As diversas faces do fascismo, comentário, comentário deBerlange Andrade

As diferenças e contradições para negar o caráter fascista da governança bolsonarista são, para Umberto Eco, características do dinamismo histórico que confere permanência e eternidade ao cio da nefasta cadela

Por Berlange Andrade
Comentário no post O Governo não é fascista, por Andre Motta Araujo

Recortes do introdutório das 14 lições de Umberto Eco para identificar o neofascismo transportado nas entranhas do nazismo eterno:

“Se como totalitarismo entende-se um regime que subordina qualquer ato individual ao Estado e sua ideologia, então nazismo e estalinismo eram regimes totalitários. (…)

O fascismo foi certamente uma ditadura, mas não era completamente totalitário, nem tanto por sua brandura quanto pela debilidade filosófica de sua ideologia. Ao contrário do que se pensa comumente, o fascismo italiano não tinha uma filosofia própria. O artigo sobre o fascismo assinado por Mussolini para a Enciclopédia Treccani foi escrito ou inspirou-se fundamentalmente em Giovanni Gentile, mas refletia uma noção hegeliana tardia do “Estado ético absoluto”, que Mussolini nunca realizou completamente.

Mussolini não tinha qualquer filosofia: tinha apenas uma retórica.

Começou como ateu militante, para depois firmar a concordata com a Igreja e confraternizar com os bispos que benziam os galhardetes fascistas. Em seus primeiros anos anticlericais, segundo uma lenda plausível, pediu certa vez a Deus que o fulminasse ali mesmo para provar sua existência. Deus estava, evidentemente, distraído. Nos anos seguintes, em seus discursos, Mussolini citava sempre o nome de Deus e não desdenhava o epíteto: “homem da Providência”. Pode-se dizer que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita que dominou um país europeu e que, em seguida, todos os movimentos análogos encontraram uma espécie de arquétipo comum no regime de Mussolini. (…)
Análogos, não iguais.

Posso até admitir que Eichmann acreditava sinceramente em sua missão, mas não posso dizer: “Ok, volte e faça tudo de novo”. Estamos aqui para recordar o que aconteceu e para declarar solenemente que “eles” não podem repetir o que fizeram.
Mas quem são “eles”?

Se pensamos ainda nos governos totalitários que dominaram a Europa antes da Segunda Guerra Mundial, podemos dizer com tranquilidade que seria muito difícil que eles retornassem sob a mesma forma, em circunstâncias históricas diversas. Se o fascismo de Mussolini baseava-se na ideia de um líder carismático, no corporativismo, na utopia do “destino fatal de Roma”, em uma vontade imperialista de conquistar novas terras, em um nacionalismo exacerbado, no ideal de uma nação inteira arregimentada sob a camisa negra, na recusa da democracia parlamentar, no antissemitismo, então não tenho dificuldade para admitir que a Aliança Nacional, nascida do MSI (Movimento Social e Italiano), é certamente um partido de direita, mas tem muito pouco a ver com o velho fascismo. Pelas mesmas razões, mesmo preocupado com os vários movimentos neonazistas ativos aqui e ali na Europa, inclusive na Rússia, não penso que o nazismo, e sua forma original, esteja ressurgindo como movimento capaz de mobilizar uma nação inteira.

Todavia, embora os regimes políticos possam ser derrubados e as ideologias criticadas e destituídas de sua legitimidade, por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis. Há, então, um outro fantasma que ronda a Europa (para não falar de outra artes do mundo)?
(…)

Não adianta dizer que o fascismo continha em si todos os elementos dos totalitarismos sucessivos, por assim dizer, em “estado quintessencial”. Ao contrário, o fascismo não possuía nenhuma quintessência e sequer uma só essência. O fascismo era um totalitarismo fuzzy. O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de diversas ideais políticas e filosóficas, uma colmeia de contradições. É possível conceber um movimento totalitário que consiga juntar monarquia e revolução, exército real e milícia pessoal de Mussolini, os privilégios concedidos à Igreja e uma educação estatal que exaltava a violência e o livre-mercado?

O partido fascista nasceu proclamando sua nova ordem revolucionária, mas era financiado pelos proprietários de terras mais conservadores, que esperavam uma contrarrevolução. O fascismo do começo era republicano e sobreviveu durante vinte anos proclamando sua lealdade à família real, permitindo que um “duce” puxasse as cordinhas de um “rei”, a quem ofereceu até o título de “imperador”. Mas quando, em 1943, o rei despediu Mussolini, o partido reapareceu dois meses depois, com a ajuda dos alemães, sob a bandeira de uma república “social”, reciclando sua velha partitura revolucionária, enriquecida de acentuações quase jacobinas.

