O centenário de nascimento de Celso Furtado, por Rodrigo Medeiros

A obra do intelectual ainda nos convida a pensar o Brasil e o subdesenvolvimento da periferia em uma economia globalizada

Foto: Reprodução/Wikipedia

O centenário de nascimento de Celso Furtado

Por Rodrigo Medeiros*

 

Neste dia 26 de julho, comemoramos o centenário de nascimento do intelectual, economista e professor Celso Furtado (1920-2004). Nascido em Pombal, na Paraíba, Furtado foi um dos mais destacados intelectuais brasileiros do século XX. Suas ideias têm forte presença em diversos debates na América Latina e são estudadas inclusive em universidades de países desenvolvidos. Furtado representa um paradigma de homem público. Os seus livros ainda nos convidam a pensar o Brasil e o subdesenvolvimento da periferia em uma economia globalizada. Buscarei destacar apenas alguns poucos aspectos da obra do mestre que considero relevantes hoje, mas antes darei um breve depoimento pessoal.

Antes de entrar especificamente em pontos relevantes e atuais da obra de Furtado, gostaria de destacar um momento que marcou o meu modesto percurso acadêmico. Na primeira quinzena de dezembro de 2003, sob o pedido do cientista político e professor Antonio Carlos Peixoto (UERJ), com quem trabalhei, fui representá-lo em um debate no Instituto de Estudos Políticos e Sociais, localizado no Rio de Janeiro e cujo decano era o professor Hélio Jaguaribe. Entre os participantes do debate estavam os professores Francisco Weffort, Antônio Barros de Castro, João Paulo de Almeida Magalhães e, é claro, Celso Furtado, acompanhado da jornalista Rosa Freire d’Aguiar. A apresentação ficou sob a responsabilidade de Jaguaribe, que buscou resgatar certos aspectos do Programa de Metas (1956-61), principalmente o papel da administração indireta. Essa temática era basicamente o meu tema de tese de doutorado, que estava sob a orientação do professor Carlos Lessa (UFRJ) e que foi depois defendida com sucesso em outubro de 2005.

Fiquei sentado, ao longo da discussão, entre Barros de Castro e Celso Furtado. No meio do debate, de forma delicada, Barros de Castro me perguntou se eu estava me sentindo bem porque fiquei muito quieto na discussão. Ri para o professor e respondi que eu estava sentado ao lado do Celso Furtado, fonte de inspiração para os meus professores e para mim. Aleguei que sentia então “o peso e a autoridade da história”, de coisas que meus pais e avós haviam vivido de perto, e ainda estavam ali Hélio Jaguaribe e João Paulo de Almeida Magalhães. Estava estudando para a minha tese textos do antigo Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), do qual Jaguaribe havia participado, e sabia da importância dos seus intelectuais na formulação da ideologia do nacional-desenvolvimentismo, algo necessário para mobilizar corações e mentes da sociedade.

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Ao final do evento, rapidamente, pude dizer ao mestre Furtado o quanto eu o admirava e que estava trabalhando em uma tese de doutorado sobre a atualidade de certos aspectos do Programa de Metas, basicamente o papel da administração indireta, com destaque para o BNDES, passando pela necessidade de termos efetivamente agências de desenvolvimento regional e mostrando a relevância da questão cambial, pois estávamos vivendo as consequências dos dramas da desindustrialização prematura. Ele escutou com paciência, recomendou perseverança no esforço da tese e ainda disse que o contexto global tinha se tornado mais complexo para o Estado nacional.

