O Brasil como Estado-Satélite dos EUA, por André Motta Araújo

O País governado por Bolsonaro é uma nação soberana apenas na fachada, mas controlada por um país dominante

O Brasil como Estado-Satélite dos EUA

por André Motta Araújo

 

Na historia moderna há casos clássicos de “Países Satélites”, entes soberanos só de fachada, controlados por um País dominante. Casos clássicos foram a Noruega de 1940 a 1945, satélite da Alemanha nazista cujo governante, o Major norueguês Vidkun Quisling, teve seu nome dicionarizado como substantivo – um “quisling” é um governante fantoche a serviço de outro governo.

Outro caso clássico foi a Romênia de 1945 até 1953, submetida ao controle da União Soviética a um nível tal que a Romênia virou operadora paralela da politica exterior de Stalin, através da fanática Chanceler estalinista Anna Pauker, capa da revista TIME como a mulher mais perigosa da Europa, escrevi neste blog um artigo sobre essa personagem histórica sinistra.

A imagem do Brasil

Hoje, pela primeira vez desde a criação do Estado brasileiro em 1822, o Brasil está sendo visto como Estado satélite dos EUA, alinhado automaticamente aos interesses desse País, uma situação que reduz o papel, o prestigio e o poder geopolítico e diplomático do Brasil perante as chancelarias do mundo.

Um dos cinco grandes países do planeta por seu território, população e recursos naturais, o Brasil sempre se portou como potencia regional com um papel próprio, também como um dos grandes emergentes, a ponto de ser criado um bloco dos quatro maiores países continentais onde o Brasil era o primeiro da configuração, o bloco BRIC, hoje BRICS, sendo o Pais o único ocidental, mas VEJA-SE que a presença do Brasil nos BRICS só tem sentido se o Brasil for um Estado independente – se for um Estado satélite a posição do Brasil nos BRICS ficará precária, embora figure nominalmente no grupo.

Este ano a presidência do Banco dos BRICS deverá ser assumida pelo Brasil. A escolha será em Julho, e os dois nomes na disputa são ligadíssimos aos EUA – Marcos Troyo e Ricardo Fendt, este formado em Chicago. Vamos ver como Rússia e China vão encarar no comando do banco um americanóide, sabendo que os EUA nunca aceitaram a criação desse banco que representa o bloco confrontante dos EUA no mundo.

O anterior vice-presidente fundador do banco, o prestigiado economista brasileiro Paulo Nogueira Batista Jr. seria a escolha obvia e unanime, na linha de pensamento do banco.

Os dois nomes na disputa representam hoje um governo que despreza totalmente a linha ideológica que justificou a criação do Banco, um governo que é o anti-BRIC por definição. Esses nomes são americanófilos  neoliberais de mercado , e vai ser interessante ver como vão dirigir o banco.

A ideia do grupo é a mesma do que pensam sobre o BNDES: o Estado NÃO DEVE TER BANCO, é o “mercado” financeiro quem deve financiar projetos, mas evidentemente eles como pessoas físicas estão loucos para ganhar um cargo desse nível, garantido por cinco anos, com ou sem ideologia.

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A posição única do Brasil na ONU, como País aceito por todos por não ter divergências étnicas, culturais, raciais  e religiosas internas e com seus vizinhos continentais, está em risco por se ter colocado por vontade própria como Estado dependente de outro em politica externa, uma sujeição inédita na sua historia bicentenária.

No Período de 1945 a 1949, no governo Dutra, houve um alinhamento da politica exterior brasileira com a politica de Washington. Era o inicio da Guerra Fria, e o Chanceler Raul Fernandes era um notório americanista. O ponto alto dessa politica foi o rompimento de relações do Brasil com a União Soviética em 20 de outubro de 1947 e o não reconhecimento do governo da Republica Popular da China, instalado em 1949.

Oswaldo Aranha, também americanista não era todavia ideológico. Então Presidente da Assembleia Geral da ONU, era a favor do reconhecimento pelo Brasil da China de Mao. Raul Fernandes era menos pragmático, uma linha hoje muito piorada do chanceler Ernesto Araújo, embora com mais nível.

O alinhamento do Governo Dutra aos EUA teve dois componentes: geopolítico, pelo inicio da disputa entre as duas grandes potencias vitoriosas de 1945, havia um temor real da expansão do comunismo soviético na Europa e no Terceiro Mundo; e econômico, onde o Brasil sai da Guerra com sua infraestrutura precária e desaparelhada em energia e transportes.

