O amor é branco, por Cristiane Alves e Marcia Noczynski

Para mensurar basta que se tente lembrar quantos filmes românticos trouxeram casais negros como protagonistas.

O amor é branco

por Cristiane Alves e Marcia Noczynski

O conceito do amor é uma acepção construída socialmente que tem origem no pensamento social de Rousseau, numa busca de edificar uma sociedade mais elevada e sublime.

As artes, a partir de Rousseau, se incumbiram da popularização desse pensamento iluminista. A música, a literatura, a escultura e as telas passam a adornar o amor, laureando esse sentimento com o desinteresse pelo material. Toda atração legítima circunscreve-se ao idílico, imaterial e despretensioso.

O amor romântico pouco ou nada sublimou homens e mulheres negros, posto que é eurocêntrico e elitista.

Visto que a construção de ideais de comportamento e convivência não é norteada democraticamente o negro não colaborou com a edificação do pensamento romântico iluminista que nos influencia até hoje.

Como escolhemos nosso par ideal ou por que sentimos afeição romântica por determinados padrões estéticos?

Sem que nos demos conta, a literatura, o cinema, a televisão nos convencem que as maiores, as mais verdadeiras e ideais  histórias de amor são brancas. Assimilamos essa “verdade”.

A partir desse momento de tomada de consciência de que nossa afeição não é propriamente uma escolha pessoal, ou seja, é fruto de uma convergência de fatores estruturais que moldam os padrões dentro de uma sociedade, nesse momento o afeto é também uma manifestação política.

Quantos questionam todos os dias o fato de mulheres negras lindas e em evidência se relacionarem com homens brancos, ou homens negros lindos e bem sucedidos deixarem suas companheiras negras para se relacionarem com mulheres brancas quando alcançam independência e sucesso econômico?

No Brasil o racismo é de marca, o tom de pele nos aproxima ou nos afasta do membro ideal e legítimo da sociedade, grosso modo, do humano. Essa ideologia foi secularmente edificada. Na literatura, por exemplo o negro foi constantemente objetificado, marginalizado e esteriotipado como à margem da sociedade. A propaganda reforça as ideias.

Todos desejamos pertencer. Essa característica é inerente do ser humano.

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Quando não podemos destruir as estruturas que nos relegam ao pior da vida coletiva tentamos nos apropriar daquilo que nos aproxime do que é normalmente aceito. Desse modo, se a imagem do negro é vinculada a uma determinada estética, muitos tentam evitá-la.  Por exemplo, se o que parece representar certos grupos marginalizados é a textura do cabelo, tende-se a modificar tal característica aproximando-a do ideal.

O parceiro branco é o padrão normatizado, o dinheiro o passaporte para a invisibilidade racial.

Certamente muitos outros fatores se somam a esses maiores no micro universo das escolhas pessoais.

Importa dizer que a estrutura socioeconômica influencia até mesmo nossos afetos e que não é sem motivo que a solidão do negro não seja rara.

Conceber a solidão do negro exige que se saia do lugar-comum, demanda que não se abrace os estereótipos criados e nutridos para abrandar a nossa consciência que se acomodou à posição subjetiva a ele designada. O arquétipo do negro encarnado no imaginário popular, que serve exclusivamente para negar a sua exclusão, é o que o vincula à força, ao suor, à alegria, ao sorriso largo e branco, ao Carnaval, às rodas de samba, ao vozeirão e ao sexo. Sim, demasiado ao sexo e nada ao amor.

Mulheres negras são vistas como mais fogosas, selvagens, insaciáveis.  Homens negros são mais fortes esteriotipados como musculosos e bem dotados.

Alguns talvez defendam tudo isso como algo bom e que os negros estariam se vitimizando ao proclamarem sua solidão, uma vez que são tão festeiros e sensuais. Tal concepção não faz o menir sentido.

Em primeiro lugar, porque ainda que possuíssem todos esses atributos, só poderiam vivê-los em seu universo restrito, em seus guetos. Depois, porque quem decidiu que figurassem nesse lugar não foram eles.

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Cabe refletir o quanto as artes clássicas e contemporâneas anularam o negro nas histórias de amor. Para mensurar basta que se tente lembrar quantos filmes românticos trouxeram casais negros como protagonistas.