Celso Furtado pertenceu a uma geração de intelectuais que conheceu de perto os horrores da Segunda Guerra Mundial e os dramas da reconstrução europeia. Integrado à Força Expedicionária Brasileira (FEB), Furtado lutou contra o nazi-fascismo na Europa, mais especificamente na campanha da Itália. Em seu livro de memórias, “A fantasia organizada” (Paz e Terra, 1985), Furtado afirmou que “estava convencido de que o fascismo era uma ameaça que pairava permanentemente sobre as sociedades democráticas”. O crash de 1929 e suas consequências sobre a década de 1930 estavam presentes nas memórias do pós-guerra. Do ponto de vista da atualidade de suas reflexões, destaco do livro: “Como ignorar que as economias de mercado eram intrinsicamente instáveis e que essa instabilidade tendia a agravar-se?” Furtado notava então a necessidade de planejamento e intervenção racional e estabilizadora do Estado, na linha socialdemocrata derivada do keynesianismo.

Outro ponto desse livro, já na fase em que Celso Furtado trabalhava na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), das Nações Unidas, e que me parece bem atual, diz respeito à forma como se compreende o funcionamento da economia e o processo de desenvolvimento. Segundo ponderou o mestre, “a dificuldade que se apresentava para articular uma técnica de planificação advinha de que a formação dos economistas os condicionava para pensar a realidade em termos de equilíbrio. Ainda que afirmem mil vezes que a realidade é dinâmica”. De acordo com Furtado, a questão central era apontar o mapa de possibilidades de desenvolvimento, mostrando que tudo tem um preço e que o fator tempo deve ser levado em conta. “As decisões”, escreveu Furtado, “com respeito aos fins a alcançar são da área do poder, antecedem a planificação”.  Em síntese, o jogo político e a ideologia hegemônica importam.

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Em um país como o nosso, a ideologia hegemônica é tributária de fórmulas estrangeiras. No entanto, Furtado afirmou que “a problemática do desenvolvimento abarca todo o processo social e político, razão pela qual a política de desenvolvimento terá que ser inventada localmente”. A experiência na Cepal reforçou na prática vivida a sua perspectiva intelectual de que a geopolítica das grandes potências se fazia sentir intensamente nos processos históricos dos países da periferia econômica global. Desenvolvimento e subdesenvolvimento são, ainda, as duas faces da mesma moeda da economia mundial. Poucos foram os países que superaram a armadilha da renda média após a Segunda Guerra Mundial.

No seu clássico “Formação econômica do Brasil” (1959), que por feliz ironia do destino é conhecido como FEB em muitas faculdades, Furtado descreve o processo evolutivo da economia brasileira, desde os tempos de colônia até os desdobramentos da crise de 1929, contemplando os desequilíbrios industrializantes em nosso país. Ainda hoje, há uma passagem que merece reflexão nesse clássico. No capítulo XVIII, que versa sobre o confronto com o desenvolvimento dos EUA, Furtado ponderou que havia uma disparidade entre os intérpretes dos ideais das classes dominantes nos EUA e no Brasil: Alexander Hamilton e o visconde de Cairu. Segundo Furtado, “enquanto Hamilton se transforma em paladino da industrialização, Cairu crê supersticiosamente na mão invisível”. Nesse sentido, não foi por acaso que a Primeira República (1889-1930) adotou o darwinismo social como ideologia hegemônica.

Celso Furtado dirigiu os esforços da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), do governo Juscelino Kubitschek ao golpe civil-militar de 1964, quando teve os seus direitos políticos cassados e foi forçado a deixar o país, tendo escolhido lecionar na Universidade de Yale (EUA). Ele foi posteriormente lecionar na Universidade de Paris, sob a autorização presidencial de Charles de Gaulle, histórica e importante liderança entre as forças aliadas na vitória contra o nazi-fascismo. Na esteira da distensão política e da redemocratização brasileira, Furtado colaborou com muitas reflexões e planos para o Brasil. Ele foi ministro de Estado da Cultura no governo Sarney (1985-1990). Furtado faleceu em 20 de novembro de 2004 e logo em seguido foi criado o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, que, a partir de seus associados e publicações, contribui para pensar o Brasil e cultivar a sua memória.

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* Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e sócio do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento

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