Havia a consciência no Governo Dutra de que, sem o apoio dos EUA, o Brasil não teria como reaparelhar sua economia, dai a Missão Abbink e o Plano Salte, iniciativas americanas das quais resultaram avanços, mas às custas da independência.

Essa sujeição, que agradou aos círculos conservadores da época em torno da UDN (União Democrática Nacional), foi desmontada com a eleição de Vargas em 1950, e o Brasil voltou a sua tradicional diplomacia independente, reafirmada nos governos militares pós-1964, de forma incisiva, como no reconhecimento do governo comunista de Angola em 1975 e no acordo nuclear com a Alemanha, sob forte oposição de Washington; e posteriormente com o rompimento do Acordo Militar Brasil-EUA, que vinha desde a Segunda Guerra; mais ainda com as incursões do Brasil no Iraque com suas empreiteiras em troca de petróleo; continuando com a venda de material bélico (lançadores de misseis STROS) no Oriente Médio, para desagrado dos EUA e Israel, as duas politicas liquidadas no Governo FHC, com a quebra da ENGESA e uma politica pro-Israel e pró-americana, embora em um patamar nunca igual a do atual Governo.

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Hoje, a imagem do Brasil no exterior está no seu nível mais baixo na Historia. Sua diplomacia perdeu o respeito internacional pela submissão incondicional ao Governo Trump, que é mal visto em todo o mundo, inclusive e principalmente pelos aliados tradicionais dos EUA, sendo o Brasil um Estado automaticamente alinhado não ao governo dos EUA, mas ao Presidente Trump, o que é uma situação muito pior do quem no governo Dutra, onde o alinhamento era com o Governo dos EUA, então representado pelo Presidente Harry Truman, do Partido Democrata, que não era um governo de direita.

Mais ainda, a posição do Brasil naquele momento (1946 a 1949) em Washington era infinitamente superior ao que é hoje. A visita oficial do Presidente Dutra a Washington, Tennessee e Nova York, em maio de 1949, foi no nível diplomático mais elevado, com desfile do cortejo pelas avenidas e, nesse governo, o Brasil obteve forte apoio econômico (Plano SALTE) com a Missão Abbink, do que resultou mais tarde a fundação do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, o futuro BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Hoje, o alinhamento do Brasil não tem como percepção alguma linha geopolítica clara. Está alinhado porque e para que? As chancelarias do mundo não conseguem perceber o que o Brasil ganha ou pretende ganhar com essa submissão automática, e até agora o país só perdeu não só em atos concretos como no capital diplomático, hoje no seu nível histórico mais baixo jamais registrado.

O pior dessa avaliação internacional é que parece não existir nenhuma oposição interna a essa submissão: do Congresso, das classes empresariais,  das classes médias, da população, Na visão das chancelarias, parece que no Brasil todos concordam em que o Brasil deve mesmo ser um Estado satélite dos EUA, e até gostam.

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A situação vista de Washington

Um velho círculo de amigos de Washington – diplomatas do Departamento de Estado, dois ex-subsecretários de Estado para a América Latina, um ex-diretor do Conselho Nacional de Segurança, amigos e conhecedores do Brasil, que se interconectam com os 400 brasilianistas acadêmicos dos EUA (há até uma associação deles) – me deram uma avaliação da politica exterior brasileira vis a vis Washington: acham incompreensível à luz da logica geopolítica, o Brasil poderia pedir MUITO MAIS e não pede nada. Eles não entendem.

Os EUA teriam no Brasil a única força estabilizadora na América Latina, as relações com o segundo maior Pais da região, o México (hoje esquerdista que apoia Maduro e Morales), são apenas razoáveis na aparência; com o terceiro maior Pais, a Argentina, só podem ir de más a péssimas, o Brasil SE QUER SER ALIADO, deveria apresentar alta fatura a ser paga por Washington e eles pagariam.

Ao invés disso, se apresenta rastejando SEM EMBAIXADOR há mais de um ano, não pede nada e aceita qualquer humilhação. Eles não compreendem.

A comparação histórica

A má fase do Brasil humilde satélite americano oferecido passará, a Historia nos consola. A orgulhosa França de Napoleão, País que inventou a diplomacia, que teve o maior diplomata da Era Moderna, o Príncipe de Talleyrand, também foi pais rastejante na pavorosa situação da derrota de 1940, com o regime de Vichy, satélite da Alemanha Nazista, da mesma forma que o Brasil, se oferecendo na humilhação, como se vê no filme de Costa Gravas, SEÇÃO ESPECIAL DE JUSTIÇA, onde um oficial alemão fica chocado com a sabujice dos magistrados franceses querendo prestar serviço à repressão alemã além do que essa pedia.