O amor sublime idealizado nas novelas, nas telas de cinema, nos personagens dos livros, nos quadros famosos não reproduz histórias de amor entre negros. Não que elas não existam, mas ainda estão no campo das exceções, do estranhamento, do surpreendente. Se o romance se der entre brancos e negros, o casal sofrerá críticas e olhares inquisitórios.

Na Europa, berço do amor romântico, quando no século XI os trovadores semearam a ideia de que os pares se formariam por uma escolha individual e que essa escolha seria norteada pelo sentimento nobre, puro e belo chamado amor, não germinou no ideário de um povo predominante branco, que esse amor poderia ser negro.

Na Alemanha, por exemplo, isso é palpável. Apesar dos alemães serem muito conscientes dos seus preconceitos, aos quais buscam combater com incentivo à diversidade e representatividade (como na veiculação de propagandas na TV ou nas embalagens dos produtos, que muitas vezes trazem somente a criança, a mulher e o homem negro como garoto-propaganda), ainda salta aos olhos a discriminação que os negros sofrem pelos alemães.

Ilustraremos, o que dissemos até aqui,  mostrando a situação de Renata, uma brasileira casada com um alemão e que vivenciou por lá algumas experiências desconcertantes, conforme relata. Em uma delas duas adolescentes mostraram espanto ao serem informadas que seu esposo (branco) era casado com uma mulher negra, durante um passeio a um Jahrmarke (mercado anual). Disseram que como Renata era negra, esperavam que seu marido também o fosse.

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Pode parecer sem importância, mas situações como essa vão deixando marcas, produzindo dúvidas sobre os seus direitos.  A pessoa passa a se questionar se pode ocupar esse lugar. Ela mesmo vai duvidar do seu pertencimento para além do gueto.  Vai se questionar se seus filhos poderão usufruir dos frutos daquelas sementes do amor romântico sem ser intimidado, constrangido. Sem que uma ida a um parque de diversões num fim-de-semana qualquer com os seus maiores amores atraia olhares preconceituosos e seja palco para comentários racistas.

As relações inter-raciais são permeadas por conflitos, internos e externos. Por pressões que extrapolam o ideário do amor incondicional e sublime, é uma luta, mesmo aqui, país tão miscigenado. Talvez porque os que idealizaram o amor o fizeram branco e qualquer desvio nesse padrão esbarre no campo das obscenidades.

Cristiane Alves – Mãe da Gi e do Giggio, mulher negra e feminista por nascimento. Professora da rede estadual de ensino desde 1998, e inconformada desde sempre.  Especialista em Educação Especial e Inclusiva – (Altas Habilidades/Superdotação)- UNESP – 2016. Tecnóloga em Gestão Ambiental e segurança do Trabalho – Uni-A 2004. Geografia bacharelado e licenciatura – UNESP 1996

Marcia sempre foi encantada pelas palavras e do que com elas se produz. Psicanálise, Literatura, Música e Cinema são seus companheiros inseparáveis. No sul, graduou-se-se em Letras, e em São Paulo, em Psicologia. Na sequência, fez a formação em Psicanálise, teoria que norteia a sua clínica e sua escrita.

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3 comentários

  1. “O amor sublime idealizado nas novelas, nas telas de cinema, nos personagens dos livros, nos quadros famosos não reproduz histórias de amor entre negros”.
    Esse amor sublime só existe no imaginário dos brancos europeus, ele não faz parte da cultura negra, como também de de outras culturas (orientais, árabes etc.).
    Como são os brancos europeus que controlam os meios de comunicação, eles vendem o amor sublime como se fosse um sentimento universal o que não é.

  2. …o silêncio dxs (brancxs) bons(boas) segue sendo um dos pilares de manutenção da exclusão racial. a quantidade de filmes, peças, textos, canções etc (pra ficar no campo da arte) feitos por brancxs “cabeças” e que reforçam o estereótipo do “amor é coisa para branco” ainda é impressionante! vai de jorge amado – onde os negros em geral fazem papéis “de negro mesmo” – ao programa Porta dos Fundos – idem idem idem. quando as personagens contracenam num contexto sublime ou `natural`, `universal`de uma relação amorosa, são brancos; quando “descambam” para a carne, pro sexo, o personagem preto entra.
    parabéns pelo texto e abordagem.

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