O antídoto contra o Bolsonarismo é fazê-lo falar, por Rita Almeida

Confrontar diretamente um discurso paranoico só o reforça, pois torna você apenas mais um inimigo a ser eliminado.

O antídoto contra o Bolsonarismo é fazê-lo falar

por Rita Almeida

Ao matar, ele se fortalece

Não derrotaremos Bolsonaro sem derrotar o Bolsonarismo. Nesse sentido, tenho pensado que a estratégia de luta a esse governo não deve ser para derrubá-lo, mas para dissolvê-lo, desconstruí-lo, desgastá-lo. Bolsonaro precisará ficar tempo suficiente para fazer o que se recusou a fazer na campanha: falar. Precisa falar para escancarar sua estupidez e incapacidade. E a sociedade brasileira também precisará de tempo para falar, a fim de expor e purgar todo o discurso fascista e de ódio que brotou por aqui nos últimos tempos.

Diante de tanto retrocesso, barbárie e imbecilidade, tenho me sentido sufocada, aviltada, enojada, como que descendo num poço que parece nunca chegar ao fundo. Ficava pensando que teríamos que subir tudo de novo, a fim de sair dessa situação, e isso me dava desespero, porque sentia a luz da saída cada vez mais distante. Mas, nos últimos dias, por ocasião de um sonho, comecei a pensar que nossa saída talvez não seja por cima, mas por baixo, pelo subterrâneo. Acho que vamos ter é que cavar mais até achar a rede de esgoto e mergulhar nela pra sair. Para vencer o discurso Bolsonarista, precisaremos mergulhar nele.

Mas, obviamente que, enquanto não cavamos fundo o suficiente, será necessário sobreviver a esse discurso que mata. Precisaremos, portanto, de pequenas rotas de fuga e de guetos que nos permitam nos fortalecer entre pares – como fizeram os quilombos. Precisaremos cuidar uns dos outros em grupos menores, fazer política miúda e esperar a melhor hora.

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Não nos esqueçamos que o Bolsonarismo foi inventado, construído e fortalecido a partir do antipetismo. Criar um inimigo comum, já dizia Freud em 1923, é a estratégia mais fácil e simples para se liderar um grupo. Isso faz do governo Bolsonaro um governo essencialmente paranoico, e se assim for, quaisquer grandes movimentos para confrontá-lo e derrubá-lo só irá fortalecê-lo em sua estrutura paranoica. Confrontar diretamente um discurso paranoico só o reforça, pois torna você apenas mais um inimigo a ser eliminado. E como na paranoia não há racionalidade que possa sustentar o debate, o paranoico não tem problemas em crer que a única saída é mesmo eliminar o outro. Vide o nazismo.

Assim, tenho pensado que o enfrentamento a esse governo não será efetivo por meio de grandes movimentos explícitos ou unificados. Precisamos agir em várias frentes diversificadas, nas pequenas frestas e aberturas, nos meandros, no subsolo, na boca miúda. Precisamos de escárnio, deboche e denúncia. Precisamos escapar do confronto aberto que ameaça nossa vida e apontar os furos de um modo possível; Jean Wyllis e Marcia Tiburi estão corretos nas suas estratégias. Bate boca e lacração besta no Twitter sim, se é de lá que Bolsonaro e sua prole se dispõem a governar como se fossem a família real. A meu ver, Haddad e José de Abreu estão corretos nos seus confrontos
aparentemente bestas com a família Bolsonaro, nas redes sociais.

Já está claro que o governo não tem compromisso com a racionalidade, com a história, com a razoabilidade, com o debate político ou com a democracia, ele apenas espera se sustentar no poder com um percentual pequeno de aliados, igualmente paranoicos e limitados politicamente, o resto ele abaterá pela força, pelo medo ou pela bala. Precisaremos de estratégias não convencionais para lidar com esse governo; será preciso desconstruí-lo sem pressa, fazê-lo definhar. E eu suponho que, pelo voto, será a maneira mais interessante e eficaz de vencê-lo sem riscos de retorno do recalcado.