Com toda essa situação abjeta, a França sai da Guerra como potência vencedora e com assento no Conselho de Segurança. A humilhação foi apagada da Historia, mas ela nos serve como lição: um dia o Brasil sairá dessa situação humilhante e sua orgulhosa  diplomacia recuperará o prestigio histórico de um Brasil Imperial, do Brasil de Rio Branco e de Vargas, de Juscelino e de Geisel, uma diplomacia-escola de profissionalismo e independência.

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22 comentários

  1. Acrescentaria outro ponto positivo da diplomacia brasileira que foi durante a guerra das Malvinas. Se fosse essa corja atual que infesta o itamaraty hoje ,provavelmente o país iria colocar seu exército pra invadir a Argentina. A França teve de gaulle que passou pro mundo a ideia de que a França foi vítima e não cúmplice. Será que teremos um de gaulle caboclo?

  2. Que Bolsonaro não tome conhecimento disso, afinal ele não lê e creio que aqui ninguem vai contar para ele.
    Quando da proclamação da república o nome oficial do país passou a ser República dos Estados Unidos do Brasil.

    Essa denominação só veio a cair na ditadura militar através de Costa e Silva, passando incólume por governos considerados progressistas como Getúlio, JK e Jango. Uma hironia histórica, que tenha sido justamente os militares quem tenha substituído o nome oficial por República Federativa do Brasil.
    Se o atual presidente souber disso é bem capaz de voltar a denominação antiga ou fazer ainda pior, mudando o nome para República dos Estados Unidos no Brasil.

    Meu medo é que o congresso e o povo aprovem a idéia.

  3. A familicia Bozonaro quer um pais pais como propriedade privada sua e ta conseguindo enquanto as Instiuicoes fazem vista grossa para o desmonte levada a cabo pelo Poderoso Chefao parido pela Lava Jato: a Maos Limpas pariu Berlusconi uma figura abjeta mas nao sem pudor quanto BozoNazi

  4. Que mau caráter esse Araújo, enaltece a diplomacia de uma monarquia escravista e da ditadura militar e “esquece” a fantástica diplomacia do governo Lula com a dobradinha deste último com o notável Celso Amorim. Que desonestidade intectual.

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  5. E de Lula, não? De toda a MAGNÍFICA atuação de Lula e do fabuloso Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim no resgate do respeito mundial à soberania do Brasil, não é mesmo, caríssimo André? Ou você também é “anti-petista”?

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    • Andre Araujo, advogado, foi dirigente do Sindicato Nacional da Indústria Elétrica, presidente da Emplasa-Empresa de Planejamento Urbano do Estado de S. Paulo, conselheiro da CEMIG-Cia. Energética de Minas Gerais e atualmente é consultor de Potomac Partners, consultoria em Washington.

    • Meu caro, as primerras reuniões entre a cupula do PT e o Departamento de Estado antes da eleição de Lula em 2002, com a presença do então Subsecretario de Estado para a região e a então Embaixadora dos EUA se realizaram na minha casa e por minha iniciativa, fatos relatados pelo wIKELEAKS. A primeira entrevista de Lula ao jornal The Washington Post foi organizada por mim, veio
      de Washington a dona do jornal para fazer a entrevista, a mesma que veio para entrevistar Dilma quando esta foi eleita e tambem por meu intermedio.Fiz incontaveis viagens com Zé Dirceu aos EUA
      e conheço o PT antes de eles estar registrado no TSE, portanto não preciso de lições sobre PT.

  6. Eu acho ridiculo, todos meus amigos do psol, pstu, pt vivem querendo salvar o Brasil das garras dos Estados Unidos, mas todas ferias vao para Orlando, Nova York, vamos ser coerentes companheiros. Criticam, mas levam dinheiro para la

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  7. Eu acho ridiculo, todos meus amigos do psol, pstu, pt vivem querendo salvar o Brasil das garras dos Estados Unidos, mas todas ferias vao para Orlando, Nova York, vamos ser coerentes companheiros. Criticam, mas levam dinheiro para la.

  8. Caro André, aproveitando o assunto “diplomacia rastejante” peço sua opinião também sobre o tema “economia rastejante”, já que a grande mídia esconde da população jovem que o Brasil já teve pleno emprego e taxas chinesas de crescimento no passado, pior, tenta nos convencer de que o ritmo atual é “normal”. Hoje somos o “país do pibinho” e muitos não vêem perspectiva alguma para sairmos dessa situação no curto ou médio prazo.

