberto Carlos perde em estranheza para a “convulsão” do Ronaldo (O fenômeno), que de tão suspeita se transformou numa ridícula CPI na Câmara Federal. Lá, indagado por que o Brasil perdeu a Copa, foi simplório, irônico e objetivo na resposta: “por que não fez gol”. Mas, ao que consta, Ronaldo só teve aquela convulsão, evento que nos preparou espiritualmente para aceitar a derrota. Melhor que ele, só mesmo o polvo Paul, da Alemanha, que acerto todos os resultados, inclusive a derrota da Alemanha na final de 2014. Mas, aquele polvo cumpriu o papel de preparar o fanático torcedor alemão para uma derrota. Aliás mais ameno que o coice nas costas do cai-cai Neymar, que lubrificou nossa alargada derrota por 7 a 1.

Há tempos não se vê uma seleção como a de 1970 ou de 1982. Nesta última, o Brasil perdeu e teve como algoz Paolo Rossi, que estava condenado por corrupção e teve sua pena reduzida para poder entrar em campo. Bastidores que compõem o imaginário sombrio dos mundiais de futebol, cheio de histórias de títulos roubados e negociatas políticas. No que tange ao Brasil, nos acostumamos a comemorar resultados positivos com o Brasil jogando mal, na ilusão de que na próxima partida poderia ou pode jogar melhor. Eis minhas ilusões de Copa, coisas que me deixam cético diante da euforia coletiva. Como existe teoria de conspiração para tudo, às vezes é difícil aceitar o óbvio como um simples jogamos mal. Mas, também é inegável que quando os organizadores são corruptos e que se aliam até para construir estádios de futebol… Além disso, diante das milionárias cifras que envolvem contratos de atleta e patrocinadores, melhor ligar o desconfiômetro.

Fato. Não estou nem aí para a Copa, ainda que sexta-feira, por exemplo, tenha me emocionado com a felicidade de um manobrista, que após a sofrida vitória do Brasil contra a Costa Rica, confessou: “Agora, assim. Vai dar pra trabalhar sossegado. Como trabalhar depois de uma derrota?”. É de se perguntar a dimensão dessa magia que alimenta nossos escorpiões: aquela história de “está no sangue” e que quase ninguém consegue fugir disso. É como se o futebol alimentasse o escorpião de cada um. No meu caso, meu escorpião não morreu mas está em estado de coma. Não torço nem distorço, pronto para uma derrota, mas não me passará desapercebido a alegria do povão ante uma vitória.

A minha Copa foi a de 2014 e saí vencedor. Torci para que ela acontecesse. As cassandras de almas sebosas e golpistas, desde então lidavam com o ideal falso moralista, questionando superfaturamento de estádios. Quem gritava mais escolas e menos estádios, hoje pede mais presídios que escolas. Foi duro ter copa, mas tivemos um evento fantástico, apesar de nossas precariedades e infortúnios. Cinco dias antes da abertura, o salafrário do Aécio Neves pediu ao STF para garantir protestos nos estádios. Foi lindo, apesar do coro de patocrata ofendendo a Presidenta Dilma, hoje silentes diante do impostor Temer.

Apesar do inexplicável 7 a 1, houve Copa no Brasil, contrariando os vaticínios dos abutres da Veja, para quem o estádio de Natal/RN só ficaria pronto em 2050. O colunista Reynaldo Azevedo profetizou que os estádios ficariam prontos em 2038, “marcados pela incompetência, megalomania, roubalheira”… Tudo isso tendo como pano de fundo supostas panes elétricas, de telefonia e de internet, numa oportunidade em que dólares e mais dólares se agregariam ao caixa nacional. Tudo isso, em meio a campanhas terroristas por meios de vídeos internacionais, sujando a imagem do Brasil e desestimulando  a vinda de turistas.

Superamos tudo isso. Como houve Copa, venci. Minha Copa foi outra, foi a de 2014, mas meu escorpião que não morreu, está em coma. O mar de verdade-amarelo-vergonha está mais presente nos estabelecimentos golpistas do que nas ruas. Meu escorpião o associa ao golpe de 2014.

Não há quem me faça vestir a tal camisa que me traz péssimas lembranças. Bandeira do Brasil? Foi usada para solapar meu voto e içar ao poder a gangue do impostor. O pavilhão do qual se queixou Castro Alves no passado, por acorbertar a infâmia e a covardia contra os negros, serve de manta para dilapidação do patrimônio nacional. É ela quem cobre o circo da vergonha, acoberta os suspeitos encontros entre Temer, Carmem Lucia, Maia, Aécio e representantes da Shell, e acoberta tenebrosas transações. Coitado de meu escorpião!

Armando Rodrigues Coelho Neto – advogado e jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

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