Existiu apenas uma arquitetura nazista, apenas uma arte nazista. Se o arquiteto nazista era Albert Speer, não havia lugar para Mies van der Rohe. Da mesma maneira, sob Stalin, se Lamarck tinha razão, não havia lugar para Darwin. Ao contrário, existiram certamente arquitetos fascistas, mas ao lado de seus pseudocoliseus surgiram também os novos edifícios inspirados no moderno racionalismo de Gropius.”

O que se pode concluir da narrativa preliminar do texto de Umberto Eco é o seguinte. Nazismo era coerência monolítica, ‘racional-totalitária’. Fascismo de Mussolini era colcha de retalho ‘emocional-contraditória’.

Leia também:  Dark Data e a ilusão da eliminação total de todas as incertezas, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Parece restar evidenciado, pois, que as diferenças e contradições que o nosso festejado mestre André Mota Araújo aponta para negar o caráter fascista da governança bolsonarista são, para Umberto Eco, características do dinamismo histórico que confere permanência e eternidade ao cio da nefasta cadela.

No Brasil, o que verificamos nos movimentos da campanha de 2018 e nos encaminhamentos atabalhoados no primeiro ano da governança é a confirmação empírica da leitura que levou Roberto Requião a sentenciar recentemente: o nazifascismo dessa turma está contaminado de ineficácia. Tá mais para circo. O inimigo, mesmo, é Guedes e o neoliberalismo!

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4 comentários

  1. É por aí: Precisamos para de nos levar pela discussão das orangotanguices distracionistas (neologismo mais claro que “diversionistas”) de Bozzonaro e prestar mais atenção na devastação de Guedes.
    A alienação do braZil pela venda, cessão, concessão, aluguel, comodato, invasão, ocupação, etc. é a que mais precisa ser neutralizada e revertida, antes que, parafraseando o grande sábio Alvin discípulo de Goebbels, não reste país algum, pois a nação braZileira não será mais nada!

  2. CAro Berlange, acho que esse é um erro de avaliação, o mesmo que os neoliberais brasileiros cometem e os industriais alemãeos comenteram.
    Porque Bolsonaro é um palhaço, os neoliberias acreditam que podem instrumentalizá-lo para lucrar com a rapina. A elite produtiva alemã também via em Hitle um palhaço manipulável, que implantaria um keynesianismo benéfico às fábricas alemãs. E de fato, Hitler o fez, assim como Bolsonaro entrega a economia aos neoliberais. O fascismo é assim, plástico e sem conteúdo, adaptável à ideologia econômica da vez.
    O que os neoliberais nem os industriais não viam (em sua sede por lucro) é que a lógica fascista é que estava os instrumentalizando, enquanto o fascsimo ganhava força para impor sue projeto real. Este projeto não tem nada a ver com desenvolvimento industrial nem com a especulação financeira, não se encaixa na lógica da mercadoria nem em qualquer outra: é um projeto de destruição pela destruição, que acaba engolindo seus apoiadores capitalistas, sejam eles a elite rentista atual ou a industrial alemã.
    No fim, não sobra nada do país para ninguém, como não sobrou nada de Alemanha, Japão e Itália no pós-guerra. Bolsonaro (assim como Moro e Witzel) é mesmo um palhaço, mas ele representa potências sociais reprimidas no inconsciente coletivo muito destrutivas e autodestrutivas, potências que ele nem mesmo suspeita que carrega.
    O fascismo é um perigo real, muito pior que o neoliberalismo, que já é um desastre.
    Estou escrevendo um artigo a respeito que, infelizmente, está ficando um pouco longo.

  3. Já disse isso antes …..que o PT e oposição fica nessa lenga lenga de fascismo, assunto que o povo desconhece, e não tem nenhum interesse, enquanto a direita descarada trata de roubar o único discurso que lhe sobrou, o da distribuição de renda…… entretanto, como na oposição não tem idiotas, acredito que uma parte é canalha e apoia envergonhada as reformas desse desgoverno miliciano, e outra usa esse discurso para reclamar de tudo e não se comprometer com nada…….de qualquer forma, estão no caminho certo para perder……

  4. Grande Berla! Meu parceiro das lutas de antanho – ainda que cada um peleando na sua trincheira! Lúcido como sempre!

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