  9. De juscelino e de … Geisel? Embora reconheça-se que comparado ao de hoje ele foi enorme.
    O nazismo é concretamente no país a negação preconceituosa e doentia do ante-PT.
    Esqueceu o LULA como a expressão do maior nível de prestígio internacional e de orgulho do país.
    O nazismo e seu caldo vem de todo o lado. É uma doença que tomou conta. Até tu, AA!

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    • Conheci o Presidente Geisel, um homem especial DENTRO do contexto do governo militar, visão de pais e de futuro, foi o pai da redemocratização, a Historia e o que foi e não o que queriamos que fosse. Cometeu erros, o maior foi a fusão do Estado do Rio com o Estado da Guanabara.

  10. Bolsonaro é o comandante de um governo de militares entreguistas. “Quisling” é um substantivo que se aplica a Bolsonaro e seus cúmplices políticos, aos comandantes da Forças Armadas, aos corruptores do Judiciário e à elite econômica escravocrata.
    Quando as forças democráticas recuperarem o Estado Democrático de Direito, espero que todos os “quislings” sejam exemplarmente punidos e que não haja a menor tolerância com esses traidores da Pátria. Ou eternamente estaremos sujeitos a esses canalhas, como ocorre hoje em consequência da Anistia de 1979.

  11. …”Brasil poderia pedir MUITO MAIS”…

    Quanto mais pedirmos, mais dependentes ficaremos. Mas acho que essa dependência é exatamente o desejo, consciente ou inconsciente, dessa elite, os golpistas.

    Liberdade, autonomia, soberania, prosperidade, respeito… nada disso se pede. Essas coisas se conquista, com luta contra os que pretendem manter a dependência. Como lutaram e lutam Lula, Dilma e Celso Amorim.

    • Trump é o classico negociador pechincheiro, ele adora negociar e como todo negociante DESPREZA
      quem não pechincha, não pede nada, para Trump torna-se desprezivel. O Brasil deveria pedir
      muito para deixar por menos, ai seria respeitado por Trump, se oferecer de graça é o maximo
      do ato desprezivel para um mega negociador como Trump.

    • Pontos positivos muito antos, elevou o status geopolitico do Brasil sem confronto com os paises
      centrais, excelentes relações com o governo Republicano de Bush Jr., que o convidou para a casa de fim de semana presidencial Camp David, o nivel de recepção de Lula em Washington foi mais alto do que de Bolsonaro com Trump, a homenagem a Lula na Chatam House (Royal Institute of Internaional Affairs) em 2009 foi o mais alto Premio a um Presidente do Brasil, esse entidade é a cupula das
      relações internacionais na Europa, pontos negativos EXCESSIVA e desnecessaria adulação a Chavez e Morales, poderiam ter boas relações sem sabujismo.

  12. Lacaios e Quintal dos NorteAmericanos Nos tornamos em 1930. Getúlio Vargas desfilando em carro aberto com Roosevelt, mostrando para o Presidente Americano, todo quintal que havia adquirido. Falar em Dutra sem ser apenas a consequência e continuidade do Governo Vargas é desonestidade intelectual. O factóide da Família Neves, lacaio da República de Juiz de Fora, Juscelino Kubscheck é apenas continuidade. Industrialização com Empresas, Marcas e Dinheiro Estrangeiro. Alguém ainda acredita que PRIVATARIAS seja algo novo, da expressão intelectual de um FHC? FHC teria tanta capacidade intelectual, mesmo na mediocridade? Jamais. Não passa de um copiador, da tragédia iniciada no Golpe Civil Militar QuintoMundista. Tornam seu “DINHEIRO” caro, cobram as contas e suas Empresas e sua Interferência está implantada e financiada pelo Estado-Hospedeiro. Não percebemos isto nem mesmo depois de quase 1 século. Somos Geniais !! O que a Doutrinação não produz?! Alguma autonomia e vanguarda tivemos no Governo Jânio Quadros, que havia retomado o Poder desta estrutura medíocre. Não permitiriam sua continuidade. O Governo Militar, durante Geisel também. Mas então os Militares devolveram o Poder. E adivinhem para quem? Diga pata Nós Tancredo neves, Família de Getúlio Vargas, Leonel Brizola, João Goulart,… Qual seria a “NOVIDADE” a ser reimplantada? 40 anos de farsante Redemocracia. “Loucura é fazer sem pre as mesmas coisa, da mesma forma e esperar por resultados diferentes’. Quem volta à frente de tal Redemocracia. O Família do Fascista, seu Ministro da Justiça Tancredo neves?!! Quanta coincidência !! Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.

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