Ninguém salva vidas sozinho, por Aracy Balbani

Cuidar da vida humana é bem mais complexo do que gastar recursos para atender pessoas. Requer ciência, compaixão, ética e dedicação.

Foto Araquém Alcântara

Ninguém salva vidas sozinho

por Aracy Balbani

Assuntos de saúde sempre atraíram o público. Reportagens sobre câncer, AIDS e outras doenças infecciosas, rejuvenescimento e obesidade são recordistas de leitura e audiência em todas as mídias.

Na vasta filmoteca de saúde, obras como Meu Filho, Meu Mundo (1979), Rain Man (1988), O Óleo de Lorenzo (1992), Bicho de Sete Cabeças (2000), Quase Deuses (2004), Nise, o Coração da Loucura (2015) e A Vida Imortal de Henrietta Lacks (2017) sensibilizaram a sociedade. Elas abordam, cada uma a seu tempo e seu modo, transtorno do espectro autista, doenças raras, sofrimento psíquico ou os bastidores das pesquisas na área médica. Séries de TV sobre médicos e a rotina dos hospitais têm dezenas de milhares de fãs.

Quem nunca pensou em ser médico quando era criança que atire o primeiro comprimido de analgésico. Altruísmo e fascínio pelo poder sobre a vida, em diferentes proporções, motivam crianças e adolescentes a desejarem ser médicos, ainda que boa parte desista de ingressar na carreira pelas mais variadas razões.

Médicos são tão essenciais no cuidado da vida humana quanto outras dezenas de profissionais de nível superior, médio e fundamental. Hospitais não funcionam sem enfermeiros, fisioterapeutas, físicos especializados em Física Médica, tecnólogos de sistemas biomédicos, técnicos de enfermagem, de Radiologia e de imobilização ortopédica, assistentes sociais e motoristas de ambulância. Além deles, é claro que são necessários trabalhadores dos setores administrativo, de tecnologia da informação, hotelaria hospitalar (recepção, limpeza; lavanderia, cozinha) e conservação predial. Observe que muitas outras profissões de saúde não são citadas aqui por falta de espaço, não por falta de importância.

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Salvar vidas depende de todas essas pessoas. Mas também nas profissões de saúde há reflexos da desigualdade social e do preconceito.

Médicos costumam ocupar o topo da pirâmide, tanto em remuneração quanto em destaque profissional e social. Poucos usuários dos serviços de saúde se dão conta da existência, e menos ainda da relevância, do torneiro mecânico da oficina de um centro de reabilitação que produz órteses para amputados. Ou da costureira terceirizada que conserta uniformes do centro cirúrgico, por exemplo. Nas atividades insalubres que requerem menor escolaridade, negros, migrantes e moradores da periferia ainda são a maioria. Homossexualidade costuma sofrer menos intolerância quando os profissionais em questão são de nível superior. Mulheres são a maioria nas profissões de saúde, mas geralmente os homens é que ocupam cargos de chefia e direção.

O senso comum reconhece que médicos veterinários colaboram com a saúde humana através do controle de zoonoses. Menos óbvia é noção de que é possível proteger vidas por meio de atividades ligadas indiretamente à Saúde. Especialmente as de Ciências Exatas e Humanas.

É o caso de matemáticos e estatísticos das áreas de Epidemiologia e Bioestatística. De arquitetos especializados em arquitetura hospitalar. De pilotos de aviação comercial que atuam em transporte aeromédico, as UTIs aéreas, ou de órgãos humanos para transplantes. De advogados que se dedicam ao Direito Sanitário. De meteorologistas que integram grupos de pesquisa sobre o impacto das mudanças climáticas na saúde das populações. Ou, ainda, de diversos ramos da Engenharia. Como a Mecânica, na biomecânica e produção de próteses e órteses, e a Elétrica, no desenvolvimento de tomógrafos e outros equipamentos de diagnóstico e terapia, para ficar em apenas duas subáreas dessa interface do conhecimento.

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Segundo Rudolf Steiner (1861-1925), “a Pedagogia cura; a Medicina educa”. Concordando ou não com ele, ninguém fica indiferente à ideia. De fato, psicopedagogos e outros educadores têm papel fundamental na engrenagem da Saúde pelo trabalho junto às crianças, adolescentes e adultos.

Também são imprescindíveis os jornalistas vacinados contra sensacionalismo e matérias pagas. Eles levam informação de saúde com qualidade à população. O mesmo se aplica aos políticos responsáveis, aqueles usam o poder como ferramenta para promover a saúde. Ao contrário, os que se promovem usando a Saúde para permanecerem no poder prestam um desserviço à sociedade.

Cuidar da vida humana é bem mais complexo do que gastar recursos para atender pessoas. Requer ciência, compaixão, ética e dedicação.

Não é indispensável ter diploma de curso superior, seguir uma carreira específica, ser dono de um negócio bilionário nem ter um nome famoso para abraçar a saúde com sinceridade. Em momentos críticos como o que estamos atravessando, ser um voluntário anônimo que doa tempo e uma aptidão para amenizar o sofrimento de quem está doente já faz muita diferença.

Seja qual for o caminho escolhido, ele não deve se desviar em razão do preconceito, por interesses inconfessáveis nem pela vaidade. Se a opção pela saúde for honesta e corajosa, o resultado será gratificante, apesar de todas as adversidades.

Por isso confio que, sendo ou não profissionais de saúde, vamos derrotar os genocidas e a necropolítica para alcançar o respeito que todos merecemos. Esperança sempre!

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Aracy P. S. Balbani é médica.

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1 comentário

  1. Um artigo que serve como uma luva aos profissionais, não só da saúde, mas em todas as áreas, pois comprova que a medicina está inserida nas mais diversas profissões e vice-versa. Mas muitos médicos não tem essa visão e se posicionam quase como um Deus, com verdade absoluta, acima das demais profissões. Do contrário, honesta e abnegada a gloria é absoluta. Parabéns, Dra Aracy Balbani, nasceu para a profissão e é abençoada e soberana no dom que lhe foi concedido.

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