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Até as próximas eleições, teremos que desvelar tudo que vínhamos varrendo pra debaixo do tapete e que propiciou a ascensão de Bolsonaro. Até lá, tudo o que pudermos fazer para obrigar o governo a falar e a se expor, será uma boa estratégia. Política é palavra. E política é exatamente o avesso do que Bolsonaro sempre pretendeu fazer. Quanto mais ele falar e se expor (ainda que às custas da nossa vergonha diária), quanto mais ele tentar explicar ou justificar suas mancadas e bizarrices, mais fraco se tornará seu discurso.

É importante que se entenda uma coisa: O discurso paranoico se desmonta quando precisa usar a palavra e se fortalece quando é convocado a usar a força. Por mais bizarro e estranho que possa parecer, Bolsonaro se fortalece ao disparar 80 tiros contra um cidadão comum e enfraquece quando é alvo de deboche por publicar golden shower.

Não estamos lidando com uma situação política comum, por isso, intuo que o embate político tradicional não funcionará nesse caso. A paranoia não se combate, se desconstrói devagar, fazendo-a falar e evidenciar suas contradições. Minha aposta é que sejamos como cupins silenciosos e persistentes a roer uma estrutura de madeira.

A palavra faz buraco.

Rita Almeida

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7 comentários

  1. Sem dúvida! Perfeito! Como nao tenho twitter, todos os dias pela manhã, garimpo fatos e fotos nos twitters de Emir Sader, Ze de Abreu, Alcenir Fernandes de Castro e muitos outros. Fotografo e compartilho pelo Whatsapp. E, diariamente no status, faço um resumo de assuntos relevantes. Ontem foi sobre Paulo Freite, com informações obtidas no Top Trend Twitter Brasil. Os contatos que estão afastados, possivelmente por terem se tornado Bolsominios, não mais têm recebido minhas fotos, desde que percebi suas insatisfações. Mas… eles estão visualizando o meu status. AVANTE!!!

  2. Semeando cupins para roer a dura estrutura de madeira…
    Minha cunhada, embora muito bem formada, jamais se interessou sobre política. Mas evidentemente, já percebeu o caos que esse governo apresenta. Ao receber as fotos que garimpo, muitas delas evidenciando fatos que a mídia não mostra, atualmente repassa-os para seus contatos. E ontem, para minha surpresa, solicitou-me via whatsapp, a informação de como aplicar informações no STATUS. E hoje com satisfação, pude visualizar seu status. Para mim, uma vitória! Mais um cupim roendo e fazendo aparecer as mentiras, incongruências e o desmonte de nossa pátria!!!

  3. Os caras não toleram escracho, deboche e críticas. Então, sejamos escrachados, críticos e irreverentes com os fascistas, numa linguagem popular e coloquial, para tirá-los da zona de conforto “machão”, e demonstrar o quanto de idiotia os caras carregam.
    É importante fazer uma guerrilha virtual, induzi-los a demonstrar o quanto são ruins, em todos os aspectos. Atormentá-los. O espaço virtual não pode ser negligenciado, embora as ruas sejam fundamentais, claro. Em 2018, no dia do “ele não”, pensei que havíamos ultrapassado bozo, e que a partir daquela data ele desceria ladeira abaixo, diante das massas nas ruas. Infelizmente, sabemos que ocorreu o contrário: o movimento foi usurpado e capturado pela mentira da campanha de bozo. Assim, virou exemplo do que as pessoas “de bem” não queriam, acobertando, num discurso moralista e mentiroso, a milícia que aí está. Fica\ o aprendizado.

    Ótima a análise da Rita.

  4. excelente…
    bater de frente não adianta nada mesmo, apenas enfurece mais ainda a besta e nos cansa

    Bolsonaro deve ser combatido nele mesmo, mostrando aos seus apoiadores que ele não está fazendo sequer o básico, a responsabilidade em cumprir com suas obrigações

    ou fazer exatamente o que o cupim faz na madeira, como foi muito bem recomendado pela Rita Almeida

  5. Olha é estranho o porquê de quem votou no Bolsanaro perguntar o que você acha dele? Nossa quanto hipocrisia. Já dizia que seria o grande erro. Ainda sim as pessoas insistiram. Se hoje repetem a mesma pergunta. Digo: não acho nada, porque ainda vejo nada. Por estranho que pareça ainda que insignificante o estrago será grande. Tudo muito louco!!!

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