5 de junho de 2026

Netanyahu na ONU… A “proteção aos cristãos” é uma narrativa que desmorona diante dos fatos, por Rasem Bisharat

As estimativas históricas mostram que a proporção de cristãos começou a diminuir gradualmente desde a Nakba
Reprodução Getty Images

Netanyahu na ONU… A “proteção aos cristãos” é uma narrativa que desmorona diante dos fatos

por Rasem Bisharat

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Introdução

Em seu discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas na semana passada, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu fez declarações polêmicas sobre a situação dos cristãos na Palestina. Ele apresentou números afirmando que Belém era 80% cristã sob o controle israelense e que caiu para menos de 20% desde que a Autoridade Palestina assumiu a administração, chegando a retratar Israel como o único lugar no Oriente Médio onde os cristãos se sentem seguros.

No entanto, este artigo – baseado em um estudo acadêmico e em dados oficiais de instituições cristãs palestinas – demonstra que as afirmações de Netanyahu não resistem a uma análise histórica e social rigorosa. Os fatores reais por trás da mudança demográfica dos cristãos são muito mais complexos do que a narrativa política promovida em Nova York, sendo as políticas israelenses um dos principais responsáveis por esse fenômeno.

O discurso de Netanyahu: simplicidade enganosa que oculta uma realidade complexa

No discurso na ONU, Netanyahu sustentou que a queda no número de cristãos em Belém deve-se exclusivamente à gestão palestina após os Acordos de Oslo. Essa comparação simplista entre o período sob controle israelense (cerca de 80% cristãos) e sob a Autoridade Palestina (menos de 20%) ignora décadas de acontecimentos históricos que afetaram profundamente a presença cristã na Palestina.

Desde a Nakba de 1948, o cenário demográfico mudou radicalmente. A guerra e a criação do Estado de Israel deslocaram cerca de 700 mil palestinos, incluindo aproximadamente 60 mil cristãos que se tornaram refugiados. Antes da Nakba, a Palestina tinha cerca de 1,98 milhão de habitantes, dos quais 145 mil eram cristãos (7,6%). Após a guerra, apenas 34 mil cristãos permaneceram dentro das novas fronteiras israelenses, reduzindo sua proporção para cerca de 2,4%. Este declínio drástico não foi causado por políticas palestinas, mas sim pela ocupação e pelo deslocamento forçado — sendo relevante destacar que 34% das terras da Jerusalém Ocidental ocupada pertenciam a igrejas cristãs.

A ocupação de 1967 aprofundou ainda mais a crise, com políticas destinadas a reduzir a população palestina e incentivá-la a emigrar — especialmente os cristãos — para facilitar a apropriação de suas propriedades e colocá-las sob a autoridade do chamado “Departamento de Bens dos Ausentes”, que as arrenda a israelenses por décadas. O alvo sobre os cristãos decorre de dois fatores:

  1. Político: sustentar o projeto de um “Estado judeu” ao retratar a Palestina como exclusivamente muçulmana, legitimando a exclusão de não judeus.

  2. Territorial: grande parte das terras palestinas históricas era propriedade de instituições religiosas islâmicas e cristãs, o que facilita sua apropriação caso o número de cristãos diminua.

A Cidade Velha de Jerusalém ilustra bem essa política: em 1967, sua população era de cerca de 70 mil pessoas, sendo 40% cristãos; hoje, representam apenas 1,5%, resultado de pressões e deslocamentos sistemáticos.

Diante desse cenário, a liderança palestina reconheceu o risco do esvaziamento demográfico, sobretudo entre os cristãos, e desde 2012 criou o Comitê Presidencial Supremo para os Assuntos das Igrejas, ligado à Organização para a Libertação da Palestina, com o objetivo de proteger a presença cristã e preservar a identidade plural da Palestina.

A tolerância religiosa como parte da identidade palestina

Em um estudo acadêmico intitulado “A tolerância religiosa como pilar fundamental da segurança nacional”, o autor deste artigo apresenta uma análise histórica profunda das relações entre muçulmanos e cristãos na Palestina, demonstrando que a convivência inter-religiosa não é um fenômeno recente, mas um elemento essencial da identidade nacional palestina. Muçulmanos e cristãos formaram, ao longo dos séculos, um tecido social coeso que resistiu a tentativas de divisão sectária.

O estudo conclui que a ameaça real a essa convivência não vem de dentro da sociedade palestina, mas de fora — em particular das políticas coloniais e de ocupação, que buscam aplicar a lógica do “dividir para governar” para enfraquecer a coesão interna. Assim, refuta-se a alegação de que a redução no número de cristãos se deve à má gestão da Autoridade Palestina, situando o fenômeno no seu verdadeiro contexto político, econômico e de segurança criado por Israel.

Igrejas palestinas: é a ocupação que destruiu a presença cristã

As instituições eclesiásticas palestinas responderam rapidamente às declarações de Netanyahu. O Comitê Presidencial Supremo para os Assuntos das Igrejas divulgou um comunicado qualificando suas palavras como mentiras destinadas a “branquear” a ocupação e distorcer os fatos. O comitê afirmou que são as políticas coloniais e militares de Israel que destruíram a histórica presença cristã na Palestina, citando a confiscação de terras pertencentes às igrejas, o fechamento de vias de acesso a locais de culto, restrições à liberdade de movimento e até ataques diretos a igrejas em Jerusalém e Gaza.

O comitê também lembrou que os cristãos representavam cerca de 12,5% da população da Palestina histórica antes de 1948, enquanto hoje não ultrapassam 1,2% — uma queda drástica atribuída diretamente às políticas israelenses, e não à Autoridade Palestina, como alegou Netanyahu.

Desconstruindo os números de Netanyahu

Mesmo os números usados por Netanyahu carecem de fundamentação. Não há dados estatísticos confiáveis que comprovem que Belém tenha sido “80% cristã” em qualquer período recente sob controle israelense. As estimativas históricas mostram que a proporção de cristãos começou a diminuir gradualmente desde a Nakba, influenciada por fatores econômicos e pela emigração.

Atualmente, as estimativas locais indicam que os cristãos representam entre 20% e 25% da população de Belém e arredores — uma variação mais ligada às condições socioeconômicas e políticas gerais do que à administração palestina.

Fica evidente que o objetivo do discurso de Netanyahu não era oferecer um retrato fiel da realidade demográfica e religiosa na Palestina, mas sim usar estatísticas de forma seletiva para sustentar uma narrativa política que apresenta Israel como um oásis de tolerância frente a um suposto extremismo palestino. Essa narrativa, porém, colapsa diante das evidências históricas, das pesquisas acadêmicas e dos testemunhos das próprias instituições cristãs, que apontam a ocupação israelense como o fator mais determinante no declínio da presença cristã.

Conclusão

Entre um estudo acadêmico que confirma a tolerância religiosa como um elemento estrutural da identidade palestina e as declarações oficiais das igrejas que denunciam as políticas israelenses como principal causa da redução da presença cristã, fica claro que o discurso de Netanyahu na ONU foi uma tentativa política de distorcer a realidade e transferir à Autoridade Palestina a responsabilidade por consequências criadas pelo próprio Estado de Israel.

Enquanto o discurso oficial israelense tenta usar números simplificados para construir uma narrativa política, as evidências históricas e científicas demonstram que a convivência islâmico-cristã na Palestina continua viva, apesar de todas as tentativas de fragmentá-la.

Dr. Rasem Bisharat – Doutor em Estudos do Oeste Asiático

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados